terça-feira, 11 de novembro de 2014

DESFILEI SOB APLAUSOS DA ILUSÃO


*Capítulo do livro "Enredo do meu samba" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 8/2/2014



Eu já conhecia a história do Rogério Guanabara, só não conhecia com tantos detalhes e senti pena do cantor. O jornal em que trabalho deu bastante ênfase ao caso na época e o Chiquinho Andrade acabara de ser condenado a mais de sessenta anos de prisão. Mas sabemos como é a justiça desse país. Sairia muito antes.

Até pensei em ir ao “casa de bamba” à noite, mas achei que seria melhor dormir mais cedo. Assisti um pouco de televisão e fui para a cama. Dormi logo, profundamente e tive alguns sonhos esquisitos. Primeiro com Bia aparecendo pra mim e depois meu pai.

Seu Jair surgia, eu dava um abraço em meu velho dizendo que sentia sua falta e não sabia como agir sem ele e meu pai me olhava sério e dizia “Não desista, só depende de você”.

Acordei de manhã no susto. Tentei entender aquele sonho, o que meu pai queria me dizer com não desistir e achei que era hora de dar uns telefonemas. Telefonei para várias pessoas continuando um projeto que começara no “casa de bamba” na noite em que estive com meu pai e Feitosa e desliguei o telefone otimista. “Vai dar certo” pensei.

Decidi voltar ao trabalho naquele dia. Estava mais forte e cheguei na redação feliz e com vontade de trabalhar. Sentei-me a mesa e Luisinho logo veio em minha direção entregando um número de telefone. Perguntei o que era e o estagiário respondeu que uma mulher fora até a redação no dia anterior me procurado e deixado o número.

Mulher? Evidente que fiquei curioso. Na hora peguei o número e telefonei.

Era Andressa.

Fiquei feliz em ouvir sua voz e disse que estava com saudade. Andressa me contou que estava no Rio visitando a irmã e perguntou se eu queria lhe ver a noite. Respondi que sim e passei o endereço do “Casa de bamba”.

Fui pra lá e no local encontrei Andressa, o marido e Mariana. Fiquei um tanto constrangido por conhecer o homem já que transara com sua esposa, mas foi por pouco tempo já que me encantei por Mariana. Era linda, doce. Realmente um jeito de modelo. Mas também uma cara sofrida por tudo que viveu.

Mariana, emocionada, me abraçou e agradeceu pelo que fiz. Falei que não precisava agradecer e convidei o trio para sentar. Almeidinha nos serviu e perguntei como estava a situação. O garçom contou que apesar da casa estar cheia o clima era triste, pois restavam poucos dias para o bar fechar. Perguntei por Manolo e o homem respondeu que fora embora mais cedo por não se sentir bem.

Manolo estava sofrendo demais. O bar era a vida dele.

Conversei com os três por um bom tempo, demos risadas e senti que Mariana já estava melhor. A moça contou que teve propostas de agência, mas estava com medo de aceitar depois de tudo que passou. Incentivei e pedi que ela não desistisse de seus sonhos.

Andressa contou que ela e o marido estavam cansados e iriam embora. Despediram-se de mim e falei com Mariana que era um prazer conhecê-la. A moça respondeu que não estava cansada e se eu quisesse poderíamos ir a outros lugares. Andressa liberou e fomos.

Emendamos em alguns bares, bebemos um pouquinho e quando fui ver já entrávamos no meu apartamento aos beijos. Fizemos amor e dormimos.

No dia seguinte fui beijado no pescoço por Mariana dizendo que tinha ligação pra mim me passando o celular. Perguntei se ela tinha atendido e Mariana respondeu que sim perguntando se tinha algum problema. Respondi que não e atendi. Era Bia.    

Bia, com voz séria, disse que tentara falar comigo de noite e não conseguira. Perguntei se tinha algum problema e ela respondeu que não. Apenas faria um lanche à noite em casa pra celebrar o casamento que aconteceria em dois dias. Engoli em seco e respondi que tudo bem.

Irônica Bia falou que eu poderia levar minha “amiga” e agradeci depois desligando. Aproveitei que Mariana ainda dormia, tinha uma hora para ir ao jornal e peguei o caderno de meu pai para ver a última história.

