terça-feira, 4 de agosto de 2015

CORITIBA, BANGU E A INFÂNCIA




Na última semana fez trinta anos da histórica final de campeonato brasileiro entre Coritiba e Bangu. Lembro bem daquele campeonato esquisito em que o Flamengo foi eliminado pelo Brasil de Pelotas e até a Copa do Brasil desse ano fiquei com o time gaúcho entalado na garganta.

Assisti a final do campeonato na sala da casa em que moro até hoje torcendo pelo Bangu como todos os cariocas. No fim a decepção com o título do Coritiba. No dia seguinte assistindo o Globo Esporte e vendo reportagens com torcedores do Bangu um se lamentou e disse “Nunca mais teremos uma oportunidade dessas”.

São duas matérias da época que me chamam atenção até hoje. A declaração desse torcedor e uma cartomante dizendo no RJTV pro Castor de Andrade que a Mocidade seria campeã do carnaval de 85. Curiosidade que as duas agremiações tinham o comando de Castor, Mocidade e Bangu, e que as duas declarações estavam certas.

Achei exagerada aquela declaração do torcedor e vou escrever uma coisa aqui que pode parecer provocação, mas juro que não é. Entre 1983 e 1988 o Rio tinha quatro grandes clubes brigando por títulos. Flamengo, Fluminense, Vasco e Bangu. Sim, o Bangu. Quem começou a acompanhar futebol naquela época sabe o que estou falando. O Botafogo enfrentava um processo de decadência abortado com o inesquecível título de 89 e o Bangu graças ao comando de Castor disputava títulos.

Nesse período que citei do Bangu além da final nacional chegou a final do estadual do mesmo ano perdendo o título num roubo descarado contra o Fluminense e ganhou a taça Rio em 1987. Não lembro ao certo o ano, acho que foi 1985 mesmo, mas o Flamengo necessitava que o Bangu não vencesse o Botafogo para decidir com o mesmo a Taça Rio em um jogo extra e eu fiquei desanimado. Achava impossível o Bangu não vencer. Pois bem, o Botafogo arrancou o empate e o Flamengo venceu o turno no jogo extra.  

Então, por isso tudo, achava exagerada a declaração do torcedor. Mas ele estava certo, o Bangu nunca mais teve a chance.

Como o Coritiba nunca mais chegou perto de um título brasileiro. O que os dois times fizeram em suas histórias antes e depois deixa ainda mais especial o ocorrido em 1985 e mais emocionante relembrar tudo isso no Esporte Espetacular que lembrava os 30 anos da final.

Foi emocionante relembrar o Maracanã, um velho estádio que infelizmente não existe mais. O samba da Mocidade cantado a plenos pulmões no estádio numa época que as escolas de samba sabiam se comunicar com o futebol. Ver as outras torcidas do Rio unidas pelo Bangu num tempo que não existia clássico com torcida única. Ver a dor de Ado, o jogador que perdeu o pênalti e sente essa dor até hoje, ao contrário de jogadores que enriquecem e saem de derrotas em copas do mundo sorrindo.

E mais emocionante de tudo. O saudosismo. Faltando um pouco mais de um ano para chegar aos 40 dá uma ‘tristeza gostosa”, uma “doce melancolia” lembrar de fatos da infância. Tempo que não existe mais, pessoas que o mesmo tempo nos levou. Uma cidade que ficou apenas nas lembranças de uma vida que chega ao seu amadurecimento.

A final inusitada marcou a minha infância e a minha vida. Coritiba x Bangu é um desses jogos que nunca acabaram e a impressão que dá é que batem pênaltis até hoje.

E trinta anos depois ver o Ado converter o pênalti para matéria do EE me deu uma certeza. Que por mais que a gente tente, sonhe, certas oportunidades a vida só nos dá uma vez. Como bem disse o torcedor do Bangu.

Ser criança é uma dela. Chegar bem aos 40 outra. 

E esse pênalti eu vou converter.

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