domingo, 30 de novembro de 2014

AMOR: CAPÍTULO V - A NAMORADA DO MEU AMIGO




Devastado. Destruído. Foi assim que eu saí do salão naquela noite. Encontrei todos na porta e Samuel já veio pulando em cima de mim gritando o mesmo que Guga. “Você é foda moleque!!”.

Não. Não era. Eu era apenas um babaca apaixonado.

Eu não conseguia ter reação a não ser mostrar um sorriso sem graça. Camila, abraçada a Guga, se soltou dele e veio ao meu encontro. Fez carinho no meu rosto e disse “não é que você conseguiu? Virou dançarino?”. Sem graça respondi apenas “é” e ela me deu um beijo no rosto voltando aos braços de Guga.

Bia que sempre foi capaz de desnudar minha alma percebeu que eu não estava legal e perguntou se ocorria algum problema. Apenas respondi que não enquanto Guga virava o centro das atenções, mesmo eu sendo o campeão e tendo ralado tanto dizendo “Vamos a restaurante não, vamos a uma boate, vamos zoar!!”.

Paramos em uma boate na Barra com todos animados e dançando na pista. Menos eu que fui para o bar. O atendente perguntou o que eu queria e respondi “veneno de rato”.

Ele não entendeu e perguntou “como senhor?”. Respondi “Na  verdade queria uísque, mas como não bebo me dê um suco de laranja”. Eu estava decidido naquela noite a tomar um porre de suco de laranja. 

Observava do bar a alegria das pessoas. Que estavam lá por minha causa e esqueceram totalmente de minha existência. Não conseguia tirar os olhos de Camila e Guga numa mistura de tristeza e revolta.

Eu que estava com o troféu no bar, mas ele que estava com o prêmio, o prêmio que eu queria. Camila e Guga dançavam felizes, se beijando o tempo todo e nossos amigos aplaudiam e gritavam a cada beijo. Parecia que o Guga que dançara, ganhara o concurso. Ele era o centro das atenções.

Depois de um tempo não aguentei mais aquela situação e decidi ir embora. Me levantei e já estava quase na porta quando perceberam minha ausência. Chamaram meu nome e quando vi era Camila.

Ela perguntou se eu já ia embora e respondi que sim, estava com dor de cabeça. Camila riu e disse “dor de cabeça é desculpa de mulher”.

Sorri apenas e ela perguntou se eu estava legal. Respondi que sim, apenas estava mesmo com dor de cabeça quando ela se aproximou.

Eu sempre tremi quando Camila se aproximava, desde o primeiro atropelamento. Meu coração acelerou quando ela chegou perto de mim e disse “Melhor coisa que eu poderia ter feito na vida foi ter te atropelado”.

Eu não sabia o que responder e ela continuou “Você cuidou de mim, me pegou no colo, se tornou essencial na minha vida. Eu não consigo mais imaginar um dia sem te ver, sem falar contigo”. Eu continuava sem saber o que dizer quando ela me abraçou e completou “você é o melhor amigo que uma mulher pode ter”.

Pronto. Se você quer ferrar com um homem é só chamá-lo de amigo.

Eu pensei em chutar o balde e dizer “amigo de mulher é cabeleireiro”, mas me segurei e apenas respondi “obrigado”. Me desvencilhei dela e contei que precisava realmente ir. Camila concordou dizendo que precisava voltar a pista, pois Guga esperava por ela e ficamos um tempo em silêncio até que dei tchau e saí.

Até ali conseguira me segurar de boa, mas na rua sozinho não consegui me segurar. Abri o berreiro, chorei muito e acabei dando o troféu para um mendigo que não deve ter entendido nada. Andei pelas ruas do Rio de Janeiro a madrugada toda e acabei parando no Arpoador para ver o nascer do Sol.

Estava lá vendo o mar, as pessoas pescando e tentando entender o que eu fazia de errado. Porque eu era um cara tão bobo, tão sem graça e nada dava certo na minha vida enquanto para Guga tudo acontecia, tudo era mais fácil.

