sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

XXIV - Cidade sitiada


Tentei esquecer Juliana, Senador, todos esses problemas e me concentrar no meu pai que era quem mais precisava de mim no momento. O velho foi forte, guerreiro, mas ocorreu o que já esperávamos. Ele morreu.

Eu estava tão cansado, destruído por dentro por tudo que acontecera que nem chorei. Na verdade até foi um alívio, não pra mim, mas principalmente pra ele que tanto sofrera. Aquele homem seria pra sempre o meu pai, a pessoa que me criou, educou, ensinou valores. Tá bom esqueci esses valores no caminho, mas um homem principalmente do bem e que merecia todas as minhas reverências.
Recebi toda a solidariedade no enterro vindo coroa de flores até do Trololó.

Foi estranho quando o Senador me abraçou, lembrei que ele era meu pai e do que fez com minha mãe, mas não fiz nada.

Juliana também apareceu e foi carinhosa comigo. Abraçou-me, beijou meu rosto fazendo um carinho e falou que se eu precisasse podia contar com ela.  A vontade que me deu era de abraçá-la forte e falar que a amava e ficasse comigo, mas em vez disso apenas agradeci.

Fui pra casa exausto e dormi muito, mas tinha outros problemas pra resolver. Minha mãe estava num grau tão alto de Alzheimer que nem percebeu a morte de meu pai a situação era difícil e eu não sabia como lidar então me falaram que a internação era o melhor.

Fiquei em dúvida porque afinal era a minha mãe e parecia covardia, mas me convenceram que era melhor até pro seu bem sendo cuidada por especialistas, pessoas acostumadas com a doença que poderiam lhe dar um bom fim de vida.

Conheci uma ótima clínica e decidi levá-la. Cheio de culpa, mas tentando me lembrar dos conselhos. Dei um beijo em minha velhinha e prometi sempre visitá-la, mas parecia que minha mãe vivia no mundo da Lua já que nem ligou para a situação e foi embora com o médico sem falar nada.

Algum tempo depois acho que meu pai sentiu saudades e chamou minha mãe porque ela faleceu.

Foram ser felizes no céu e me deixaram sozinho. Não tão sozinho pois tinha Rebeca meu maior amor.

As coisas estavam tão intensas na minha vida que o pau cantava na cadeia e nem percebi. Pardal começou a receber visitas suspeitas de um líder de uma organização de direitos humanos. Vitório Salvador era um deputado estadual que tinha como discurso a preservação dos direitos humanos. Era o principal opositor a violência policial e foi um dos que denunciou a presença de major Freitas na milícia.

Vitório visitava Pardal constantemente e falava que eram visitas aos presos para observar se eram bem tratados. Mas não era só isso.

Pardal planejava uma fuga com Vitório, uma idéia louca, ação espetacular que tinha tudo pra dar errado, mas..

..ele tentou.

Conforme o combinado com o deputado, Vitório foi visitar a cadeia com alguns parlamentares. Nesse momento Pardal já tinha tudo preparado para sua fuga, subornando agentes penitenciários arrumou armas e só esperava pela visita.

Quando os parlamentares chegaram à galeria de Pardal foram pegos como reféns pelos presos. Pardal no comando da ação mandou os agentes entregarem as armas e virou o comandante do presídio.

Com as armas e obrigando os agentes a cederem as chaves Pardal e alguns criminosos foram até as galerias inimigas e fuzilaram seus opositores. Os presos com armas em punho gritavam pelos corredores do presídio que se o governo não abrisse negociação matariam todo mundo.

O conflito estava armado. O BOPE foi para o presídio e as partes tentavam negociação, Pardal irredutível queria a liberação dele e seu bando, mas isso o governo não topava, só transferências.

E ficaram nessa negociação durante dias com nenhuma das partes cedendo. Pardal ameaçava matar os parlamentares enquanto o BOPE se preparava pra invadir, mas o traficante tinha um plano e aí entrava o lado espetacular da coisa.
Uma tarde Pardal foi com Vitorio como escudo para o teto do presídio e esbravejava que mataria o parlamentar. Policiais de elite miraram no bandido e helicópteros sobrevoavam o local.

Um desses helicópteros se aproximou mais e pousou no teto. Pardal com arma na cabeça do deputado andou pra trás até entrar nele.

O helicóptero levantou vôo com a polícia atirando nele até que de dentro do veículo Pardal atirou com lança míssil sobre a polícia e assim o bandido escapou.

