sábado, 5 de dezembro de 2015

DINASTIA: CAPÍTULO IX - SANTOS




Os hormônios do rapaz entraram em ebulição ao mesmo tempo em que sentia falta do pai. Salvatore a cada quinze dias viajava até São Paulo e passava os fins de semana com a família. Contava as dificuldades de seu dia a dia, o trabalho puxado e que sonhava voltar logo para a família.

Com o passar do tempo às idas do pai até São Paulo diminuíram e passaram a ser mensais. O homem mandava cartas e alegava enfrentar muito trabalho e não ter tempo de viajar, mas que carregava todos no coração e na alma.

Dora, cada vez mais triste, sentia falta de Salvatore e Pepe não sabia o que fazer diante da situação. Achava estranha aquela atitude do pai. Salvatore sempre foi muito ligado a família e o menino pensava que algum problema ocorria.

Como era o “novo homem da família” começou a trabalhar. Estudava de tarde então acordava bem cedo para vender jornais. Geralmente acordava antes do galo cantar, fazia seu café, pegava a bicicleta e partia.

No fim da manhã voltava para casa e almoçava junto com os familiares. Trocava de roupa e saía para o colégio. Mesmo com tantas tarefas era um excelente aluno.

Pepe era um garoto bem maduro para a idade. Assumira a responsabilidade dada pelo pai levando a sério a história de “homem da casa”. Protegia sua mãe, irmãos, avó e mandava cartas para o pai contando como estava a vida. Pedia para que Salvatore fosse até São Paulo ver a mãe que sofria de saudades.   

Além disso, havia Constância, a bela espanhola que cuidava de Antonieta e perturbava o rapaz. Constância sabia que mexia com o italianinho e adorava provocar com decotes generosos e sorrisos maliciosos.

Um dia pediu para que Pepe ensinasse a ela a ler e escrever. O menino sentou com a moça à mesa com seus livros, cadernos, mas não conseguia se concentrar vendo o decote e principalmente as pernas da espanhola. Constância perguntou se o menino tinha algum problema e ele respondeu gaguejando que não.

A mulher então chegou a seu ouvido e disse que estava doida para aprende o a,b,c com o ragazzo.

Naquela noite, mais uma vez, Pepe teve que tomar um banho gelado antes de deitar.

Pepe cada vez enlouquecia mais por causa da bela mulher. Uma noite desceu para beber água e estava Constância na cozinha com uma camisola curtíssima bebendo água. O rapaz ao ver a cena ficou paralisado na porta.

A mulher notou sua presença e perguntou se estava tudo bem. Pepe não falava nada então Constância pegou a jarra, encheu de água e andou sensualmente até o menino colocando em sua mão e dando um beijo no seu rosto.   

Desejou boa noite a Pepe e em seu ouvido contou que se ele precisasse de alguma coisa, qualquer coisa era pra bater em sua porta.

Mais um banho gelado..

A vida de Pepe era um turbilhão dividido entre o desejo por Constância e a ausência do pai que nem carta mais mandava. O homem não aparecia há três meses na casa, mais de um mês sem mandar cartas e isso preocupava a todos.

Até que um dia Salvatore apareceu pra visitar.

Foi recebido com grande festa, exceção de Dora que olhou sério e se retirou. Os dois se trancaram no quarto do casal e Pepe resolveu ouvir a conversa colando o ouvido na porta.

Ouviu Dora cobrar a presença do marido, queria explicações por seus sumiços e Salvatore alegava que o trabalho lhe consumia. Dora perguntava se tinha mulher na história e o italiano se indignava respondendo que vivia só para a esposa e os filhos.

Pepe ouviu a mãe chorando e o pai dizendo que iria um pouco para o lado de fora tomar ar. O rapaz em vez de correr para não ser visto pelo pai ficou ali, em pé, esperando que abrisse a porta.

Salvatore abriu e deu de cara com Pepe. Perguntou se o rapaz estava ouvindo a conversa, completando que aquilo era muito feio e o menino respondeu que estava sendo homem como o pai pediu e esperava que o pai estivesse fazendo o mesmo.

Salvatore perguntou a Pepe “que audácia era aquela” quando o menino deu as costas e se retirou.

O clima estava pesado na casa para Salvatore que naquela noite mesmo despediu-se de todos para voltar a Santos prometendo que voltaria à casa com mais frequência.

Depois que o pai partiu Pepe tomou uma decisão.

Naquela noite deitou, não conseguiu dormir e levantou. Encheu de coragem e bateu na porta de Constância.

