sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

AMOR: CAPÍTULO VI - A MÃO QUE AMPARA




Ficamos bastante tempo naquela posição. Abraçados e eu lhe amparando sem dizer nada. Perguntei se Camila queria dar uma volta e ela concordou. Fomos para o Arpoador.

Sentamos e olhamos um tempo o mar em silêncio. Achei que já estava na hora que “quebrar aquele gelo”. Disse “isso aqui é lindo” quando de supetão Camila falou “estou grávida”.

Tive aquela reação idiota que a maioria das pessoas que recebem essa notícia de surpresa tem. Perguntei “como?”. Ela suspirou bem fundo e respondeu “Da mesma forma que todas engravidam excetuando a Virgem Maria”.

Rapaz..Aquilo foi um tiro de fuzil no meu coração. Senti como se tivesse ido direto pro inferno e caído no colo do capiroto. A tristeza invadiu a minha alma como poucas vezes senti em minha vida e eu não sabia o que dizer.

Fiquei em silêncio. Senti meus olhos lacrimejarem, mas me fiz de forte quando percebi que os de Camila lacrimejavam mais ainda. Respirei, engoli o choro e disse “Vocês serão felizes, Guga é um cara bacana”.

A dor era grande demais. Meus sonhos, minha esperança acabavam ali.

Sem me olhar, ainda olhando o horizonte Camila contou “vou tirar”. Olhei assustado para ela e dizendo que Guga nunca aceitaria e ela respondeu “ele que pediu”.

Não entendi nada. Levantei e indignado pensei em um monte de coisas para dizer só conseguindo falar “Como assim?”. Sem conseguir me olhar Camila comentou que Guga achava que os dois eram muito jovens e estragariam suas vidas tendo um filho.

Eu era um tanto quanto tradicionalista nesse tipo de assunto e me indignei dizendo “Na hora de fazer vocês não pensaram nisso!!”.

Não era o meu direito falar aquilo. Eu não tinha nada a ver com aquela história e acabei falando demais. Esperei a reação furiosa de Camila dizendo para que não me metesse em sua vida e ao contrário disso a mulher que eu amava abaixou a cabeça e começou chorar pedindo que não lhe julgasse, pois só tinha a mim para ajudar.   

Aquela reação me desconcertou. Sem saber o que fazer sentei novamente e abracei Camila enquanto chorava. Abracei, passei a mão em seus cabelos e apenas consegui dizer “estou com você”.

Aquela história realmente não era minha, eu não tinha nada a ver com ela, mas já estava completamente envolvido, pois se envolvia Camila envolvia diretamente a mim. O clima entre Camila e Guga estava péssimo e eles acabaram terminando.

Seria motivo para comemorar. A mulher da minha vida estava livre, mas eu não tinha nada para comemorar lhe vendo naquela situação.

Camila pertencia a uma família de novos ricos, assim como a de Guga e as duas famílias se davam muito bem enaltecendo e dando forças para o casal. 

A mãe de Camila, dona Suely, era o tipo de mulher que ia todos os dias a missa e achava que rezando a fazendo algumas obras de caridade na igreja ficava limpa de seus pecados do dia a dia como vaidade e soberba.

O marido dela, Osmar Pires, era dono das “Padarias Pires”, maior franquia de padarias do Rio de Janeiro, mas quem mandava na casa era dona Suely.

Com tudo isso que eu disse Camila não teve coragem de contar aos pais o que ocorria. Eles não entendiam a separação de Guga e cobravam a menina perguntando o que ela fizera de errado. O tempo passava e Camila se desesperava porque logo a barriga apareceria e ela precisava de uma solução.

Ao contrário de Guga que parecia estar nem aí com a história e ignorava Camila todas às vezes que ela lhe procurava.

Um dia Camila foi até minha casa e pediu mais uma vez que eu lhe ajudasse, ela tinha que tirar a criança. Isso ia contra todos os meus princípios, mas vendo o desespero que ela se encontrava perguntei como.

Camila respirou fundo, disse que já tomara medicamentos para abortar, mas não dera certo pedindo então que eu encontrasse uma clínica de aborto.