Pardal foi procurado por todos os cantos da cidade e a polícia puta invadiu o presídio matando mais de cem bandidos numa grande chacina. Não conseguiram achar o traficante até porque ele se escondeu em um lugar inimaginável.

A minha casa.

Estava eu vendo TV, é dessa vez não dormia, vendo o noticiário sobre a fuga quando a campainha tocou. Olhei pelo visor e tomei um susto, era Pardal.

Abri a porta e o bandido sorrindo perguntou se eu convidaria um velho amigo para entrar. Alguém acha que eu seria louco de não deixar? Mandei que ele entrasse e Pardal pediu para ficar uns dias por lá. Mesmo com todos os riscos deixei.

Sabia que era encrenca eu poderia me dar mal, mas não tinha como recusar. A vantagem é que o bandido era um ótimo cozinheiro e por incrível que pareça fazia uma lasanha maravilhosa.

Mas adorava novelas e enquanto eu queria ver futebol o bandido se derramava em lágrimas vendo a novela das nove. Não dava pra discutir com um traficante noveleiro.

Pardal pediu para que eu entrasse em contato com major Freitas e que ele fosse até minha casa. Falei com o miliciano e o major foi. Vocês não imaginam a emoção de ter em minha casa um dos piores e mais procurados traficantes da cidade e o chefe da milícia..

Enquanto vocês imaginam a minha emoção eu imaginava quantos anos pegaria de cadeia.

Pardal contava ao major seus planos de retomar o Trololó e teve o apoio de Freitas puto com Lucinho desde a morte do Hércules além do que Curió era mais mão de vaca com o arrego.

Elaboraram um plano que consistia em Pardal ir para o morro da Lacraia que era comandado pro Bob Lacraia, aliado do major e lá o plano de invasão ser armado.

Pra minha “tristeza” meu cozinheiro preferido foi embora e tive que voltar ao miojo.

Pardal, major e Bob combinaram o plano. Major usou seus contatos na polícia e uma grande operação policial foi feita no Trololó pegando o morro de surpresa. Muitos bandidos foram presos, fugiram ou mortos. Lucinho que não era bobo nem nada foi um dos que se mandou.

Curió não conseguiu fugir a tempo e foi preso. Na verdade ele seria morto, mas nesse momento foi percebida a presença de uma equipe de televisão na área que fazia uma reportagem sobre a vila olímpica do Trololó. Então pra não atrair problemas com os direitos humanos Curió foi algemado e levado.  

O caminho estava livre para que Pardal e os bandidos da favela da Lacraia assumissem e tomassem o Trololó.

Os bandidos que se esconderam na favela foram executados pela traição em apoiar Curió. Novos soldados foram recrutados na comunidade e outros da Lacraia se juntaram. Camila cheia de amor pra dar chegou correndo pra abraçar Pardal que mandou que a levassem pra associação de moradores e a mantivesse em cativeiro.

A vingança só começava.

A situação pro meu pai, Senador Getulio Peçanha se complicava. Tentava de todas as formas se defender no congresso, mas como eu já disse antes quando a opinião pública compra o barulho é foda.

E ela comprou esse atacando, acusando e condenando o Senador. CPI foi instaurada no congresso investigações foram feitas e provas achadas. A situação dele não mudava nas eleições sua campanha já estava nas ruas e tinha grande aceitação popular, mas os riscos de ser cassado eram cada vez maiores.

E ele sendo cassado traria dois problemas, poderia ser processado pela justiça e se tornaria inelegível não podendo assumir o governo do Rio caso fosse eleito.

O primeiro problema..ele não passou pela lei da ficha limpa. O Supremo foi acionado para se buscar a certeza que ele poderia ou não ser candidato.

Populista como ele só o Senador convocou a imprensa e disse que começaria uma greve de fome que duraria enquanto sua situação eleitoral estivesse indefinida. Oficialmente ele começou a tal greve, mas não emagrecia e continuava corado.

Parou em hospital e lá foi diagnosticada uma anemia com os médicos dando soro para que se alimentasse. O problema era que quem cuidou do caso foi um médico amigo dele então tenho dúvidas se não foi armação. Se foi nunca saberemos a verdade, mas esse “drama” fez que ele crescesse cinco pontos nas pesquisas eleitorais o que já lhe dava vitória no primeiro turno.

