sexta-feira, 15 de julho de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XIX - VOLTANDO AO BRASIL


Pepe deu uns telefonemas, Oscar e Dória foram escudo e Pepino conseguiu sair da Itália antes que o caso explodisse. No avião a cabeça de Pepino não parava, era um redemoinho pensando em tudo o que ocorrera. Foi o responsável pela morte de Rubens e de Marta. Principalmente de Marta.

Bebeu demais no avião que passava por uma tempestade, suava frio e a aeromoça perguntou se estava bem. Pepino respondeu que sim e pediu mais uma dose. Já estava de noite, todos dormiam no avião menos Pepino que tremia e olhava a janela. De repente viu o clarão de um trovão e o rosto de Marta na janela do veículo. Deu um grito desesperado, assustador.

A aeromoça foi ver o que ocorrera e um transtornado Pepino apontava para a janela. A mulher contou não ver nada e deu um remédio para que ele se acalmasse. Um sossega leão que fez Pepino dormir até chegar ao Brasil.

Chegando ao Brasil Pepe lhe esperava sozinho no aeroporto. Pepino foi até o pai lhe dar um abraço e o homem devolveu apenas com um aperto de mão. Pepe olhou sério o filho e comentou que eles nunca tocariam no assunto, nunca mais seria pronunciado. Pepino entendeu o recado e concordou.  

Pepino estava de volta para alegria da família. Voltava para estudar e continuar sua carreira de boxeador mesmo contra a vontade do pai. Treinava em uma academia em Feital e uma luta foi marcada.

A família Granata toda foi ao ginásio no dia da luta e Pepino mostrou ser um grande boxeador dominando todo o combate. Parecia caminhar para a vitória quando se distraiu vendo Marta sentada em uma das cadeiras lhe assistindo.

Pepino se assustou e recebeu um soco em cheio do adversário sendo nocauteado. Pepino caiu desmaiado no chão e rapidamente levado para um hospital.

Ficou quatro dias em coma e quando acordou viu Marta parada ao seu lado. Começou a gritar sendo acudido por enfermeiras.

Recebeu visita da família e Pepe ao entrar pediu para ficar sozinho com o filho. Todos saíram e Pepe sentou ao lado da cama de Pepino. Olhou por um tempo o filho e disse “chega de besteiras”. Antes que Pepino tentasse se defender emendou “quem manda sou eu e você vai me ouvir”.

Pepe emendou “Você receberá uma última chance. Arrumei emprego pra você e na semana que vem irá trabalhar na construção da nova capital”.Pepino tentava falar e o pai não deixava “Você é meu filho mais velho e tem que se preparar, criar juízo. Trabalhará lá como mais um, sem pai ou tio pra lhe adular e quero que volte homem, para aprender os negócios da família senão irei te deserdar”.

Pepino ficou em silêncio e Pepe perguntou se o rapaz entendera o recado. Pepino desgostoso respondeu “sim papa” e Pepe completou “semana que vem”.

Pepe saiu do quarto e Pepino fechou os olhos quando bateram novamente na porta de seu quarto. O rapaz desanimado mandou que entrasse e teve uma surpresa, era Bianca.

Anos que Pepino não via Bianca e seu coração acelerou. Bianca tímida se aproximou de Pepino e perguntou como o rapaz estava. Pepino respondeu que bem e Bianca contou que esteve na luta.

Pepino riu e falou que não lutou muito bem, Bianca contou que gostara da luta, mas Pepino disse que sua carreira se encerrara ali. O rapaz pegou a mão de Bianca e comentou “Pensei que você me odiasse”. Bianca pela primeira vez olhou nos olhos de Pepino e respondeu “Eu nunca odiei você, só tive medo”.

Pepino surpreso perguntou “medo de mim?” Bianca respondeu “Não, medo de mim”.

Dessa forma Pepino e Bianca se aproximaram. O pai de Bianca morrera então o maior entrave do romance dos dois não existia mais. Pepino fez a corte e eles começaram a namorar mesmo com Pepino a poucos dias de embarcar. Pepino jurou amor eterno à moça e que se corresponderiam sempre.

Pepino embarcou para a construção de Brasília, a nova capital e lá ficou por dois anos trabalhando duro na feitura da cidade. Como Pepe prometera não teve privilégios, trabalhou como peão.