Guga já era um cara milionário, bonito, cercado de mulheres. Por quê ele precisava da minha também? Por quê a Camila?

Era uma dor que sufocava o peito e funcionava como ácido corroendo por dentro. Não existia injeção, analgésico ou morfina que fizesse amenizar.

Mas eu podia tentar fazer algo por mim. Podia tentar mudar.

Sempre fui um cara boa praça, amigo, de fácil acesso e que levava tudo na esportiva e com um sorriso no rosto. Talvez por isso passasse por dissabores. Decidi que estava na hora de mudar um pouco e me afastar de tudo que me fizesse mal.   

Começando por Camila.

Na manhã de segunda andava pela rua quando ouvi uma buzina. Olhei e era Camila no carro rindo e comentando “quase que te atropelo”. Apenas dei um sorriso discreto de volta e ela emendou “entra aí”.

Tive muita vontade de entrar, mas apenas respondi “vai dar não”. Camila estranhou o motivo e eu disse “quero ir andando, to me sentindo gordo”. 

Camila mandou que eu parasse de bobagem e entrasse logo que de gordo eu não tinha nada e agradeci dizendo que precisava, pois me sentia inchado. Camila insistiu, alegou que a faculdade era longe e contei que não adiantava insistir que eu não iria aceitar.

Ela entendeu que realmente eu não iria entrar e falou “vai ao salão hoje de noite. Acho que devemos continuar dançando, fazemos um bom par”. Respondi que iria, ela se despediu e partiu.

Depois que ela foi reclamei “que merda, a faculdade é muito longe mesmo”.

Andei por uma hora até chegar lá e saí mais cedo da aula para que ela não me encontrasse na saída para oferecer carona. De noite decidi não ir ao salão. Fiquei em casa lendo e ouvindo música quando provavelmente ela estava me esperando.

Na manhã seguinte ouvi a buzina e vi que ela se aproximava. Antes que chegasse entrei no primeiro ônibus que apareceu e parti. Por sorte era para minha faculdade.

Aquela na verdade foi a última vez que fui a faculdade. Decidi trancar a matrícula e me dedicar a música e ao ofício de DJ. Samuel, Bia, minha mãe e Pinheiro foram contra, mas estava decidido.

Um dia Camila perguntou por mim a Bia achando que eu estava sumido e ela respondeu que eu trancara a faculdade. Camila estarrecida comentou que eu estava muito estranho e minha amiga respondeu “ele sempre foi”.

Foi dessa forma que eu vendo tv na sala ouvi a campainha tocando insistentemente, levantei e me deparei com Camila.

Com cara séria Camila perguntou se podia entrar e eu respondi “claro” acenando para dentro. Ela entrou e antes que eu convidasse a se sentar me perguntou o que eu tinha.

Respondi que estava normal e ela revidou que não “Você está ainda mais recluso só saindo para tocar nas festas. Não vai a nenhum evento da galera, trancou a faculdade e dá a impressão que está me evitando”. Respondi que não evitava e ela disse “Nunca mais foi ao salão”.

Lembrei a ela, desviando de seu olhar, que eu nunca prometera que iria continuar dançando no salão e que tomara a noção que não nascera pra dança. Camila me interrompeu dizendo “Quero meu amigo de volta”.

Respondi que estava ali e ela completou “Não, não está”.

Nos olhamos por um tempo e ela disse que não iria me importunar e respeitar minha privacidade, mas quando resolvesse voltar a ser o que eu era bastava lhe procurar que ela me receberia de braços abertos.

Completou dizendo “Volta logo pra mim. Sinto sua falta” e foi embora.

Deus! Como é difícil!

Minha vontade era de puxá-la de volta e dizer que a amava loucamente e tudo que eu fazia me causava mais sofrimento do que ela sentia. Mas não podia. Além da minha timidez que evitara que eu falasse em vezes anteriores agora tinha o fator dela ter virado namorada de meu amigo.

E Guga continuava o mesmo “garganta” de sempre tirando onda e se fazendo de gostoso. Não era raro estar com ele e Samuel e Guga começar a contar detalhes sexuais de sua vida com Camila e dizer que era insaciável e a menina mal dava conta dele.