Conseguiu o que queria, como não fora condenado ainda foi permitido pelo Supremo que continuasse sua campanha.

A CPI prosseguiu e no fim o relatório apontou superfaturamento nas obras e ligações com narcotráfico, por sorte não chegaram até a mim. A CPI votou e aprovou o relatório e foi aberto o processo de cassação de mandato. 

Uma batalha tomou conta do congresso entre aliados e opositores. Getulio teve que se dividir entre Brasília e o Rio de Janeiro para a campanha e Douglas Severiano e eu fomos convocados para o trabalho sujo. Fazer o lobby em favor do Senador.

Em Brasília negociávamos com os parlamentares apoio, propinas eram acertadas para evitar a cassação, mas parceiro, tava foda. A Rede Povo entrou de cabeça na campanha pela cassação porque viu aí a chance de destruir seu maior opositor e mostrava diariamente o caso nos jornais além de novas denúncias.

Pra finalizar o que eles achavam ser a morte política de Getulio atacaram a igreja mostrando denúncias de desvio de dinheiro da instituição e treinamento de pastores para tomar dinheiro dos fiéis conseguindo assim jogar contra o Senador todos os que não eram evangélicos.  

Getulio conseguiu apoio das outras igrejas protestantes e essas montaram um grande comício em desagravo ao Senador. Mais de meio milhão de pessoas compareceram até a praia de Copacabana para o evento que contou com cantores gospel, pastores e personalidades da TV MAPE.

Muitos ônibus chegavam à praia, foram colocados especialmente na frente das igrejas para levar o povo ao evento e Getulio foi ovacionado em seu discurso.
Estava declarada a guerra santa.

Mas como estamos cansados de saber o nosso querido Congresso Nacional de santo tem nada então ele estava nem aí se Getulio era católico, protestante ou macumbeiro queria era ganhar dinheiro as suas custas ou fodê-lo sem KY, na seca mesmo.

O valor da propina aumentava cada vez mais junto com as denúncias e mesmo assim era difícil conseguir fechar acordos porque a opinião pública estava em cima e mesmo com votação secreta era época de eleições, fatalmente os nomes vazariam e nenhum político queria ficar mal com o eleitorado.

Douglas e eu na véspera da votação chamamos o Senador até Brasília e passamos toda a situação. Em seu gabinete ele quis uma posição nossa e eu respondi “Senador o que temos pra dizer pro senhor é que o senhor está fudido”.  

Não tinha jeito ele seria cassado sem dó nem piedade. Getulio perguntou se havia alguma solução e Douglas respondeu que a única era a renúncia.

O Senador falou que era contra. Renunciar era assumir culpa e eu disse que não, renunciar era a única chance de preservar sua carreira política a eleição se aproximava e fatalmente ele seria eleito e a única coisa que ele teria que se preocupar era com a justiça comum que era de uma grande morosidade.

E dei o argumento final que tudo dando certo e ele vencendo largaria o congresso de qualquer forma meses depois.

Contrariado o Senador aceitou.

No dia seguinte foram abertos os trabalhos para o processo de votação da cassação quando o Senador pediu a palavra e foi até a tribuna ler sua carta de renúncia pegando boa parte dos parlamentares de surpresa. Outros mais “raposas” já esperavam e assim foi tudo cancelado Getulio deixava de ser parlamentar, mas não se tornava inelegível podendo assim se dedicar a sua campanha. 

Enquanto uns saíam do congresso outros saíam da cadeia.

Pittinha conseguiu habeas corpus e saiu do presídio, mas não tive que me preocupar com sua saída o bicheiro tinha problemas maiores pra resolver.

Major Freitas fez um acordo com Pardal e sua facção dividindo o estado do Rio de Janeiro. Pardal ficaria com a zona sul, norte, centro e Niterói. Freitas e sua milícia com a zona oeste, baixada Fluminense e interior do estado. Um não se metia no negócio do outro e os dois eram aliados para atacar os inimigos que no caso seria a outra facção criminosa daqui e Pittinha e o jogo do bicho.

Sim porque com o bicho, caça níquel, gato net e transporte alternativo Pittinha dominava a zona Oeste e a baixada. Como vocês podem perceber rolou uma traição aí porque Pittinha e Pardal se tornaram aliados na cadeia, mas fora dela Pardal esqueceu isso.