A espanhola abriu a porta e perguntou se o rapaz queria alguma coisa. Pepe respirou fundo e deu um beijo na mulher. Após o beijo Constância perguntou o que significava aquilo e cabisbaixo Pepe pediu desculpas.

Constância puxou o rapaz e lhe beijou. Com ele dentro do quarto fechou a porta e trancou.

Dessa forma os dois fizeram amor, a primeira vez de Pepe.

Quase amanhecendo Pepe saiu do quarto de Constância e desceu ao primeiro andar da casa, mas não foi vender jornais como sempre. Pegou papel, lápis e escreveu uma carta deixando sobre a mesa.

Pegou a mala que estava encostada na mesa, abriu a porta de casa, respirou fundo e foi embora.

Quando Dora acordou viu a carta de seu bambino contando que fora a Santos atrás do pai.

Pepe juntara um dinheiro com a venda dos jornais e dessa forma conseguiu comprar uma passagem para Santos. Embarcou no trem e assim como Salvatore anos antes se impressionou com a viagem e tudo aquilo que viu no caminho.

O menino tinha esperança de dias melhores, ter sua família de volta.

Chegou em Santos e tinha como referência apenas uma carta do pai que levou que mostrava o endereço que ele estava. Menino esperto saiu perguntando pela rua até que encontrasse a pensão que estava hospedado.

Perguntou ao balconista por Salvatore Granata se apresentando como filho dele. O homem com cara de entediado sem deixar de ler o jornal respondeu que ele estava em um bar próximo.

Pepe então se encaminhou para lá e encontrou o pai sentado com alguns homens e mulheres, inclusive uma em seu colo, bebendo e cantando.

Ao ver o pai naquela situação Pepe gritou “papa” e Salvatore tomou um susto tão grande ao ver o filho que deixou a mulher cair no chão.

Salvatore andou até o filho e perguntou o que ele fazia ali. Pepe devolveu perguntando se era aquele seu trabalho em Santos e Salvatore pegou o menino pelo braço levando até a pensão dizendo que aquele não era lugar pra ele.

Chegando ao quarto da pensão Pepe mais uma vez perguntou se era aquele seu trabalho em Santos e Salvatore respondeu que era seu dia de folga e não devia satisfações ao filho, pois, o adulto ali era ele. Pepe devolveu respondendo que devia sim porque sua mãe estava sofrendo em São Paulo por sua causa enquanto ele estava com uma mulher da vida no colo.
 Salvatore levantou a mão espalmada para bater no filho e Pepe sem fraquejar disse que amava o pai, mas se levasse o tapa perderia todo o respeito que tinha por ele.

Realmente Pepe se transformara em um adulto.

Salvatore abaixou o braço e mandou que o filho fosse embora e voltasse para São Paulo cuidar da família. Pepe respondeu que Oscar já tinha idade para isso, que o pai não reparara, mas o irmão também crescera.

O pai emendou dizendo que ali não era lugar para ele, ele tinha que continuar estudando, perto da família e o levaria pra estação para comprar passagem e ele voltar. Pepe respondeu que não iria e se fosse forçado a entrar no trem desceria no meio do caminho e voltaria pra Santos.

Resignado Salvatore sentou na cama e perguntou o que o filho queria. Pepe olhou uma cama de solteiro ao lado e perguntou se estava vaga. O pai respondeu que sim então Pepe jogou sua mala sobre a cama e contou que aquela cama agora era dele.

Salvatore olhou o filho espantado, sem dizer nada e Pepe emendou que trabalharia com o pai, os dois juntos conseguiriam juntam dinheiro para montar um negócio em São Paulo e voltarem para a capital.

Salvatore perguntou se o filho estava louco e o rapaz respondeu que não, era um Granata. Nesse momento Salvatore sorriu, levantou e abraçou o filho. Sentiu imenso orgulho do garoto e viu nitidamente seu sangue quente, italiano percorrendo nas veias de Pepe.

Salvatore levou Pepe até o porto e conseguiu emprego para o filho. Dessa forma os dois começaram a trabalhar juntos acordando bem cedo e indo ao porto descarregar os navios.

Juntavam dinheiro como Pepe planejara e sempre que podia o menino mandava cartas para a família contando como estavam as coisas. Uma vez por mês pelo menos pai e filho iam para São Paulo visitar a família.

Pepe dessa forma aproveitava para matar as saudades de Constância. Ninguém na casa desconfiava do caso deles. A relação de Salvatore e Dora também melhorara desde que o filho partira para trabalhar com o pai.

