sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A MEDIOCRIDADE VENCEU


*Publicado no blog Ouro de Tolo em 30/11/2014

Seja uma pessoa boa. Não crie polêmicas, puxe o saco, não tenha opinião de nada e esteja na hora certa no local certo. Taí a receita do sucesso. Precisa ser inteligente? Não. Ter talento? Não. Basta saber uma frase e usá-la sempre como mantra. “O senhor está certo”.

Foi ácido esse começo de coluna? Pode ser. Mas o tempo em que vivemos pede isso. Cada dia mais me lembro de Cazuza. Um filhinho de papai que teve tudo na mão, rico, mas tinha talento, era contestador e cantava “Meus heróis morreram de overdose/meus inimigos estão no poder”.

Não chego a tanto, não digo que meus inimigos estão no poder porque não me vejo com inimigos, acho essa palavra forte. Mas a mediocridade venceu.

A presidente da República (que para mim era a melhor opção e votei nela) foi eleita pela primeira vez porque o presidente mandou. O governador do Rio de Janeiro foi eleito porque o ex-governador mandou. Assim já elegemos prefeitos e vários locais elegem. Não elegemos mais devido à competência ou histórico. Elegemos plantas e postes porque os outros mandam. Não há mérito, há a hora certa no local certo.

A mediocridade vem vencendo na política a ponto de caciques elegerem mulheres, filhos, netos e jogarem na nossa cara que suas famílias continuarão mandando enquanto quiserem porque por mais que a gente esbraveje, reclame e queira mudanças o povo que é feito de gado mantém os mesmos.

O futebol brasileiro hoje é medíocre. Cultuamos pessoas na maioria das vezes com mentes vazias, que mal sabem se expressar, ganham 500 mil por mês e não engraxariam chuteiras de antigos craques que morreram na miséria. Tomamos de SETE em casa numa copa e fica tudo por isso mesmo. Ninguém vai preso, ninguém reclama e a CBF brinda o dinheiro de caça níqueis que a seleção faz pelo exterior enquanto os clubes estão falidos.

As artes agonizam. Para tocar em rádio não tem que ter talento: tem que ter empresário bom e pagar jabá. Espaços culturais como a “Casa da Gávea” fecham em virtude da ganância de quem aluga o espaço e falta de incentivo. Incentivo? Arruma padrinho que você consegue. Tem um monte de leis de incentivo por aí prontas pra ser abiscoitadas pelos mesmos de sempre.

Vá ao cinema que você vai ver algum filme brasileiro engraçadinho com 800 patrocinadores graças a leis de incentivo, apadrinhado pela Globo Filmes e que meia hora depois de acabar você lembra mais nada.

Roubam a Petrobras e fica por isso mesmo, imprensa publica o que quer e fica por isso mesmo. Aqui Diogo Mainardi tem voz, Danilo Gentili também. Pasmem, muita gente acha o Danilo engraçado. Ele tem mais de um milhão de seguidores no twitter e ai de você se falar mal dele lá.

Vivemos em um imenso reality show onde a mulher fica sabendo que o marido lhe traiu através de jornal. Onde escritores, poetas e dramaturgos são desconhecidos, mas ex BBBs são populares e vivem dessa “profissão”. Onde se discute pessoas, não o que elas produzem e não duvido que qualquer dia uma revista como a Caras estampe a manchete “Conheça o cocô de Grazi Massafera”.
 
Sim amigos. A mediocridade venceu.

Constatamos isso quando ídolos são de barro. Constatamos quando percebemos que o mundo está em crise de valores, ideias e ética. Quando vemos pessoas sendo decapitadas na tv em nome de algum Deus que não sabemos nem entendemos. Ser humano mata ser humano em nome daquilo que ele nem sabe o que é. O ser humano é genial porque produz seres como Gandhi, Einstein, Picasso e Bethoven. Mas quando ele quer é medíocre – e vem querendo muito.

No samba, então, vem querendo demais.

Não enrolei pra chegar aqui. Dei exemplos para chegar até aqui. O samba, como digo e reafirmo é a melhor música feita hoje no país, também anda medíocre e ele representa esse todo que escrevi acima. Também tem os postes, aqueles que não tem talento nenhum, mas sobressaem, também tem as “capitanias hereditárias” onde alguém se revela porque é parente de um famoso. Tem os medíocres no poder, como o presidente do Boi da Ilha que acha que venceu por ainda ser presidente da escola mesmo rebaixando a escola duas vezes, não tendo componente nem credibilidade pra desfilar e tendo que ensaiar na porta de um boteco.

Eu conhecia escolas de samba que tinham bar, não bar que tinha escola de samba. Na compra de uma Itaipava e uma porção de fritas ganhe uma fantasia de destaque do Boi da Ilha.

A mediocridade que faz chefes de torcida e financiadores serem chamados de compositores. Que faz de um bairro como a Ilha do Governador, que não deve ter uma dúzia de compositores de verdade, ter um monte de gente que destila arrogância, que gosta de “tirar onda”. Gente que até Estandarte de Ouro tem e não sabe cantar o samba que conquistou o prêmio.

Mediocridade que matou Franco, um dos maiores compositores de samba-enredo da nossa história. Por tentar ser presidente da União da Ilha e perder Franco foi relegado ao ostracismo na escola, humilhado de propósito tendo seu samba cortado sempre entre os 16. Em seu último samba um medíocre saiu da escola dizendo “ainda bem que cortaram logo, era bom pra caramba“. O medíocre pensa no lado pessoal, nunca no coletivo. Franco hoje é unanimidade e reverenciado, o medíocre continua sendo medíocre.

E temos que assistir a tudo isso, a essa era medíocre que assola o planeta calados, porque quem reclama, contesta, não aceita sempre corre o risco de “se queimar”.

Para mim não existe nada mais que “queime alguém” que ser “cordeirinho”.

Em 2012 ganhei samba – quer dizer, samba não, quatro versos – na União da Ilha brigado com parte da parceria porque contestei algumas coisas no Orkut e os caras ficaram furiosos comigo. Com o tempo tudo o que contestei ocorreu. Esse ano precisamos tirar da assinatura do samba do Dendê um parceiro que afirmara o fato de haver um diretor vendido. Fizemos isso com medo de ‘queimar”o samba.

No fim o parceiro estava certo.

Pior que o medíocre é o que tem voz e se cala. A omissão é pior que o erro, sempre foi. Não espere que uma pessoa de inteligência mediana mude o mundo pra melhor. Mas o que tem voz e se cala pode acabar com o mesmo.

Vivemos a celebração da incompetência, a apologia da mediocridade, o tributo a incoerência e nada fazemos para mudar isso. Vai ver a mediocridade é um ebola moral e nos contagia sem nem percebermos. No fundo somos todos medíocres.

Os racistas que fazem som de macacos em estádios. Os religiosos que atacam outras religiões, o empreiteiro que compra, o político que se vende, o compositor que empresta seu talento a alguém que só bota o nome. 

O analfabeto que sabe ler, o cego que sabe enxergar, a voz que não é solta. A mediocridade é uma falta de estado de espírito.

E assim caminha a humanidade.

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