Pittinha teve seu poder ameaçado e reduzido e teve que contra atacar como fez com seu primo anos antes. Começou quebrando bares com máquinas pertencentes ao major o que provocou retaliação, depois as kombis e vans de lado a lado foram atacadas.

Baixas aconteciam dos dois lados, mas no começo apenas de bandidos que serviam aos dois grupos e com o tempo a coisa foi se intensificando.

Uma noite Samantha, Andréia e eu saíamos pra jantar e combinamos uma esticadinha num motel. Quando saímos do restaurante meu telefone tocou e era Juliana pedindo ajuda porque Rebeca estava com febre alta. Minha princesinha sempre em primeiro lugar então pedi desculpas as duas e falei que ficava pra próxima vez indo ao encontro de minha ex mulher.

Foi o que me salvou.

Elas foram ao motel, fizeram amor e pediram champanhe à recepção. A campainha tocou e quando Andréia levantou e abriu a porta para pegar a bebida foi fuzilada por cinco homens que entraram no quarto e fuzilaram Samantha que estava na cama.

Com o sangue das duas mulheres mortas escreveram na parede Pittinha corno e se mandaram.

Claro que isso não ficaria barato.

Pittinha mandou que homens investigassem a vida de major Freitas e descobriram sua predileção por travestis, inclusive o travesti com o qual major saía no momento chamado Joyce Jackson. O major parecia apaixonado pelo traveco e foi isso que despertou a vingança do bicheiro.

Joyce fazia ponto numa avenida em Campo Grande quando um carro com insufilm parou e um homem chamou. O travesti se aproximou do carro e três homens saíram dele encapuzando o traveco e jogando dentro do carro.

Joyce apareceu dois dias depois numa lixeira no calçadão de Bangu. Teve o pau cortado, colocado em sua boca e um bilhete colocado em seu sutiã escrito “major viado que gosta de dar o cu”.

A guerra tomava conta do Rio.

Ainda mais com a fúria vingativa de Pardal que recebeu um telefonema do presídio. Eram comparsas seus presos noticiando que tinham Curió em seu domínio e perguntando o que fazer com ele. Nesse momento o traficante pediu que esperassem e pediu que seus soldados trouxessem Camila.

Camila foi levada ao local que estava Pardal assustada perguntando o que faria com ela. O bandido não deu atenção e perguntou aos presos como estava seu querido irmão. Eles responderam que já haviam dado uma bela surra no traidor e comido o cu dele um a um e queriam saber naquele momento quais eram as ordens.

Pardal riu e falou que os caras eram tarados de comer um cara feio como o irmão dele. Nesse momento Camila ouviu e fez cara de desespero. Pardal notou e rindo contou que a brincadeira só estava começando pedindo para os presos que colocassem Curió na linha.

Curió com voz sofrida disse alô e Pardal entusiasmado do outro lado da linha perguntou como seu irmão estava. Curió respondeu que mal e pediu clemência ao irmão, já tinham batido, abusado e já ocorrera a vingança. Pardal falou que concordava que a traição de ter tomado o morro dele já estava paga, mas faltava a traição de comer sua mulher.

Camila na hora falou que não havia ocorrido nada e Pardal gritou “cala a boca vadia que ainda não é sua vez”. Curió no telefone disse que eles se apaixonaram e não tiveram culpa e Pardal pediu que ele passasse o celular para um dos presos. O preso atendeu e Pardal mandou que cortasse o dedo mindinho dele.

Os gritos foram tão altos que quem estava perto de Pardal ouviu. O bandido rindo virou para os comparsas e contou que o irmão desde criança era frouxo. 

Depois voltou ao telefone e pediu que Curió fosse colocado de novo na linha.
Pardal perguntou se havia doído muito e o irmão respondeu que sim. O traficante então falou que era exagero dele já que tinha nove ainda, assim como duas orelhas e pediu que chamasse o preso de novo e a esse ordenou que cortasse uma orelha do irmão.

Mais uma vez os gritos foram ouvidos com Pardal rindo e pedindo que Curió fosse colocado de novo na linha. Com o irmão do outro lado Pardal falou que ele ainda tinha uma orelha e poderia se tornar um pintor famoso já que existia um que era até hoje e só tinha uma orelha.

Curió falou que já tinha sido torturado demais e pediu que Pardal lembrasse que eram irmãos, lembrasse da infância, adolescência, companheirismo e parasse.