História que me identifiquei de cara porque trazia pai e filho.             

Bob do pagode era um cara famoso. Vocalista da banda “Só Pagode” o garoto ralou muito na vida até que seu grupo fosse um sucesso. O Só Pagode hoje é uma banda que faz mais de duzentos shows por anos, fatura discos de platina, tem legiões de fãs e Bob enriqueceu.   

Mas nem sempre foi assim..

Mais novo de cinco irmãos Bob teve que suar a camisa pra ajudar a família à não morrer de fome. Acordava cedinho e ia para os pontos de ônibus. Pedia carona aos motoristas e entrava vendendo balas e doces para os passageiros. Quando podia também parava em algum ponto movimentado para engraxar sapatos. Chegava com um dinheirinho em casa que muitas vezes era a salvação para a compra de um pouco de arroz e feijão.

Mas nem sempre a família tinha sorte no batente e a única alternativa que restava era dormir com fome. Enchia-se de água e dormiam ao som da mãe chorando por não conseguir colocar alimento em casa.

A mãe, dona Isaura, era doente e não tinha como trabalhar ficando tudo para os meninos. O pai? É outro capítulo.

Roberto Machado, o pai de Bob, era um baluarte de uma das mais tradicionais e gloriosas escolas do Rio de Janeiro, o Império Serrano. Compositor de mão cheia ganhou cinco sambas na agremiação, sambas lindos que fizeram a história da escola da Serrinha.

Mas o homem sofria de alcoolismo. Ganhou muito dinheiro, mas também torrou tudo com farras, mulheres deixando a esposa e os filhos de lado. Em determinado momento a bebida passou a interferir em sua vida. Não conseguiu mais fazer sambas de qualidade e virou chacota na agremiação por cantar bêbado no palco ou outras formas de vexame.

Passou a maltratar os filhos, bater na esposa até que um dia Bob lhe enfrentou e o expulsou de casa. O velho perambulou por casa de irmãos sendo sempre expulso por seu comportamento.

Ao mesmo tempo Bob descobria sua vocação para cantar e formava o grupo com amigos. Um dia foram descobertos por um agente que acreditou no potencial da banda. Lançaram um cd que se tornou um grande sucesso. Bob virou um dos galãs do país.

Um dia a mãe ligou contando que teve que aceitar o pai de volta. O rapaz perguntou o motivo e ela chorando contou que ele estava com câncer e a situação era nada boa. Apesar de todos os conflitos Bob tinha o pai como um ídolo então foi até a residência que comprara pra mãe e levou o pai para uma série de exames. Perceberam que o velho tinha câncer de estômago que já iniciara metástase e tinha pouco tempo de vida.

Bob pediu ao pai que pelo menos tivesse um fim de vida digno. Levou o homem ao AA e ele se dedicou parando de beber e tentando pelo menos no fim ser um pai e um marido de verdade.

Nessa situação ocorreu o show.

O Só Pagode fez show no Império Serrano que lotou. Bob emocionado falava ao microfone da emoção que sentia em pisar naquele palco onde viu seu pai ganhar cinco sambas de enredo. Foi muito aplaudido ao citar Roberto Machado e começou o show.

No fim da apresentação foi para o camarote presidencial enquanto o Império Serrano animava os presentes quando o presidente chegou com uma sinopse da escola convidando Bob para escrever na mesma. Para sensibilizá-lo o presidente lembrou de suas raízes imperianas.

Bob ficou reticente. Nunca escrevera um samba-enredo na vida, mas o presidente insistiu. Bob deu uma lida na sinopse e respondeu que topava, mas com uma condição, que o pai pudesse ser seu parceiro.

O presidente ficou reticente lembrando os últimos vexames e Bob garantiu que não aconteceria mais nenhum. O presidente então permitiu.

No dia seguinte Bob chegou na casa dos pais e encontrou Roberto deitado na cama deprimido. Disse ao pai que o tempo de depressão acabara e tinham trabalho a fazer. Que lhe esperava na varanda.

Chegando lá o bamba encontrou o filho com um cavaco, um tantan, papéis, canetas e um gravador. Perguntou o que significava aquilo e o garoto contou que fariam um samba pra disputar no Império Serrano.