“Mas é uma putinha, faz tudo como eu gosto” costumava contar sorrindo.

Minha vontade era de socá-lo. Estava ganhando ódio de meu amigo.   

Achei melhor tentar me distrair e fui visitar minha mãe. Filei aquele almoço maravilhoso que só ela sabia fazer. Uma macarronada à bolonhesa de fazer italiano babar e depois fui jogar futebol de botão com Pinheiro enquanto ela cantarolava o cd de Roberto Carlos que tocava na sala.

Como eu já disse Pinheiro sempre me vencia, mas naquele dia eu estava pior que o normal. Ele me enchia de gols e eu não conseguia me concentrar só pensando em Camila e na situação em que eu vivia. Quando eu já estava perdendo de 12 x 0 e tomava gols de tudo quanto era jeito Pinheiro parou e perguntou se eu não iria me concentrar.

Respondi que estava concentrado. Ele disse “prepara”, ajeitou o botão para chutar e disse “Fica pensando na garota, dá nisso”. Enquanto eu assustado perguntei “como?” ele metia mais um gol.

Com 13 x 0 Pinheiro deu o jogo por encerrado e disse “vamos para o bar”. Eu fiquei desconcertado enquanto meu padrasto gritava para a minha mãe que iríamos comprar cervejas.

Chegando lá Pinheiro disse ao dono do boteco que iria levar duas cervejas, mas beberia uma ali. Perguntou se eu já tinha virado homem e eu respondi “fanta uva”. Pinheiro resmungou dizendo “não virou” e gritou “portuga, manda uma fanta uva pro mariquinha”.

Ele bebia a cerveja, eu minha fanta e Pinheiro perguntou “A menina que você gosta está com o Guga né?”. Eu tentei desconversar, dizer que era nada daquilo, mas Pinheiro era malandro, vivido “Qual é Toninho? Anos e anos de praia e você ta querendo me enganar? Vi o jeito que  olhava para ela enquanto dançavam”.

Eu nunca contara para ninguém que era apaixonado por Camila e achei que aquele podia ser o momento de desabafar. Olhei para ele e respondi “É, é verdade e eu não sei o que fazer”. Desabafei tudo. Como comecei a gostar dela, nosso reencontro e como perdi para o Guga.

Pinheiro deu um gole na cerveja e disse “Você não perdeu”. Perguntei como não e o homem emendou “a vida é cíclica. Nada é definitivo nela. Única coisa que você precisa é acreditar em você. Essa mulher é sua e só vocês dois ainda não sabem disso”.

Levantou, pagou as bebidas, pegou as sacolas com as cervejas e me puxou para irmos embora dizendo “o Guga tem mais dinheiro que você, mas você é mais rico que ele”.

Voltamos para casa e quando chegou a noite me preparei para ir embora. Antes que eu fosse Pinheiro pediu desculpas para minha mãe e disse que não poderia acompanhá-la para a excursão a Aparecida do Norte. Minha mãe lamentou, mas meu padrasto emendou dizendo “Mas o Antonio pode”.

Ele não me perguntou nada. Não perguntou se eu podia, se eu queria e antes que eu falasse algo o homem disse “Será bom pra você sair um pouco da cidade, espairecer e pensar”. Antes que eu pudesse responder algo minha mãe esperançosa perguntou se eu podia.

Olhei Pinheiro que me olhava firme e quando vi minha mãe ansiosa com a resposta eu disse “posso sim mãe”. Minha mãe me deu um abraço feliz enquanto Pinheiro acenava positivamente com a cabeça.

Pedi que Samuel segurasse a onda dos eventos no fim de semana para que eu pudesse viajar com minha mãe. Camila não me procurou naquela semana, estava muito ocupada namorando Guga e vi que realmente era a melhor decisão a tomar e lá fui eu para Aparecida.