Pardal aparentou comoção e disse que concordava em parar as torturas. Curió agradeceu e seu irmão pediu que chamasse de novo o preso.

O preso atendeu e Pardal mandou que parassem as torturas, a bateria do seu celular estava no fim então que matassem logo seu irmão.   

Desligou o telefone enquanto os presos esfaqueavam Curió o matando.
Camila gritava histérica quando um dos soldados perguntou a Pardal o que fazer. O bandido respondeu que a vadia era deles e poderiam fazer o que quisessem, mas que não se esquecessem de matar no fim e saiu andando do local que estava com a menina gritando e tendo suas roupas rasgadas.  

Alguns dias depois os urubus foram ao matagal e encontraram um belo banquete.

Pardal queria mesmo era a cabeça de Lucinho, mas esse era mais complicado. Um bandido mais inteligente e antenado com as coisas que ocorriam viu em Pittinha sua salvação.

Procurou o bicheiro que perguntou o que ele queria. Lucinho disse que sabia que Pittinha passava por problemas com major Freitas e Pardal havia lhe traído por combinarem uma ação fora da cadeia e ele se juntar ao major. Pittinha respondeu que isso era verdade e perguntou qual era a proposta.

Lucinho respondeu que tinha uns contatos, conhecimento e podia montar um grande exército, mas faltava verba para a ação. Seu plano inicial era tomar a favela da Lacraia que ficava em frente ao Trololó e iniciar uma guerra pela tomada da favela de Pardal matando o bandido e ao mesmo tempo começar uma caçada para matar major Freitas.

Pittinha gostou da idéia e contou ao bandido que ele teria todo seu apoio.
Dessa forma Lucinho arregimentou um exército e invadiram o morro da Lacraia. Dias de guerra noticiadas por jornais, rádios e TVs e no fim o bandido conseguiu seu objetivo matando Bob Lacraia.

Pardal soube da situação e ficou esperto por ter seu inimigo tão perto. Obrigou os jovens da comunidade a pegar em armas e receber treinamento para defender o morro e atacar a Lacraia.

Dessa forma as ruas perto das duas comunidades se transformaram numa faixa de Gaza, terra de ninguém se tornando um grande perigo para as pessoas de bem.

Lucinho foi o primeiro a atacar o Trololó. Dias de intenso tiroteio com moradores assustados chegando do trabalho e não conseguindo subir para suas residências, outros pegavam o pouco que tinham e desesperados tentavam fugir da favela sob o fogo cruzado. Um menino foi baleado em plena sala de aula e morreu causando grande comoção, além de outra criança com fuzil na mão no telhado de uma casa que percebeu que uma câmera de televisão lhe filmava e deu rajadas para o alto.

A guerra na zona oeste e baixada continuava, mas todos os esforços estavam concentrados nas duas favelas. Quem conseguisse tomar o morro do outro tinha mais de meio caminho andado para a vitória.

Pardal decidiu seguir a linha da “melhor defesa é o ataque” e enquanto tinha sua favela invadida pelo bando de Lucinho também invadiu a Lacraia causando grande terror à população.

As mesmas cenas de desespero e angústia aconteciam na Lacraia. O povo assistia a tudo pela televisão incrédulo. A polícia resolveu não se meter e deixar que os dois bandos se destruíssem esquecendo que no meio desses bandidos havia moradores, gente de bem sofrendo que balançavam panos brancos pelas janelas pedindo paz e essa imagem era passada pro mundo inteiro.

Outra cena dessa guerra que marcou e deu audiência foram bandidos do Trololó atravessando correndo por uma estrada de terra cercada pela mata em direção a Lacraia. O bando corria, alguns iam de jipes e recebiam balas do bando de Lucinho escondido no matagal. Um dos bandidos de Pardal levou um tiro na perna e foi amparado por um comparsa enquanto corria.

A guerra estava declarada de um lado Pittinha e Lucinho, de outro Pardal e major Freitas..e eu nisso tudo?

Ficava o mais longe possível nem quis cobrir os acontecimentos pelas organizações MAPE. Pedi ao Senador que me incluísse fora daquela.

Era briga de cachorro grande e eu tinha certo envolvimento com os quatro. 

Imagine se vaza pra Lucinho e Pittinha que a reunião entre major e Pardal foi na minha casa? Ou se vaza pro major e Pardal que eu estava no morro quando Curió e Lucinho tomaram o poder no Trololó? Era mais seguro e saudável pra mim que ficasse fora.

