terça-feira, 16 de dezembro de 2014

FIM DO CARNAVAL



*Último capítulo do livro "Enredo do meu samba" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 8/3/2014


É amigos… A vida tem dessas surpresas. Eu avisei que o rapaz era gay desde o início, só não esperava que fosse apaixonado por mim!! Pelo menos alguém nessa história me amava. Mas o melhor de tudo era que Bia estava livre. Fomos todos liberados da delegacia e levei minha ex e minha filha para casa. Ana Júlia foi correndo abrir a porta e ficamos eu e Bia no carro sozinhos e em silêncio por um tempo.

Eu tentava falar que lhe amava e não conseguia. A única coisa que consegui perguntar foi como ela estava. Bia respondeu que bem, só estava surpresa do Zé estar apaixonado justo por mim. Ri e comentei que eu era uma pessoa apaixonante, Bia se virou pra mim e disse “sim, você é e sabe disso”. Era a minha senha, a chance de falar alguma coisa e disse nada. Fiquei em silêncio e Bia disse que estava tarde e se despediu de mim. Quando descia, falei “espera”.

Ela virou pra mim e em vez de falar tudo que queria apenas comentei que para o dia seguinte estava marcado o encerramento do “casa de bamba” então não pegaria a Julinha. Com jeito frustrado minha ex apenas balançou a cabeça concordando, mandou que eu desse um abraço em Manolo e desceu. Assim vi a Bia entrar e falei nada. Quando entrou dei um soco no volante que disparou a buzina.

Que idiota…

No dia seguinte fui para o trabalho e todos já sabiam do ocorrido no casamento e me gozavam. Levei na esportiva enquanto meus colegas diziam que fugi com o noivo.

Um tempo depois meu chefe chamou até a sua sala. Entrei e ele mandou que eu sentasse. Estranhei e sentei. Ele botou uísque para mim e perguntou se eu me casaria com o noivo de minha ex-esposa. Apenas ri e ele, sério, perguntou se eu iria ao fechamento do “casa de bamba”.

Respondi que sim e disse que ainda tinha um fio de esperança das coisas se reverterem e não precisar fechar. Meu chefe corroborou na esperança e pediu que eu fizesse uma matéria do que ocorresse no bar. Concordei e ele emendou “e amanhã você assume a editoria de política”.

Não entendi e pedi que ele repetisse. Meu chefe repetiu. Eu assumiria a editoria mais importante do jornal e ganharia um substancial aumento de salário. Feliz com o reconhecimento abracei meu chefe e ele mandou que soltasse, pois gostava de mulher.

Passei o dia feliz e trabalhando. Ao mesmo tempo passava as horas olhando o celular ansioso por receber uma ligação. Meus colegas brincando perguntaram se era de Zé e Luisinho se era de Bia. Respondi que não, mas era uma ligação muito importante. O expediente se encerrou, nada da ligação e era hora de partir ao “casa de bamba”. A hora do adeus.

Cheguei lá e o bar estava vazio. Entrei e encontrei Almeidinha arrumando tudo. Perguntei como ele estava e o garçom com lágrimas nos olhos respondeu que bem. Dei um abraço nele e perguntei por Manolo. O homem disse que estava no segundo andar.

Subi e encontrei Manolo sentado olhando os quadros. Quadros com cada figura não só importante para o samba, mas para aquele bar, para sua vida. Sentei a sua frente e peguei sua mão. Manolo olhou pra mim e disse nada. Ficamos lá os dois com mãos dadas apenas nos olhando.

Depois de um tempo Manolo disse “acabou”. Respondi que muitas vezes quando achávamos que era o fim poderia ser o começo. O dono do bar me falou que não saberia viver sem o bar e Almeidinha subiu dizendo que o pastor chegara.

Manolo mandou que subisse ao mesmo tempo em que meu telefone tocou com o telefonema que eu tanto queria receber. Atendi e sorrindo respondi ao meu interlocutor “tudo bem” e desliguei. O pastor subiu e nos cumprimentou. Entregou um cheque com a terceira parte do pagamento, Manolo pegou e colocou no bolso. Faltava assinar o contrato repassando o imóvel para o pastor.

Quando Manolo ia assinar o contrato mandei que esperasse. O pastor perguntou se havia algum problema e pedi que apenas esperasse por dois minutos. O homem irritado perguntou se Manolo compactuava com aquilo e o que ocorria. O dono do bar tentava se explicar quando Almeidinha novamente subiu dizendo que tinham visitas. Antecipei-me e mandei subir.