Clínica de aborto não é igual boca de fumo que você encontra em todas as esquinas do Rio de Janeiro. Perguntei como faria isso e Camila respondeu implorando “Me ajuda Toninho, pelo amor de Deus, eu só tenho você e já tenho quase três meses de gravidez”.

É. Eu não poderia deixá-la na mão.

A criança não era minha, não fui eu que fiz e a responsabilidade caiu toda em cima de mim. Não era pai da criança, mas virei a mão que ampara, a pessoa responsável pelo futuro de Camila. O assunto virou o principal da minha vida e não conseguia me concentrar mais em nada.

Acabei sobrecarregando Samuel em nossos eventos e meu amigo, com razão, reclamava de minhas atitudes. Pensei em falar com Pinheiro, mas não soube como chegar em meu padrasto e contar algo tão embaraçoso da intimidade de Camila.

Pesquisei na internet, mas clínicas de aborto não são coisas simples de se achar no google. Precisava de ajuda. Precisava de uma luz.

Um dia fui visitar Camila na faculdade, ver como ela estava e conversamos um pouco no pátio. Camila se mostrou uma menina totalmente diferente da alegria e irradiação de energia que sempre me transpareceu. Desolada, apática, depressiva, ela não sabia mais o que fazer e mais uma vez implorou por minha ajuda.

Conversamos e nos despedimos para que ela voltasse à sala de aula. Camila pediu que não lhe deixasse sozinha e acompanhasse até a porta da sala.

Prontamente atendi.

Caminhávamos conversando quando chegando próximos da sala vimos Guga no corredor. Ele animadamente conversava com uma loira e fazia carinho no seu rosto. Eu percebi e fiquei desconcertado. Camila também e tentou disfarçar o quanto ficou incomodada.

Passamos por eles e Guga ignorou completamente Camila falando apenas comigo e dizendo “Fala doido, ta sumido”. Antes que eu respondesse algo Camila parou de caminhar e foi ao seu encontro dizendo que precisava falar com ele.

Guga tentou se livrar de Camila dizendo que não tinha nada para falar com ela. Camila insistiu, praticamente se humilhava enquanto a loira ria e Guga respondeu “Vaza Camila, to ocupado porra!!”.

Aquilo esquentou meu sangue. Vi Guga debochando, Camila chorando e empurrei a menina para o lado indo direto em Guga. Perguntei se ele tinha certeza que não tinham nada para conversar e ele respondeu perguntando “Qual foi Toninho? Vai se meter em assunto que não é seu?”.   

Camila implorava para que eu parasse até que falei demais. Virei para a loira e perguntei “Sabia que esse aí tem mania de engravidar mulheres e fugir?”.

Camila ficou furiosa comigo, reclamou que era segredo nosso e tinha traído sua confiança quando Guga disse “Quem garante que é meu?”.

Não aguentei e dei um soco no rosto de Guga.

Pronto. O barraco estava armado. Ele devolveu o soco e nos embolamos no chão brigando. A loira se afastou de mansinho enquanto Camila implorava que parássemos. A turma do “deixa -disso” chegou para apartar enquanto nos surrávamos e nos separaram até que a segurança chegou.

Gritei que Guga era moleque e não assumia as coisas que fazia enquanto meu ex-amigo respondeu “Você tem inveja de mim!! É um merda que sempre quis tudo que é meu!! Pode ficar com ela!!”.

Minha vontade era de voar em cima de Guga e arrebentá-lo em mil pedaços. Mas acabei sendo levado para fora da instituição por não ser mais aluno dela.       

Machucado esperei sentado no meio fio que Camila saísse. Ela saiu amparada por amigas dez minutos depois e tentei falar com ela. Quando me aproximei ela percebeu minha presença e com muita raiva gritou “Não se aproxime de mim!! Você me traiu!! Te odeio!!”.

Não tive reação. Sentia meu coração despedaçando enquanto ela ia embora.   

Fui para casa disfarçando as lágrimas, entrei no quarto e me tranquei. Liguei o som e fiquei deitado na cama chorando e ouvindo música. Quando ouvia Raspberries e  “Don`t Want To Say Goodbye” bateram na porta.