Até pro Senador ficou ruim. Ele tentou dar uma de bonzão e subir as duas comunidades para fazer campanha e mostrar que estava com o povo. Foi ameaçado tanto pro Lucinho quanto por Pardal que anunciaram que caso ele subisse tomaria bala.

Mesmo Pardal fazendo parte da igreja do Senador. Pardal parecia cada vez mais louco porque ao mesmo tempo em que guerreava frequentava a igreja evangélica diariamente e mandou fechar todos os centros de macumba da região e os que não obedeceram mandou que quebrasse tudo no local e matasse quem estivesse.

Tudo em nome do Senhor, quando perguntado como podia ser crente e continuar matando Pardal respondia que não misturava sua fé com trabalho.

E o governo nisso tudo?

Getulio não era o candidato do governo, era da oposição e só ganhava com todos aqueles problemas e o governador era candidato a reeleição e só se afundava. Alguma coisa teria que ser feita para que o homem não tivesse que ler cadernos de emprego a partir do ano seguinte.

Então o governador convocou uma entrevista coletiva anunciando que o BOPE e as formas armadas se juntariam pra tomar tanto o Trololó quanto a Lacraia pacificando as duas comunidades.
  
Evidente que Pardal e Lucinho não concordaram muito com a idéia do governador e sem querer acabaram se juntando no abuso. Decidiram que a cidade sofreria com aquela atitude.

A guerra saiu das comunidades, desceu a favela e ganhou o asfalto. Começaram incendiando ônibus. No começo mandavam as pessoas descerem pra atear o fogo, mas com o tempo começaram a incendiar com os passageiros dentro mesmo causando grande horror.   

Eram ações premeditadas e sincronizadas. Ao mesmo tempo vários lugares da cidade sofriam com a violência. Ônibus eram, incendiados por todo o Rio e em qualquer horário. Cabines da PM metralhadas e carros da polícia alvejados. 

Com os dias bandidos começaram a provocar terror em vias públicas, grandes avenidas da cidade metralhando as mesmas. Avenida Brasil e a Linha Vermelha tornaram-se alvos e locais perigosos para a população.

Arrastões eram feitos na praia. Um deles com uma multidão correndo foi filmado pela TV e virou história. Até na Av. Presidente Vargas e tarde, local e hora de muito fluxo teve ônibus incendiado.    

A população aterrorizada se trancou em casa com o governador quase que com contagem negativa nas pesquisas implorando que o carioca e fluminense vivesse normalmente porque estava tudo sobre controle.

Mas não estava..

As ações não paravam, a cidade sitiada assistia abismada a bandidagem derrotar o governo. A polícia chegava ao local com atraso e poucos eram os bandidos que conseguiam ser presos. Uma situação terrível que não amenizava, pelo contrário só aumentava e ocasionava ações espetaculares.

A primeira foi de Lucinho. Em plena tarde de sexta-feira ele com seu bando pararam perto da prefeitura, desceram sacaram metralhadoras e atiraram contra o prédio. A segurança se tocou e começou a atirar contra eles. Lucinho sacou lança míssil e atirou contra o prédio destruindo parte do local. Por sorte do prefeito ele não estava, mas a ação marcou e mostrou o quando estávamos desprotegidos.

Pardal viu pela TV o ato de Lucinho e ficou com inveja, algo ele teria que fazer.

Estava eu dormindo sonhando que comia sozinho uma pizza gigante de calabresa. É..eu estava de dieta então em vez de mulher sonhava com comida. Quando o telefone, como sempre, tocou.

Era minha fonte do Trololó perguntando se eu queria saber qual seria o ato seguinte de terrorismo na cidade. Respondi que não que nem estava cobrindo aqueles acontecimentos e que ele ligasse para algum jornal. O cara insistiu e falou que me contaria assim mesmo. As 17h00min uma bomba colocada por Pardal explodiria no metrô.

Respondi que beleza, eu só andava de carro e taxi mesmo então não teria problemas. Desliguei, voltei a dormir e dei um pulo acordando para a situação. Uma bomba explodiria no metrô ia morrer gente pra caralho e eu não podia deixar acontecer.

E pra piorar lembrei que Rebeca andava de metrô com a babá.

Imediatamente liguei pra Juliana perguntando se Rebeca estava em casa.
Minha ex respondeu que não, ela estava na escola e desesperado perguntei que horas nossa filha saía do colégio. Juliana sem entender nada respondeu 16h30min.

