terça-feira, 19 de dezembro de 2017

NO REINO ENCANTADO: CAPÍTULO V - A FAMÍLIA


O homem nada entendeu e ela repetiu “papai, você é meu pai. Não se chama Anderson?”. O homem deu um sorriso, se agachou e falou com a pequenina “Sim, me chamo Anderson, mas não sou seu pai mocinha”.Gabriel apontou a arma de novo para Bia dizendo pro pai se afastar que daria um tiro na bruxa e o pai mandou que parasse de besteira que ela não era bruxa nenhuma.

O homem perguntou a Bia o que ela fazia sozinha no meio da rua quando ouviu um ronco. Se assustou e Bia deu um sorrisinho pedindo desculpas. A menina estava com fome, desde a nuvem de algodão doce não comia nada e seu estômago reclamou.

O homem riu e perguntou se ela estava com fome. Bia acenou com a cabeça que sim e ele convidou que ela fosse com eles a um restaurante. A menina aceitou e quando se encaminhavam ao estabelecimento notou o verdinho se escondendo atrás de um poste lhe observando com cara triste.

A menina perguntou se podia levar o garoto junto. Ele perguntou se era seu amiguinho e Bia respondeu que sim. O homem então fez sinal para que verdinho se aproximasse. Com medo ele se aproximou e Anderson perguntou “Tem fome garoto?”. O menino abaixou a cabeça dizendo que sim e o homem ordenou “Então vamos todos lanchar porque eu to varado de fome”.

Entraram no restaurante e sentaram. O garçom se aproximou, deu cardápio a todos e percebeu o menino verde. Virou para Anderson e disse “senhor..”. Anderson que olhava o cardápio virou para ele e perguntou se existia algum problema. O garçom disse “Senhor, esse menino é verde”.

Anderson voltou a olhar o cardápio e respondeu “E você tem cara de peixe, por favor, quatro ovos”. O garçom, constrangido foi buscar os pedidos enquanto as crianças caíam na gargalhada.

Olhando o cardápio Anderson começou a dizer baixinho “Cara de peixe..cara de peixe”..Foi aumentando o volume até que as crianças começaram a lhe acompanhar. Todos já estavam rindo e gritando “Cara de peixe!! Cara de peixe!!” quando o garçom voltou com os pedidos e disse “Eu não tenho cara de peixe”.

Anderson pediu desculpas e o garçom se retirou. Quando ele se afastava Anderson gritou “Cara de sapato!!”. As crianças caíram na gargalhada.

Bia ao ver um ovo cru, ainda com casca, no prato disse que não gostava de ovo. O homem pediu que ela pensasse em uma comida e não falasse. Bia pensou e depois ele ordenou “quebre o ovo”.

Ao quebrar Bia deu de cara com um sanduíche delicioso com queijo, presunto, duas carnes de hambúrguer, alface, tomate, fritas, maionese, mostarda e bastante catchup. Para acompanhar surgiu um milk shake de morango. Todos quebraram seus ovos e surgiu o que desejavam.

Comeram muito. O verdinho parecia que não comia há séculos e no fim foram até a charrete. Despediram-se e ao perceber os olhares de tristeza de Bia e verdinho o homem perguntou “Vocês não tem pra onde ir né?”. Dadas as respostas positivas Anderson perguntou a Gabriel “Você acha que sua mãe vai se importar se eu levar os dois?”. O menino se empolgou e gritou “Oba!! Dois amiguinhos pra brincar!!”. Bia e verdinho subiram na charrete e Gabriel disse “Nem tente me colocar no seu caldeirão bruxa!!”.

Todos subiram, Anderson deu a ordem e o cavalo começou a voar levando a charrete. Bia se assustou, agarrou-se no homem e perguntou porque todos os veículos que ela entrava tinham que voar. Anderson, sentindo o vento no rosto, respondeu “porque voar é muito melhor !!”.  

Aterrissaram em uma vila muito parecida com a qual Bia morava. A diferença vinha justamente das cores, ela era muito colorida como todo o reino. Anderson abriu a porta e todos sentiram o cheiro delicioso de bolo que vinha da cozinha. Anderson se aproximou e deu um beijo na mulher. Ao ver a esposa de Anderson Bia não aguentou e disse “mamãe!!”.

Sim, era a cara de Rebeca. A mulher perguntou quem eram os meninos e Anderson disse “dois meninos que moravam na rua”. A mulher se agachou, fez carinho nos dois e comentou “É uma maldade um lugar tão bonito como esse ter crianças morando na rua. Isso não é certo”. O homem concordou com a esposa e disse que tinha lhes convidado para morar lá.

Rebeca se levantou, olhou bem para as duas crianças que tinham olhares pidões e sorrindo respondeu “Onde comem três comem cinco”.

Todos abraçaram Rebeca que sorrindo desvencilhou-se dizendo que tinha que terminar de fazer o lanche. Anderson chamou as crianças para brincarem no quintal e todos acompanharam. Menos
Bia.

A mulher perguntou se ela não ia brincar, mas Bia se comoveu lembrando que ajudava sua mamãe a fazer o lanche da tarde em casa, sentiu saudades e perguntou se poderia ajudar. A mulher passou a mão em seu rosto e respondeu “Claro que sim”.