Abri e era Camila.

Camila chorava e quando disse “me desculpa..” não deixei que ela completasse. Pus o dedo em sua boca fazendo sinal de silêncio e lhe abracei. Abracei forte como se lhe protegesse ouvindo aquela música que já era tão marcante para mim.

Depois nos deitamos e ela pôs a cabeça em meu peito. Os dois em silêncio.

Depois de algumas horas saía com Camila do apartamento quando Bia entrou. Minha amiga vendo o estado que estávamos e sabendo do que ocorrera disse “Vocês não saem daqui até me contar o que está acontecendo”.

Ainda tentamos disfarçar, mas ela continuou “Eu não sou idiota, vamos sentar e vocês vão me contar”.

Sentamos. Camila ficou sem jeito, mas acabou contando, contando tudo. Bia olhou para nós dois em silêncio por um tempo e disse “Eu sei onde tem uma clínica de aborto, levei uma amiga lá”.

Camila e eu nos olhamos enquanto Bia levantou, pegou papel, caneta, escreveu e nos passou o papel dizendo “é um local bem discreto e concorrido. Tem que marcar antes de ir”.

Peguei o papel, olhei bem para ele, depois para Camila que estava aflita e respondi “eu vou lá”. Bia perguntou por Guga e eu disse “ele não precisa saber”.

Camila foi ao banheiro e Bia ficou me olhando. Eu sem jeito perguntei porque ela me olhava tanto e Bia perguntou “Você ama demais essa menina né?”.

Com segurança respondi “Mais do que tudo nessa vida”.

Camila saiu do banheiro e a levei pra casa. Na porta ela me perguntou se eu teria mesmo coragem de fazer aquilo e respondi que sim. Meu amor me deu um beijo no rosto dizendo que não sabia como me agradecer.

Naquele instante dona Suely surgiu e viu a cena mandando que Camila entrasse.

Dei boa noite para dona Suely que me olhou por um tempo e respondeu secamente entrando logo depois.

Como eu disse, dona Suely comandava a família e era incrível o medo que Camila sentia dela. Por sorte a família não soube da briga na faculdade.

No dia seguinte fui cedo a tal clínica. Parecia uma pequena empresa, não tinha placa indicando nada, apenas uma porta e uma campainha. Toquei e quando entrei vi várias mulheres em uma recepção. Fui até a recepcionista buscando horários para exames e consegui para em três dias.

Comuniquei a Camila que assustada soltou um “já?”. Vi a menina fraquejar naquele instante e perguntei se ela tinha certeza que queria realmente aquilo e ela abaixando os olhos respondeu “Eu preciso”.

Dormir? Impossível dormir nos três dias seguintes. Pesquisava na internet sobre aborto e as informações eram as piores possíveis. Via a forma que era realizado, a crueldade que as crianças passavam e me perguntava se Deus me perdoaria um dia. Tinha medo também que ocorresse algo de mal com Camila, me perdoaria nunca.

No dia marcado peguei Camila em casa e levei até a clínica.

Entramos no local e senti meu amor trêmulo. Peguei sua mão gelada e suando e segurei firme para mostrar que ela não estava  sozinha. Diversas mulheres de todos os tipos e classes sociais estavam na mesma situação esperando na recepção. Olhares assustados, mulheres com medo sem saber o que lhes esperava.

Cheguei na recepcionista, falei com ela e sentamos aguardando o chamado.

Depois de interminável uma hora Camila foi chamada pelo médico. Ela levantou assustada, me olhou e eu disse “Estou aqui te esperando”.

Esperei mais uma interminável meia hora até que Camila saiu da sala do médico. Saiu chorando de lá e eu desesperado fui ao seu encontro perguntar o que tinha ocorrido. Camila limpou as lágrimas e disse “Eu me enganei, não estou de quase três meses, estou de cinco”.

Me assustei com a informação e perguntei o que fazer naquele instante. Camila respondeu que não sabia, não tinha coragem de abortar de uma criança que já estava com cinco meses e mesmo que tivesse o dinheiro pedido pelo médico era muito maior do que ela poderia pagar.