E Salvatore e Pepe criaram uma grande amizade que transcendia a relação pai e filho.  Um grande companheirismo e cumplicidade. Às vezes os dois saíam juntos para beber e jogar sinuca. Aproveitavam também que com o vai e vem do porto casas de tolerância foram abertas na região.

Salvatore sempre respeitou a presença do filho e mesmo quando iam nessas casas nunca fazia nada, apenas bebia, jogava sinuca e conversa fora. O menino sim que na flor da idade, de seus dezessete anos era namorador. Tinha várias namoradas não só no local como pela cidade.

Salvatore ria e contava que Pepe lembrava a ele quando garoto.

Um ano se passara desde que Pepe foi trabalhar com o pai e nesse período o italianinho demonstrou seu interesse pelas espanholas tendo um caso sério com Angelina. A mulher mais bonita da casa de tolerância.

Não foram poucas as vezes que o rapaz dormia no lugar com a mulher, mais velha que ele e aparecia na pensão apenas a tempo de tomar banho e sair pra trabalhar com o pai.

Mas mesmo com essa vida boêmia Pepe era responsável e não faltava um dia de trabalho. Trabalhava carregando muitas vezes sacos pesados de importações que chegavam ao porto sem reclamar. O suor gerava frutos, dinheiro e o sonho cada vez mais próximo da volta.

Como já foi relatado acima Salvatore era muito discreto e Pepe não percebia se o pai tinha casos ou não. Mas com o tempo chegou a vez do pai ter sumiços, passar noites fora e Pepe não entender o que acontecia.

Quando estava com Salvatore perguntava se algo ocorria o italiano desconversava. Só que acontecia sim.

Salvatore se apaixonara por uma viúva francesa que conheceu fazendo compras uma vez na mercearia chamada Lili. A bela francesa esperava pra saber quanto dava as compras e Salvatore, presente no local, aguardava sua vez.

Na hora de pagar Lili percebera que não tinha o dinheiro todo e cheia de vergonha disse ao balconista que devolveria os produtos. Cavalheiro, Salvatore impediu que a mulher fizesse isso, tirou dinheiro do bolso e pagou a conta.

Lili agradeceu a gentileza do italiano e ele perguntou se poderia ajudá-la levando as compras até sua casa. Lili concordou. Os dois foram batendo papo. A francesa ofereceu uma xícara de café para Salvatore e o homem lhe convidou para um sorvete.

Do sorvete nasceu uma amizade e dali um caso. Salvatore estava cada vez mais envolvido com a mulher a ponto de Pepe viajar sozinho para ver a família em São Paulo por não encontrar o pai. Para a mãe o rapaz deu a desculpa do pai estar dobrando trabalho para juntar dinheiro.

Mas Pepe não era bobo como já deu para perceber. Ao voltar investigou a situação e descobriu tudo. Um dia bateu na porta da casa da viúva francesa perguntando pelo pai.  

Lili foi chamar o homem e quando Salvatore saiu de dentro da casa deu de cara com Pepe.

O homem não sabia o que dizer e o rapaz respondeu que não precisava dizer nada, só queria ver a verdade.

Pepe foi embora deixando o pai para trás. Chegou na pensão e escreveu uma carta para a mãe convidando a ela e seus irmãos para um passeio de fim de semana em Santos. Colocou um dinheiro junto e disse que era pra pagar as passagens.

Qual não foi a surpresa de Salvatore abrir a porta de seu quarto na pensão e dar de cara com Dora, Oscar e Giuliana.

O homem teve que fingir contentamento enquanto Dora lhe abraçava e dizia feliz por ele e o filho mandarem dinheiro pra passarem fim de semana juntos. Salvatore engoliu em seco e respondeu que era uma vontade antiga deles.

A família inteira saiu para passear e enquanto Dora, Oscar e Giuliana colocavam os pés na areia da praia Salvatore perguntava a Pepe o que significava aquilo.

Pepe então mandou que Salvatore se despedisse de Lili, dissesse que foi muito bom enquanto durou, mas que tinha que voltar para São Paulo.

Salvatore olhou espantado para o filho que completou “já temos dinheiro suficiente para montar um pequeno negócio papa, lá é nosso lugar, com nossa família”.

Pepe olhou profundamente nos olhos do pai e bateu em seu ombro dizendo novamente “a nossa família”. Depois se juntou aos irmãos e a mãe na praia.

Dessa forma Salvatore decidiu seguir o que o filho disse. Despediu-se de Lili e comunicou a Dora que voltariam com eles.

Foi uma grande festa no seio dos Granata, a família estava toda reunida novamente.

Graças a Pepe.



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