Aí o desespero veio de vez, soltei um puta que pariu e desliguei. Já era 16h35min eu não tinha muito tempo e saí de casa acelerando o carro, sem saber se seria em uma estação ou em um trem e ligando pro Senador.

Depois de muito tentar falar com Getulio consegui que atendesse. O homem estava em São Gonçalo fazendo campanha. Corria com meu carro tentando falar com ele, mas o barulho no outro lado era muito. Mas gritando consegui me comunicar com ele e contei que uma bomba explodiria no metrô e Rebeca estava nele. Pedi que entrasse em contato com o governador e avisasse.  

Getulio entendeu e disse que ligaria imediatamente desligando.

Enquanto isso um homem no vagão lotado descia de um trem do metrô e deixava pra trás sua mochila encostada perto do banco. Com as preocupações do dia a dia que cada um tem e aproveita aquela viagem pra pensar ninguém reparou naquela situação estranha.

O trânsito estava uma merda na Leopoldina, engarrafado e decidi descer e largar meu carro lá indo correndo até a estação de metrô mais próxima, a da Cidade Nova. Enquanto isso o Senador conseguiu entrar em contato com o governador que avisou a polícia.

As estações eram evacuadas e os trens parados para que a população descesse. Um grande desespero. Consegui chegar à estação Cidade Nova no momento que policiais desembarcavam pessoas de um trem. Quando eu descia à escada a bomba que estava na mochila explodiu.

Com o impacto fui jogado na escada. Levantei aterrorizado com a cena, tudo destruído, pessoas mortas, outras feridas chorando desesperadas eu nunca imaginei que veria uma cena como aquela na minha cidade. Corri em direção ao vagão desesperado gritando por Rebeca. Consegui passar pelos policiais que tentavam impedir pessoas de entrar. Entrei entre as chamas e...

..e vi minha filha caída ao lado da babá morta.

Peguei Rebeca nos braços, minha filha agonizava e eu falava baixinho pra minha filhinha que tudo ficaria bem, o seu papai estava ali ao lado dela. Saí com Rebeca do vagão e me ajoelhei do lado de fora com ela em meus braços. Rebeca me olhou eu disse que papai lhe amava e..

..e meu amorzinho morreu nos meus braços.

Dei um grito desesperado de dor com Rebeca no meu colo. Bombeiros chegaram e me retiraram tentando reanimar minha filha, mas de nada adiantou ela morreu..

Vocês não têm noção da dor que é..é difícil até pra escrever, relembrar..não existe dor pior para um pai e uma mãe que seu filho morrer, isso não é da vida porra!! A ordem natural das coisas é pai e mãe morrerem antes e que Deus filho da puta era esse que permitia que uma menininha de cinco anos de idade morresse daquela forma??

Aquela ação no metrô foi a gota d água. O governo tomou os dois morros expulsando os traficantes.

 No enterro da minha filha havia muita gente já que eu era um cara conhecido por minhas reportagens, Juliana que tomou calmante não parava de chorar enquanto eu frio segurava na alça do pequeno caixão de Rebeca. Lucinho disfarçado foi ao enterro e ficou de longe assistindo a tudo e quando o caixão foi sepultado um garoto se aproximou de mim contando que queriam falar comigo mostrando onde estava a pessoa.

Fui até Lucinho que me prestou solidariedade e perguntou se eu queria saber onde estava Pardal. Respondi que sim e ele me disse o local.

Perguntei se ele tinha uma arma e respondeu que sim e que já imaginava que eu pediria me entregando uma pistola.

Virei e saí andando com Lucinho parado atrás me olhando. Passei com pressa pelas pessoas que saíam do cemitério inclusive por Juliana que nervosa gritou meu nome perguntando o que eu iria fazer. Não lhe dei ouvidos eu queria Pardal.

Cheguei onde o bandido se escondia e ele estava com comparsas. Entrei e Pardal veio até a mim ficamos cara a cara e me abraçou pedindo desculpas, que sentia muito e não queria matar Rebeca.

Eu em vez de matá-lo fraquejei e aceitei seu abraço. Aceitei com olhar distante, frio, eu não estava ali. Fui fraco, covarde, não consegui matar o assassino da minha filha.

Eu vendi a alma ao Diabo e ele veio me cobrar.

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