Aos poucos Pepino se afastava das confusões. Amadurecia tornando-se um homem mais sério. Não deu trabalho aos chefes e manteve-se fiel à Bianca. Mandava cartas todas as semanas contando de seu amor e quanto sentia saudades. Às vezes passava finais de semana no Rio de Janeiro ou a moça em Brasília. Assim como Marta Bianca queria se manter virgem para o casamento, mas diferente do que fez na Itália Pepino respeitou.

Pepino carregava o peso da morte de Marta e não eram poucas as vezes que sonhava com a moça ou via seu vulto. Preferia guardar para si o que ocorria e cada vez mais bebia. Não era alcoólatra, mas não tinha um dia que Pepino não bebesse algo.

Dois anos se passaram e algumas coisas ocorreram como as mortes de Manuel e Constância. Benito, o segundo filho de Pepe, começara a trabalhar com ele. Era um rapaz saído da adolescência e foi nessa época, mesmo antes da inauguração de Brasília que Pepe chamou Pepino de volta.

Era o começo de 1959. Pepino com vinte e um anos, Benito com dezenove e os outros filhos, Domenico e Enrico no meio da adolescência. Pepe Granata era um dos homens mais poderosos do Brasil. O principal banqueiro de jogo do bicho do país além de ter “Casas Granata” espalhadas por todo o território nacional. Aumentava seu império, conquistava outras bancas e regiões sem pedir “por favor” ou comprá-las.

Muitas vezes tomava na marra, não foram poucas as vezes que seus inimigos eram encontrados mortos. Mas o Barão de Feital sempre negava envolvimento nos crimes.

Sofreu alguns atentados e foi preso também algumas vezes como quando descobriram um cassino clandestino de sua propriedade. Mas seu poderio era grande envolvendo políticos e juízes e sempre escapava no fim. Tinha corpo fechado para bala e cadeia como dizia Mãe Baiana.

Com esse cenário Pepino foi apresentado de verdade ao jogo do bicho e aos outros negócios do pai como cassinos. Zaqueu cuidava exclusivamente dos negócios “limpos” da família como o comércio. Pepino e Benito seriam os responsáveis pelo lado “sujo”.

Além desses negócios Pepe investiu em outras áreas. No clube de futebol e na escola de samba da região. Benito ficou responsável pelo Feital Futebol Clube, clube pequeno da região que o Barão resolveu assumir para disputar com os grandes do campeonato carioca. Deu carta branca para que Benito jorrasse dinheiro no clube, dessa forma além de cuidar do futebol que era uma das suas paixões praticaria “lavagem de dinheiro”.

Para Pepino restou outra grande paixão de Pepe, escola de samba.

O Barão levou Pepino até um ensaio da Acadêmicos do Feital, escola que ficava numa pequena favela do bairro. Pepino se incomodou com o calor e o batuque, não estava acostumado e Pepe mandou que ele sorrisse bastante e agradasse a comunidade, pois, assumiria a presidência da escola.

Pepino alegou que não entendia nada de samba, nunca estivera numa escola antes e nem gostava do batuque em vão. Pepe com um lenço limpou a testa e contou ao filho que muitas vezes um homem era obrigado a fazer o que não gostava para ganhar na frente e apontou para a quadra.

“Está vendo essas pessoas felizes sambando?” Perguntou Pepe. “Essas pessoas, as que torcem pelo Feital, as que são protegidas por nossa fundação são as mesmas que nos protegerão de nossos inimigos e nos darão sustentação política para ganhar o poder”.

Dito e feito. Com pressão de Pepe e apoio da população e de seu braço na Assembléia conseguiu a emancipação de Feital que assim virava um novo município do Rio de Janeiro e tornou-se o primeiro prefeito da cidade. O primeiro de muitos da família Granata a governar a cidade.

Pepino e Benito cresciam junto ao pai. Benito era ambicioso, queria ser o herdeiro de Pepe, trabalhava com afinco e inteligente procurava sempre aprender, se esforçar enquanto Pepino curtia mais a vida. Bebia, saía com os amigos, namorava Bianca e também trabalhava e mostrava inteligência.

Pepino finalmente parecia tomar jeito na vida e Pepe podia contar com os dois filhos.

Um dia Pepino bateu na porta da namorada com um buquê de flores e outra moça atendeu. Uma moça linda, cabelos encaracolados, adolescente ainda que lhe atendeu com um sorriso.

