quarta-feira, 19 de novembro de 2014

UM ANO




Algumas pessoas costumam dizer que nasceram de novo. Geralmente quando isso ocorre é com pessoas que passaram por alguma dificuldade ou algum perigo que colocou em risco sua vida e acaba considerando como renascimento o fim desse período difícil.

Algumas colocam uma data como o dia desse renascimento e acabam utilizando essa data como um segundo aniversário. O dia em que nasceram de novo.

Eu desde o ano passado tenho uma data assim e tive a vantagem de não correr risco de vida, não chegou a tanto, para ter um segundo aniversário.

Essa data é o dia 19 de novembro. Quem vem a ser a data de hoje.

Mas por quê eu considero tanto atualmente o dia 19 de novembro?

Essa data representa uma mudança radical na minha vida. Talvez a mudança mais radical que tive até hoje. O ano de 2013 não estava fácil. Apesar de ter tido a maravilha do nascimento de meu segundo filho Gabriel posso dizer que não estava feliz.

O próprio Gabriel vinha tendo dificuldades. Acabara de passar por uma internação difícil num hospital onde muito nos consumiu e deu medo em relação ao futuro. Minha vida também não andava.

Eu me via aproximar dos 40 anos sem ter um futuro visível. Sem profissão, tem ver no horizonte forma de me sustentar e ser reconhecido por aquilo que melhor sei fazer, escrever, amava há anos uma mulher que não queria mais nada comigo (ao menos achava que amava) cuja vida já andara e estava completamente independente da minha. Me sentia feio, gordo, sem graça, sem nenhum tipo de atrativo para mulheres ou mesmo amigos.

Não posso dizer que estava em depressão porque depressão é uma palavra e uma doença muito forte. Mas caminhava para isso.

Preferi caminhar por outro caminho.

Um dia fui jantar num restaurante que tem um ótimo churrasco misto (comer era uma das poucas coisas que me dava prazer) e voltando para casa passei pela farmácia de minha esquina como sempre passava. Não sei porque naquela noite resolvi me pesar.

Pesei e marcou 111,5. Não era um peso muito grande para mim que me acostumei na fase adulta a pesar em média entre 116 e 120. Se considerasse que estava com calça jeans, tênis e roupa pesada podia baixar pra 110,5. É, pra quem pesou 79 quilos em 2008 após uma dieta rigorosa não era legal, mas pra vida que eu estava levando não era ruim.

Acabou que me animei. Pensei “110,5 da pra encarar”. Mais uma vez como algumas de 2008 em diante decidi retomar as caminhadas e dietas. Várias vezes fracassara nessas tentativas então fiz planejamento humilde “Vou baixar de 100, ta bom. Quem sabe com sorte não chego a 90?”.

Eu precisava daquilo. Não era mais apenas por questões estéticas como nas anteriores. Também era por isso, claro, mas me aproximava dos 40 anos, fase que começa a cobrar os desmandos que temos com nosso corpo. Uma hérnia de disco começava a ser cultivada o que atrapalhava demais meus movimentos e limitava minha vida. Meus filhos cresciam e precisavam do pai saudável para criá-los e bem para brincar com eles. Acompanhar esse crescimento.

Comecei devagar. Com quatro dias quase desanimei por procurar uma balança funcionando perto de minha casa para ver diferença e nenhuma estar funcionando. Com uma semana quase desanimei quando achei a balança e perceber que não perdera peso. Mas no oitavo dia o Flamengo foi campeão da copa do Brasil e na animação decidi pesar de novo. Perdera um quilo. É, começava a dar certo.

Fui ajeitando minha alimentação no período. No começo falava que não abriria mão da minha pizza nos fins de semana, era apenas pra perder um pouco de peso. Mas em algumas semanas já estava trocando essas guloseimas por frutas. Minha alimentação diária passou a ser uma pêra, duas maçãs, um miojo e jantar normal. Tudo acompanhado por muito suco.

Saía da dieta nas sextas-feiras, dia de pesar quando me permitia comer pão com mortadela e tomar coca zero. Com o tempo comecei a me dar parte do sábado também. Isso foi com algumas semanas de dieta quando conheci a Hellen. Pessoa fundamental em minha vida e em todo esse processo de qual falarei melhor daqui algumas semanas.