Muito aborrecido o pastor perguntou que palhaçada era aquela quando uma mulher subiu. Dei lhe um abraço e puxei para perto dos homens lhe apresentando. Dona Ivone Aragão, vereadora da cidade do Rio de Janeiro. Foi a vez de Manolo perguntar o que ocorria e pedi que dona Ivone contasse. Ivone explicou que eu lhe procurei um tempo antes contando do drama do bar e pedindo que ela fizesse algo e ela fez.

Os dois ouviam Ivone que respirou e contou que entrou com pedido de emergência para votação do tombamento do “casa de bamba” como patrimônio cultural do Rio de Janeiro, a emenda fora aprovada e sancionada pelo prefeito alguns minutos antes, entrando no dia seguinte do diário oficial.

Resumindo. O bar não podia mais ser vendido e transformado em igreja.

Almeidinha comemorou abraçando Manolo que, estarrecido, não acreditava no que ouvia. O pastor riu e comentou que a história toda era muito bonita, mas dera duas parcelas de pagamento a Manolo e perguntou se o dono do bar tinha o dinheiro para lhe devolver. O homem respondeu que não mais e ele perguntou como ficariam.

Contei que pensara em tudo e nesse momento um homem subiu as escadas. Apresentei a todos. Era Jorge Lara, um grande amigo meu que contou que eu lhe procurara contando toda a história da casa, sua tradição, as pessoas que passaram por lá e se sensibilizou e empolgou. Perguntou se Manolo lhe aceitaria como sócio.

Manolo, atordoado, não conseguia acreditar naquilo tudo. Jorge ofereceu devolver as parcelas pagas pelo pastor e restaurar o bar. Perguntou se Manolo queria e eu incentivei dizendo que o homem tinha nada a perder.

Manolo sorriu respondendo que sim; então Jorge sentou-se à mesa, assinou um cheque preenchendo com o valor que o dono do dar devia ao pastor e lhe entregou. O pastor olhou o cheque, disse que era o valor certo, falou que não faltavam lugares decadentes no Rio para comprar e foi embora.

Jorge olhou para Manolo, estendeu a mão e perguntou “sócios?”. Manolo – com lágrimas nos olhos – sorriu e apertou sua mão dizendo “sócios”. Mandei que Almeidinha pegasse uma gelada para celebrarmos aquele momento.

Consegui!! O “casa de samba” não fecharia mais, a cultura carioca estava preservada.

Manolo reservou uma feijoada com grande festa para que todos comemorassem que o bar continuaria de pé. Cheguei com Mariana, Bia e Ana Júlia e o homem foi logo me puxando para o segundo andar.

Quando subi Manolo falou que tinha um quadro novo e queria que eu visse. Quando olhei era uma foto minha com meu pai. Surpreso e emocionado perguntei o que era aquilo. Manolo respondeu que era a homenagem que podia fazer a pessoa mais importante que já passou por aquele bar. Eu.

Pois é. Eu que não era tão ligado a samba, fui pela primeira vez naquele bar apenas para cobrir seu possível fechamento cheguei naquela situação. Mal consegui falar obrigado e o homem disse: “Pedro, você é um bamba”.

Voltamos para a roda de samba e enquanto eu bebia com Mariana troquei olhares com Bia. Mariana notou e falou que achava bom nós terminarmos. Engasguei com a cerveja e perguntei porquê. Mariana contou que recebera proposta pra trabalhar como modelo em São Paulo. Fiquei feliz por finalmente conseguir realizar seu sonho e ela completou “Não é interessante para mim trabalhar como modelo e namorar”.

Eu entendi onde ela quis chegar. Abracei Mariana e agradeci. Ela falou em meu ouvido “vai lá, não a perca”.

Enchi de coragem e me aproximei. Chegando perto vi que ela conversava com o Zé. Pensei em correr quando ele me viu e me deu um beijo na bochecha, apresentando seu namorado chamado Rob. Antes que eu falasse algo Zé disse que ia pro meio do povo sambar com Rob porque o corpo dele pedia isso. Muito gay.

Ficamos eu e Bia ali. Muita gente em volta, mas parecia ser apenas nós dois. Peguei uma cerveja e enquanto enchia seu copo contei que acabara de tomar um fora. Bia perguntou de quem e respondi de Mariana, virara modelo e achou melhor assim.

Era a hora!! De dizer pra Bia que lhe amava!! Mas não conseguia, não saía. Bia perguntou se eu queria falar algo e não consegui. Tentei me lembrar de como consegui da outra vez, quando nos conhecemos e lembrei que não falei, cantei em um videokê.