Pepino sem jeito deu bom dia e perguntou por Bianca. A moça ainda sorrindo comentou “ah, você que deve ser meu cunhado” e gritou por Bianca.

Bianca apareceu abraçando o namorado e perguntou se ele conhecia Isabela. Pepino respondeu que não e a namorada contou que era sua irmã e vivia com seus avós em Minas. Com a morte da avó ela e o avô vieram morar na cidade.

Pepino soltou um “interessante” sem a namorada perceber e Bianca pegou as flores do namorado, deu um beijo em seu rosto e perguntou se não iriam passear. Pepino saiu do surto e respondeu que sim. Isabela pegou as flores e desejou bom passeio ao casal.

Pepino e Bianca foram ao cine Rian assistir “Quanto mais quente melhor” com Marilyn Monroe e foram lanchar na confeitaria Colombo. Enquanto Bianca falava da beleza de Marilyn Pepino pensava na beleza da irmã da namorada.

Bianca riu e comentou que o namorado estava com pensamento longe e Pepino distraído perguntou sobre o que ela falava. Bianca limpou o rosto do namorado sujo de sorvete e comentou que Pepino devia estar pensando na Marilyn, mas ela não tinha ciúmes.

Pepino disse “que bom” e em pensamento dizia que não podia entrar em mais uma “roubada”.

Por pedidos da mãe de Bianca o casal começou a levar Isabela para passear junto. Pepino para tentar aliviar sua situação levava Benito com os três, mas nem sempre o irmão, fissurado pelo trabalho, acompanhava. Então os três formavam um estranho casal. Só Bianca não percebia o que ocorria. Isabela tentava seduzir Pepino que tentava resistir.

Mesmo com todas as investidas Pepino conseguiu juntar Benito e Isabela e os dois começaram a namorar. Mas mesmo sendo casais agora e a festa dada por Pepe pela união total dos Granata com os Fontenelle Isabela não se dava por vencida na tentativa de seduzir o cunhado.

Uma noite Pepino bateu na porta de Bianca e Isabela atendeu. A moça contou que a irmã tinha saído um pouco com a mãe e o avô, mas ele poderia entrar. Pepino achou por bem voltar em outra hora, mas a cunhada insistiu e ele entrou.

Isabela mandou que Pepino sentasse e perguntou se o cunhado queria um copo de uísque. Pepino respondeu que sim e a moça preparou. Isabela voltou com dois copos brindando com o cunhado pela união da família. Pepino virou de uma vez só e maliciosa Isabela comentou que o cunhado gostava de beber.

Pepino respondeu que aquele era bom e perguntou se tinha mais. Isabela respondeu que era melhor levar a garrafa para a sala. Enquanto buscava Pepino perguntava por Bianca e mais uma vez Isabela disse que já chegava.

Pepino era muito fraco para a bebida e sem perceber já bebera metade da garrafa. Foi ficando zonzo e confundindo o rosto de Isabela com Bianca. A cunhada chegou em seu ouvido e comentou que tomaria banho, mas já voltava.

O rapaz continuou bebendo, cada vez mais zonzo, bêbado e Isabela voltou à sala apenas de toalha dizendo que tinha um bicho no banheiro, achava ser uma barata e pediu para Pepino ir ao local matar. Pepino se levantou, ficou frente a frente com a cunhada apenas de toalha e em vez de ver seu rosto viu o de Marta.

O homem totalmente perdido comentou “temos algo pra terminar” e beijou a cunhada lhe jogando no sofá. Isabela riu e perguntou se ele só faria aquilo. Pepino tirou a camisa, abriu a calça e se jogou em cima da cunhada.

Os dois se agarraram com vontade, violentamente no sofá. Faziam amor quando Bianca, a mãe e o avô entraram na casa.

Bianca deu um urro de dor e histérica perguntou o que significava aquilo. Isabela rapidamente colocou a toalha de volta e Pepino tentava se vestir falando que não era nada daquilo que ela pensava. O avô de Bianca tirou seu cinto e partiu pra cima do rapaz que bêbado e apenas de samba canção fugiu deixando a calça pra trás.

Em casa Pepe deu um tapa na cara de Pepino e perguntou como ele tivera coragem de cometer uma burrice tão grande. Pepino respondeu que estava bêbado e o pai gritou que não era desculpa, um homem sempre teria que estar ciente dos seus atos. Pepino chorando gritava que amava Bianca e Pepe com ódio respondeu que nenhuma mulher aceitaria o que ele fez, ainda mais com a irmã.