O velho sentou e riu perguntando desde quando Bob aprendera a fazer samba-enredo. Bob na altura da humildade de quem vendia dois milhões de discos por ano e tinha cinco músicas entre as dez mais tocadas do país respondeu “eu não sei, me ensina pai”.

E os dois assim se reuniram pra fazer o samba. Pai e filho na maior cumplicidade que tiveram na vida até aquele dia. Fizeram alguns encontros sempre dependendo da agenda do filho até que o samba ficou pronto. Um lindo samba.    

Bob não deixou faltar nada. Contratou os melhores cantores para defender o samba, os melhores músicos, o melhor estúdio para gravar o cd e graças a sua popularidade e a popularidade do pai junto a comunidade uma torcida forte.

Não pôde ir a todas as eliminatórias devido aos shows. Mas sempre que podia vestia a camisa verde com a calça branca e estava lá junto ao pai. O samba era muito bom, fez grandes apresentações e chegou na final.

Mais do que chegar a uma final de samba-enredo Roberto renasceu. Encarou todo o tratamento, a quimioterapia com firmeza. Sentia-se útil novamente, um campeão, um bamba. Tinha algo pelo que viver, seu samba e essa cumplicidade que nascia com o filho.

Eram o primeiro samba na final e estavam nervosos. O pai porque depois de quinze anos voltava a uma final na agremiação que tanto amava. O filho, acostumado a grandes shows, grandes multidões por viver aquele momento com seu pai. O Império Serrano proporcionou tudo aquilo.

Antes que subissem ao palco Bob com os olhos marejados abraçou o pai e disse que lhe amava. Roberto com voz embargada respondeu ter muito orgulho do filho. A primeira vez que lhe dizia isso.

Subiram ao palco e o samba fez uma grande apresentação. Cantores talentosos encaixando direitinho o samba com a bateria, a torcida cantando muito o samba e conseguindo que os “neutros” da quadra viessem junto. Abraçados cantando a obra que fizeram Roberto e Bob, tão campeões na música finalmente se sentiam campeões na vida.

Apresentação consagradora, de campeão. Mas no fim ao deixarem o palco Roberto desmaiou sendo carregado nos braços pelo filho direto pro hospital.

No quarto do hospital Bob sentado via seu pai sedado e entubado na cama quando o telefone tocou. Ele atendeu e baixinho perguntou quem era. Deu um sorriso e desligou.

Roberto acordou e perguntou o que era. Sorrindo Bob contou que venceram o concurso e levantou dando um abraço no pai.

O último abraço entre os dois. Roberto morreu campeão algumas horas depois e Bob foi para a avenida desfilar na velha guarda, onde seu pai desfilava, com fraque e saudando o público como seu pai e todos os velha guardas fazem. Bob sentiu a presença do pai forte ali ao seu lado enquanto o menino de 47 fazia mais um desfile histórico tornando-se campeão do carnaval. Campeão com o samba de Roberto e Bob.

Chegando em casa das comemorações pelo título. Bob pegou papel, caneta e sentou-se no sofá. Começou a escrever como se psicografasse e no fim olhou pro céu e agradeceu ao pai pela inspiração.

Levantou-se e foi dormir deixando na mesa o papel com a música que acabara de fazer e se não se tornaria o maior sucesso da banda era a música que a partir dali mais tocaria o coração do sambista.

Jeito de menino

Jeito de menino
Olhos no espelho
Corpo tão vivido
Marcas do passado
Soma de um legado
Alguém a quem o tempo
Se rendeu

O rosto expressa seus anos de lutas
Troféus em forma de rugas
Agradece a Deus tudo que viveu
No samba é baluarte, é bacana
Foi na mocidade moleque sacana
Seguia os bambas querendo aprender

Intérprete da alma, mestre-sala do saber
Velho poeta fez rimas com a vida em seu escrever
Hoje faço essas rimas pensando em você

Aplausos da massa pro grande menestrel
O branco de seus cabelos reflete o azul do céu
Toma forma de encanto sublime inspiração
Faz nascer na apoteose uma consagração

É..Amor entre pais e filhos nem a morte é capaz de terminar.




ENREDO DO MEU SAMBA (CAPÍTULO ANTERIOR)

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