Vendo seu desespero e vendo que estava sem saída apelei. Do nada olhei para ela e disse “casa comigo”.

Camila me olhou sem entender e perguntou “como?” repeti o pedido e disse que iria até sua casa dizer que ela estava grávida de mim, assumiria a criança para seus pais e diria que queria casar com ela. Camila sorriu, passou a mão no meu rosto e pediu “me leve embora daqui”.

Levei Camila  para minha casa. Ela estava cansada e dormiu.

Dormiu ali na minha cama e eu fiquei ao lado na cadeira sentado e velando seu sono. Olhava para ela e sonhava enquanto ela dormia.

Tão linda, tão frágil, tão desprotegida. Como eu queria proteger aquela mulher. Cuidar dela, amar..

Depois de um tempo acordei Camila levando suco e biscoitos para que comesse. Ela levantou e se sentou aparentemente melhor. Conversamos um pouco, rimos lembrando de histórias nossas e a levei pra casa.

Chegando lá antes que entrasse Camila perguntou “Você casaria comigo mesmo?”. Respondi que sim. Camila sorriu, me deu um beijo no rosto e entrou.  

Alguns dias depois Samuel chegou em casa me contando que Camila passara mal na faculdade. Perguntei como ela estava e meu amigo respondeu que não sabia dizer. Apenas que uma ambulância levara.

Desesperado, fui buscar informações e descobri o hospital que fora levada. Cheguei ao local e vi alguns conhecidos da faculdade no local e uma de suas amigas disse que ela estava internada e estava fora de perigo.

Mas Camila perdera o bebê.

Eu não sabia como me sentir com aquela informação. Sabia que ela não queria a criança, mas sou contra o aborto, apesar de achar que ele deve ser liberado para mulheres não sofrerem na mão de açougueiros. Lamentei  pela criança, pela vida perdida e por todo o sofrimento daqueles dias.

Mas pelo menos o sofrimento chegava ao fim. 

Fui para frente do quarto que Camila estava internada e encontrei seus pais. Estavam desolados, de cabeça baixa, deviam tentar entender toda aquela situação já que não sabiam da gravidez. Perguntei por ela, Suely me ignorou e Osmar com a cabeça baixa respondeu “está lá dentro, pode entrar”.

Entrei e encontrei Camila dormindo. Procurei ficar em silêncio para não acordá-la. Olhei a mulher que eu amava por uns minutos, dei um beijo em sua testa e fui embora.

Em alguns dias Camila receberia alta e resolvi fazer uma surpresa para ela. Achei que era hora de me declarar, mostrar todo meu amor e propor uma nova vida a partir dali. Uma vida de amor, cumplicidade e lealdade.

Comprei flores e fui para o hospital. Queria estar lá para levá-la pra casa e acarinhá-la, dar meu carinho e atenção naquele momento difícil.

Mas cheguei atrasado.

Osmar e Suely saíam do hospital assim que eu cheguei e me encontrava do outro lado da rua. Osmar carregava uma bolsa que devia ser de Camila, abriu a porta do carro que se encontrava na frente do hospital e entrou com Suely.

Logo após saíram Guga e Camila.


Sim. Guga e Camila.

Saíram abraçados. Andaram dessa forma, abraçados até o carro. Guga abriu a porta para Camila que entrou. Ele abriu a porta ao lado e os dois ficaram sentados juntos na parte de trás do carro.

Osmar deu a partida e Camila encostou sua cabeça no ombro de Guga que lhe deu um beijo. Depois disso o carro partiu.

Levando meu coração junto.

Eu fiquei ali sem saber o que fazer, sem saber como agir. Olhei para trás e vi uma senhora com uma barraquinha vendendo balas. Andei até ela que me perguntou se eu queria alguma bala. Nada respondi e entreguei as flores para ela que sorriu e disse que nunca recebera flores antes.

Fui embora dali e fui para meu refúgio. O Arpoador.

Sentei nas pedras, olhei o mar e comecei a chorar. Chorar compulsivamente olhando o mar. Não conseguia fazer mais nada. Apenas chorar.

Não estava fácil pra mim.

CAPÍTULO ANTERIOR:

 

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