Era um ônibus de excursão e eu era o mais novo do ônibus, minha mãe era a segunda mais nova e aí vocês veem o nível da situação. Só tinha terceira idade ali e eu já imaginava estar embarcando em um programa de índio.      

Chegando lá realmente tudo era muito bonito e a basílica uma das coisas mais lindas que já vi. Era bacana ver a fé daquelas pessoas. Gente indo pedir, outras agradecer. Cheguei a pensar em pedir por mim e Camila, mas depois pensei que Nossa Senhora tinha coisas  mais importantes para se preocupar.

Eu não conseguia parar de pensar em Camila e chegava a conclusão que não adiantava viajar se em pensamento eu continuava com ela. Tentava me distrair e pensava também no que Pinheiro disse, sobre ela ser minha e não saber ainda. Será?

Passeando pela cidade vi um grupo jovem, de minha idade. Era o primeiro grupo desses que encontrava ali e achei interessante decidindo me aproximar.

Cheguei perto e eles estavam em uma rodinha tocando violão e cantando músicas gospel. Achei legal e tímido perguntei se poderia me juntar a eles. Rapidamente recebi sorrisos e sim como resposta sentando.

Achei aquilo bem gostoso, clima tranquilo, de paz e me tirando da tormenta em que vivia. Notei uma moça loira linda que cantava divinamente e me olhava. Primeira vez desde que me aproximei de Camila que eu reparava em outra mulher.

Ela sentou perto de mim e continuou cantando. Ficamos ali por horas até que cansamos e cada um decidiu passear para um canto.

Fui passear com a moça.

O nome dela era Amanda e disse que era de Juiz de Fora, cidade que fica na divisa de Minas Gerais e Rio de Janeiro e a família estava ali para agradecer a recuperação de seu irmão que sofrera um acidente de moto e ficara quinze dias em coma.

Conversamos várias coisas e por algum tempo consegui não pensar em Camila. Amanda além de muito bonita era cativante e pensei “eu poderia me apaixonar por essa garota”.

Depois de passearmos por um tempo sentamos em um banquinho e continuamos conversando. Papo vai, papo vem, um clima surgiu e acabou que nos beijamos.

Um beijo gostoso em uma mulher bonita. Tudo que um homem quer.

Mas não foi um beijo de amor.

Depois do beijo nos olhamos e a única coisa que consegui dizer foi “desculpa”. Amanda entendeu a situação e perguntou “Tem outra né?”.

Sem jeito respondi “Meu coração sim, mas eu mesmo não”. Amanda fez carinho nos meus cabelos e disse “Você é especial Antonio. Moça de sorte”.

Passeamos mais um pouco e nos despedimos. Era hora dela voltar para Minas e eu ao Rio. Dentro do ônibus voltando pensei em Camila, mas pensei também em Amanda. Refleti “Uma moça linda como Amanda se interessou por mim, justo por mim. Não devo ser tão ruim assim”.

Continuei refletindo “Talvez Pinheiro esteja certo. Talvez só me falte confiança”. Decidi ali mudar o meu destino. Iria no dia seguinte me declarar a Camila, contar todo o meu amor não importando qual seria a sua resposta.

Como prometido no dia seguinte fui à faculdade procurar por Camila. Perguntei para várias pessoas até que a vi em um corredor.

Ela chorava e discutia com Guga.

Fui me aproximando aos poucos para tentar entender a situação e quando cheguei perto reparei que Camila chorava muito. Quando ia perguntar o que ocorria vi Camila dar um tapa no rosto de Guga e ir embora. Esbarrou em mim e prosseguiu sem nem me dar atenção.

Olhei para Guga que passava a mão no rosto e quando me viu apenas disse “não fala nada” indo embora.

Procurei Camila pela cidade toda preocupado e tentando entender o que ocorria sem obter sucesso. Desolado voltei para casa sem achá-la e entrei no quarto.

Dando de cara com Camila.

Ela estava sentada na minha cama e ao me ver me abraçou forte e chorando. Eu não conseguia dizer nada. Apenas abraçá-la e fazer carinho na sua cabeça.

E mesmo naquela situação me sentir feliz.

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