sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ANTÔNIO CARLOS JOBIM

*Coluna publicada no blog "Ouro de Tolo" em 14/12/2014

Antonio Carlos Jobim é o maior artista que já nasceu em solo brasileiro e nisso não há discussão.

Como assim? Começar a coluna com uma frase forte como essa? O Brasil tem e teve tantos artistas fantásticos!! E Drummond? Machado de Assis? (Poetas e escritores são sim artistas) Villa Lobos? Portinari? Chico? Caetano? Nelson Rodrigues? Glauber Rocha? Cartola? Thiaguinho?

Pode parecer exagero e até pode ser, mas estou sob efeito de ouvir composições de Jobim para escrever essa coluna no Ouro de Tolo, uma homenagem em meu blog e não tem como passar por Antônio Carlos Jobim e ignorar seu imenso talento.

Tom Jobim teve três grandes azares na vida. Primeiro ser talentoso e reconhecido por esse talento; o mesmo dizia que sucesso no Brasil é ofensa pessoal. Teve o azar de ser contemporâneo em sua genialidade com Pelé, o que impediu que fosse o maior e mais famoso brasileiro do século XX; e o terceiro de morrer em 1994, ano marcado pela trágica passagem de Ayrton Senna.

Em qualquer momento e em qualquer país a morte de um artista do nível de Tom Jobim teria uma repercussão incalculável. Aqui na época teve muito menor que deveria e seus 20 anos de passamento menos lembrados que também deveriam.

Claro que foi lembrado e reverenciado após a morte. Com imensa justiça seu nome batizou o aeroporto internacional do Galeão, justiça porque ninguém apresentou o aeroporto tão bem ao mundo como em “O samba do avião”. Podemos dizer que temos um pedaço de Tom Jobim na Ilha do Governador. Agora virou estátua e a maior preocupação em relação à bonita estátua é que sofra vandalismo como sofreu a de Drummond.

Pobre país esse em que estátuas correm risco de vida.

Tom Jobim é sim respeitado no Brasil, aclamado, uma quase unanimidade, mas podia mais. Muito mais.

Se junto com seus parceiros históricos tivesse composto apenas “Chega de saudade”, “A felicidade”, “Águas de março” e “Eu sei que vou te amar” Tom Jobim já seria considerado um dos nossos maiores compositores.

Mas aí junto com outro cara sagaz chamado Vinicius de Moraes ele se encantou com uma novinha na praia. Poderiam ter mandando os usuais “ê lá em casa”, “te faço todinha” ou “você é a nora que mamãe pediu a Deus”. Poderiam, mas não fizeram. Decidiram fazer a mais importante música da história do Brasil.

“Garota de Ipanema” é um clássico, é o verdadeiro hino nacional brasileiro. Poderia e deveria colocar junto “Aquarela do Brasil”, mas “coqueiro que dá coco” é forte demais. A música de versos simples que retrata uma menina andando na praia de Ipanema é a nossa música mais conhecida, mais regravada, mais enaltecida. “The girl from Ipanema” é uma das músicas mais conhecidas do mundo”. Gravada desde Frank Sinatra até Amy Winehouse.

“Garota de Ipanema”, de letra simples e música envolvente com harmonia requintada é a canção símbolo de um movimento que Tom Jobim foi um dos líderes e inventores, outro fator que lhe coloco como o maior dos nossos artistas.

A bossa nova, vista hoje em dia, tem nada demais. Versos simples, muitas vezes simplórios que se encaixariam em muitas músicas atuais. O que fazia a diferença além da melodia e dos arranjados requintados era a invenção de um novo jeito de cantar.

Um cantar contido, baixinho, sem abrir vozeirão, estufar o peito. Nada disso. Um banquinho, um violão, uma sonoridade que lembrava o jazz e voz pequenininha revolucionaram e levaram o Brasil ao mundo. 

O Brasil que dava certo era o Brasil dos gols de Pelé, dribles de Garrincha, formas de Marta Rocha, Adalgisa Colombo, Ieda Maria Vargas e a música dessa turma que tocou até no Carneggie Hall. O Brasil não era mais só café. Era café, Pelé e bossa nova. Era da garota de Ipanema. Tom e Vinicius reinventaram a forma de cantar e fizeram da praia de Ipanema uma das mais famosas do mundo. Não é pouco.

Antonio Carlos Brasileiro Jobim. Brasileiro até no nome, carioca em toda sua essência. Só um carioca poderia compor uma música numa mesinha de bar vendo uma ninfetinha passar de biquini na praia. Só um típico carioca usaria chapéu Panamá, botaria uísque em cima de um piano e tocaria para um público em Montreal, Tóquio ou Nova York como se desfilasse na Mangueira sendo homenageado.

Tom Jobim era de Ipanema, do Brasil, do mundo, mas também do Jardim Botânico, dos parques onde admirava passarinhos. Tom Jobim dominava a linguagem universal mesmo apenas dedilhando um violão.

Fez um barulho enorme na vida cantando baixinho. Saiu de cena de forma discreta como uma canção da bossa nova e, sem que ninguém percebesse, essa retirada fez 20 anos. Mas mesmo que a gente às vezes não se lembre Tom está aqui. Carregando seu violão como na estátua, enraizado em nossa cultura como uma árvore que admirasse.

O Brasil está a vinte anos fora do “tom” e infelizmente não é apenas porque Tom morreu, mas porque para o show business de hoje no bolso do desafinado também cabe um milhão e permanência constante na mídia. Hoje não importa mais cantar baixinho ou abrir a voz, importa o quanto uma imagem possa vender.

Pena que nem todos sejam iguais a você.

Mas chega de saudade!! Hoje é dia de celebrar com um uísque e olhando a novinha passar na praia!!

Obrigado Tom.


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