As caminhadas de leve foram ficando pesadas. Sem perceber já andava de 4 a 5 horas por dia. Não seguidas, mas em 4 ou 5 saídas pra caminhar. A coisa começou a dar certo em cima de muito sacrifício.

As pessoas começaram a perceber a diferença, elogiar, eu fui me sentindo melhor também. Sentia-me mais disposto, a hérnia desaparecia, me sentia mais bonito. `Passei a gostar de tirar fotos e esqueci o amor que sentia pela tal garota. Naquele momento percebi que eu lhe trocava pela única pessoa a qual poderia trocar. Por mim. Eu precisava me amar para permitir que outras pessoas me amassem e eu as amasse.

A depressão foi embora e parece verdade quando dizem que pensamento positivo atrai coisa positiva. A vida começou a andar. Ganhei sambas, escrevi coisas bacanas, comecei a ser encenado e reconhecido como autor de teatro, liderei movimentos, Gabriel e Bia crescendo com saúde, fiz discursos e além de emagrecer aprendi a me cuidar, me vestir bem e tentar ser elegante pelas mãos da Hellen. A namorada que a confiança e o estar bem comigo mesmo trouxeram.

Como eu disse tudo com muito sacrifício. Todo mundo elogia e eu gosto. Mas andei muitas vezes no calor, no frio, no Sol, chuva, madrugada, com sono, cansado, dores então muitas vezes. Correndo perigo e sabendo que corria, tanto que fui assaltado. Sempre sozinho, sempre focado.

Em fevereiro cheguei aos 90 quilos que queria e diminui o ritmo. Não das caminhadas, mas da dieta. Passei a me liberar nos fins de semana e incluir no cardápio sorvete, chocolate, batata, etc.

De fevereiro pra cá diminuiu o ritmo da perda de peso, mas continuou constante, sólido e o mais importante, com menos sacrifício. No mês de outubro baixei de 80 quilos.

A luta continua e é diária pra manter o foco. Posso estar com aparência de magro, mas sou gordo e pra sempre serei gordo. A obesidade é uma doença assim como ser viciado em bebida ou drogas e mata. Sim, a obesidade mata e é um dos maiores motivos de morte do mundo moderno.

E é uma doença que considero até pior que drogas ou bebida porque você com auto controle pode nunca mais beber ou cheirar. Mas não pode deixar de comer senão morre. Eu sou um doente, um obeso que nesse momento está sob controle, mas não sei até quando então vou lutando e vivendo cada momento.   

Não gosto de falar muito desse meu processo porque acho que é algo pessoal meu, também não gosto que me usem como exemplo porque assim me coloca pressão e me tira o direito humano do fracasso, muito menos gosto de dizer o que fiz pra emagrecer e pra manter porque cada um conhece o seu corpo. Eu conheço o meu e sei os limites do meu e mesmo sabendo algumas vezes extrapolei e mandei mal. Então não quero ser exemplo pra ninguém e nem que façam o que fiz pra emagrecer.  

Mas estou feliz como poucas vezes estive na vida. Estou feliz comigo mesmo, com auto estima elevada, mas sem soberba. Muito longe do depressivo de 2013. Falta muito ainda, um ano é muito pouco e ano que vem nessa data posso estar gordo de novo.

Mas o que importa é que eu consegui e consegui olhando meus pés, vendo minhas unhas roxas, os mesmos cheios de calos e sentindo orgulho disso. Porque evidente que entendo quem fez bariátrica ou qualquer cirurgia para emagrecer. Mas pra mim não adianta. Se me tirarem o prazer de comer eu prefiro morrer e não to brincando.    

Quero sempre ter o prazer de tomar um sorvete, ir a um rodízio de pizzas e ter a sabedoria de saber que depois tenho que me exercitar e perder essas calorias.
 
E assim vou caminhando..

..Nesse 19 de novembro caminhando até o mesmo restaurante que comi o churrasco misto do ano passado pra fazer o mesmo ritual com 30 quilos a menos.

Não deve pesar menos no bolso. Com a volta da inflação deve ter até aumentado o valor.

Mas vai pesar bem menos na alma. 

Hoje é dia de celebrar. Eu mereço

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