Pepino tentou, procurou diversas vezes Bianca, mas foi enxotado não só pela moça como por sua mãe e avô. Isabela fora mandada passar uns dias fora da cidade na casa de tios. Pepino caía em desgraça com a família Fontenelle e com seu pai.

A situação só piorava. Uma vez Pepino bebia uísque na sala de casa quando Benito entrou e ficou parado em pé olhando o irmão. Pepino percebeu a presença e olhando Benito perguntou qual era o problema. Benito tomado pelo ódio gritou “Eu amava a Isabela e ela está grávida de você seu desgraçado!!”. Pepino ficou em pé e disse não entender o que o irmão dizia quando tomou um soco dele.

Pepino caiu, mas se levantou partindo pra cima do irmão. Os dois se esmurravam quando Dora apareceu gritando para que eles parassem. Os irmãos não pararam até que Dora começou a passar mal e o restante da família apareceu.

Os dois irmãos foram apartados Pepe perguntou o que acontecia. Benito revoltado contou que Isabela voltara para a cidade e estava grávida do “calhorda”. Pepe perguntou a Pepino se aquilo era verdade e o filho respondeu que não sabia, estava tão surpreso quanto ele.

Pepe comentou que só tinha um jeito de descobrir e iriam até a casa dos Fontenelle.

Pepe, Cecília e Pepino foram a casa e no local a mãe das meninas confirmou tudo. Pepino o tempo todo olhava para Bianca que com ódio desviava o olhar e não dizia uma palavra. Pepe pediu desculpas à família de Isabela e disse que o filho faria o certo.

Pepino perguntou “o que era o certo” e Pepe respondeu “vocês irão se casar”. Pepino levantou e gritou que não aceitava, não amava e Isabela e Pepe deu um tapa em seu rosto mandando que nunca mais gritasse com ele.

Pepe pegou um lenço, limpou a testa e completou que aquilo era o digno de um homem fazer, de um Granata, ele tinha feito com sua mãe e o filho faria o mesmo. Pepino ainda tentou argumentar quando Pepe ameaçou “faz isso ou está fora da família”.

Pepino era obrigado a concordar para felicidade de Isabela e tristeza de Bianca.

Os Granata e os Fontenelle apressaram o casório. Pepino se arrumava triste no quarto quando Benito entrou. O irmão mais velho deu um sorriso e se disse aliviado pelo irmão estar lá lhe perdoando e pediu um abraço. Benito cheio de ódio se aproximou e falou que não perdoava, nunca iria perdoar e seu ódio por Pepino seria eterno.

Benito completou “Eu só vim aqui pra dizer de coração que desejo que você seja muito infeliz na vida” e saiu do quarto. Pepino atormentado com o que o irmão disse abriu um uísque, encheu o copo, sentou e bebeu de uma vez. Viu a imagem de Marta no espelho e tacou o copo no mesmo destruindo por inteiro.

Bianca não foi ao casamento e um triste Pepino esperou Isabela no altar. A moça entrou linda na igreja acompanhada de um tio e Pepino recebeu sua mão. Em seu ouvido Isabela disse “Vou te fazer muito feliz”. Pepino devolveu “Eu duvido muito”.

A festa na mansão dos Granata foi suntuosa com todo mundo se divertindo, menos Pepino. Graças aos Fontenelle a nata da sociedade estava presente e quando Pepe decidiu fazer um discurso disse “Eu sei que muitos de vocês que estão aqui não gostam de mim, me acham bandido e menor porque vim da pobreza, mas tudo bem, sintam-se em casa. Tem muita bebida, comida, podem se fartar e até colocar na bolsa pra levar”.

A festa acabou e Isabela pediu que fosse levada pelos braços até um quarto da mansão. Pepino pegou a moça nos braços e jogou sobre a cama. Isabela maliciosa disse “vem”.

Pepino respondeu “vou trabalhar”. Espantada Isabela perguntou como assim e Pepino desejou bons sonhos deixando o quarto.

O rapaz passou a noite toda, sua noite de núpcias, no escritório do pai na casa mexendo na papelada dos negócios.

Pensando em Bianca.


CAPÍTULO ANTERIOR:

VOLTANDO AS ORIGENS

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