Naquele momento Penteado, que comandava a roda de samba, me chamou pra cantar. Tinha que ser ali, naquele instante e fui. Penteado perguntou o que eu iria cantar e pedi um dó maior.

Enquanto o cavaco tocava olhei pra Bia e cantei “pôxa” de Gilson de Souza. Aquela que diz “Pôxa como foi bacana te encontrar de novo/ Curtindo um samba junto com meu povo/ Você não sabe como eu acho bom/ Eu te falei que você não ficava nem uma semana/ Longe desse poeta que tanto te ama/ Longe da batucada e do meu amor”.

Era minha música com Bia. A música que cantei no videokê.

Ela já me olhava e chorava quando finalmente tomei coragem e disse ao microfone “Bia eu te amo”. Ela correu para meus braços e me beijou. Um beijo apaixonado, tão desejado por tanto tempo que foi aplaudido e receber rufar da bateria presente.

Vi um juiz de paz amigo meu ali e pedi que nos casasse. Ele se espantou e perguntou “Aqui?”. Respondi que sim e perguntei se Bia topava. Ela riu e perguntou se eu era louco. Falei “Sim, eu sou, quer ou não?”.

Ela, sem graça e gargalhando, me abraçou e disse: “claro, sua besta”.

O corredor foi formado. Na frente as porta bandeiras de todas as escolas de samba do Rio de Janeiro caminhavam com as bandeiras das agremiações e atrás Julinha. Atrás de Julinha Zé conduzia Bia até o altar improvisado ao som de “pôxa” sendo cantado pela rapaziada.

Ele me deu a mão de minha ex futura atual e eu disse pro homem “nada de beijos”. Peguei a mão e me virei pro juiz. Dessa forma finalmente nos casamos naquele sábado de Sol que irradiava felicidade pelo Rio de Janeiro. Não era sábado de carnaval, mas era como se fosse. Era um dia feliz onde mais uma vez o samba quebrara barreiras, ultrapassava as dificuldades e vencia emoldurando uma louca e linda história de amor.

Todos os personagens dos contos do livro estavam lá celebrando o samba e a alegria. Sambavam, batucavam, cantavam felizes em um congraçamento de raças e vidas.

Eu em um canto assistia a tudo quando Penteado ao microfone, já com Jorge e Ivone ao lado, virou pra mim e disse que cantaria uma em especial que sabia que mexeria com meu coração.

Completou “Em especial pro meu parceiro Pedro de Oliveira e a seu Jair”.

E começou a cantar “Enredo do meu samba”. A música preferida de meu pai. Emocionado olhei pro céu e fiz um brinde dizendo “tamos juntos meu velho!! Obrigado por tudo seu Jair!!” Bia e Julinha se aproximaram. Minha filha foi para meu colo e minha mulher me abraçou. Eu, com lágrimas nos olhos, observava aquela gente toda feliz cantando e Julinha me perguntou como acabava meu livro.

Apontei aquela gente sambando e respondi.

“Acaba assim minha filha”.

Viva o samba!! Viva nossa maior cultura!!

ENREDO DO MEU SAMBA
(Dona Ivone Lara/ Jorge Aragão)
 
Não entendi o enredo desse samba amor
Já desfilei na passarela do seu coração
Gastei a subvenção do amor
Que você me entregou
Passei pro segundo grupo e com razão
Passei pro segundo grupo e com razão
 
Meu coração carnavalesco não foi mais
Que um adereço, teve um dez
Na fantasia, mas perdeu em harmonia
Sei que atravessei um mar de alegorias
Desclassifiquei o amor de tantas alegrias
 
Agora eu sei desfilei sob aplausos da ilusão
E hoje tenho esse samba de amor por comissão
Fim do carnaval, nas cinzas pude perceber
Na apuração perdi você

FIM


FIM DO CARNAVAL?

Alguns meses depois fiz o lançamento de meu livro “Enredo do meu samba” no “Casa de bamba”. Casa cheia, com muitos convidados, muitos dos retratados no livro. Um dia muito feliz. No fim um homem se aproximou para dizer que tinha uma história sensacional para mim. Retruquei que o livro já estava encerrado e publicado quando ele respondeu “Mas é uma história incrível que ocorreu com um amigo meu lá da Vai vai”.

Perguntei “Vai vai?” e ele respondeu “Sim meu, a escola de São Paulo”.

São Paulo… Meu Deus!! Vai começar tudo de novo!!


FIM?


ENREDO DO MEU SAMBA 

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