Era um reino feliz, uma vila feliz, uma família feliz. Os homens jogavam bola no quintal enquanto as mulheres preparavam o farto lanche. Rebeca ligou o rádio e começou a cantar. Bia acompanhou e as duas cantavam e preparavam o lanche. Quando Bia percebeu xícaras, talheres, copos e pratos também cantavam e dançavam transformando tudo em uma grande festa. O sol iluminava aquela casa irradiando felicidade e amor.

O lanche ficou pronto e Rebeca pediu que Bia chamasse os homens para o lanche. A menina foi até o lado de fora chamar e em vez de entrarem Anderson puxou a menina para fora.

No quintal havia um balanço como na casa de Bia e o homem pediu que ela se sentasse. Anderson começou a balançar Bia que sorria mostrando as janelinhas entre os dentes e deixava o Sol iluminar seu rosto e seus cachinhos. Pedia que o homem balançasse mais forte e ele atendia ao pedido. Bia levantava o braço e gritava “Eu sou Bia!! A pirata dos sete mares!! Avante homens!! Vamos resgatar o tesouro!!”.

Depois de um tempo como em um passe de mágica o Sol sumiu e começou a trovejar. Bia se preocupou e comentou “É melhor a gente entrar”. O Homem perguntou o motivo, se ela não estava gostando e antes que a menina respondesse uma chuva forte caiu.

Bia se levantou gritando e dizendo “Vamos sair daqui”. Anderson pegou sua mão e respondeu “Vamos”. Mas não entraram em casa.  

Rebeca e os meninos saíram da casa e foram todos pra rua tomar banho de chuva. Quando Bia percebeu toda a vizinhança saiu de casa para celebrar a chuva. Encharcados dançavam, pulavam e deixavam que a água lhes molhasse. Bia nada entendeu e disse que aquela chuva iria fazer mal a eles. Gabriel respondeu “Nada!! A melhor coisa que existe é tomar banho de chuva!!”. Anderson completou “Aqui a gente celebra a chuva. Ela fortalece a colheita, dá de beber aos animais e faz parte da vida da Terra.”.

Bia se deixou contagiar pelo clima e junto a todos celebrou a chuva que caía.

De noite ao deitar Anderson lhe deu um beijo assim como em todos os meninos. Cantou um pouco no violão e se despediu. Gabriel já estava no oitavo sono quando Bia percebeu que alguém beijara seu rosto. Virou e viu que era verdinho.

O menino sorriu. Um sorriso tímido de alguém que ainda não era acostumado a isso e disse “obrigado”. Bia, sorrindo, respondeu “de nada” e o menino deitou dormindo quase que imediatamente. Verdinho não era acostumado a dormir em camas, com lençóis limpos, coberta quentinha e nem receber o amor que recebeu naquele dia. Talvez ele nunca tenha antes dormido tão bem como naquela noite. Naquela noite verdinho percebeu que a cor de alguém não importa em nada quando existe amor no coração.

No dia seguinte Anderson foi trabalhar e as crianças foram com ele na charrete até o centro do reino. O homem entregava produtos que plantava em uma horta que tinha em casa enquanto Bia
passeou pelas ruas. Deu de cara com o homenzinho de terno verde.

Antes que ele falasse alguma coisa Bia riu e disse “Pode fazer a pergunta”. O homenzinho parecia tenso e perguntou “O que é o que é? Até um tempo atrás vivia entre a gente e de repente some do nada?”. Bia ficou intrigada e respondeu que não sabia. O homenzinho sem dar pulinhos e ainda tenso respondeu “O príncipe”.

Bia não entendeu e perguntou do que o homenzinho falava. O ser estranho não dava atenção a ela e andava repetindo “O que é o que é cadê o príncipe? O que é o que é? Cadê o príncipe?”. Bia foi atrás tentando entender até que o homenzinho abriu uma porta e entrou em um local. Bia abriu a mesma porta para ir atrás e deu de cara com uma parede.

Enquanto ela resmungava e dizia “Como ele faz isso” Gabriel e o verdinho apareceram contando do sumiço do príncipe. Bia perguntou de qual príncipe estavam falando e Gabriel respondeu “O príncipe do reino. Um menino de nossa idade que um dia será o nosso rei. Ele sumiu”.

Antes que Bia dissesse alguma coisa Anderson voltou contando também que o príncipe sumira, não se falava em outra coisa no reino e que era melhor voltarem pra casa, pois não conseguiriam vender nada.

Todos voltaram para charrete e sentaram-se onde tinha o feno. Bia ao se sentar ouviu um “ai” baixinho. Só ela ouviu.

A menina, esperta como só ela, olhou para baixo, afastou um pouco o feno e tomou um susto. Viu o rosto de um menino loirinho que apenas fez sinal para que ela ficasse em silêncio.

Anderson virou-se para trás, mandou que todos se segurassem e vendo o semblante de Bia perguntou se ela tinha algum problema. A menina respondeu que não então o homem disse “Vamos voar!!”.

Assim a charrete foi ao céu com o clandestino a bordo.


CAPÍTULO ANTERIOR:

O REINO  

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