quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

XXIII - Tempo de mudanças


Caíam as folhas do outono sobre o Rio de Janeiro e a casa de Pardal caía junto. 

O bandido foi transferido para o Rio de Janeiro com todo aparato policial possível e cobertura da imprensa. Depois de algum tempo foram permitidas visitas e fui até meu patrão prestar minha solidariedade.

Encontrei Pardal que ironizou perguntando se era uma visita íntima, respondi que não porque eu descobri que tinha herpes. O bandido riu e perguntou por Camila, o que havia acontecido com ela, falei que ela voltou para o morro e estava sob proteção de seu bando. O bandido então pediu que eu lhe mantivesse informado.

Mas eu não sei se ele iria gostar de todas as informações que eu teria.

Curió conduzia a favela sob comando do irmão que passava todas as ordens por celular. Pois é né incrível preso usa celular na cadeia, vocês não sabiam? Enfim Curió era fiel ao seu irmão e mesmo com ele preso Pardal continuava mandando no Trololó.

Mandando até a página três...

Porque se Curió era fiel, até um pouco ingênuo Lucinho não e essa era a oportunidade que o bandido tanto esperou pra dar o golpe em Pardal.
Certa noite Lucinho apareceu no Trololó para espanto de todos, Curió perguntou o que o bandido fazia ali e comentou que ele sumira.

Lucinho com aquele sorriso simpático de sempre que escondia suas verdadeiras intenções contou que precisava falar com o bandido.

Foram conversar numa sala da associação de moradores e Lucinho perguntou como estava a situação no morro, Curió respondeu que estava tudo tranquilo sem mudanças ele recebia as ordens de Pardal e passava para seu bando e a comunidade. Lucinho então perguntou por que ele ainda fazia isso se o irmão estava preso e mofaria na cadeia.

Curió falou que não entendia aonde Lucinho queria chegar e esse respondeu que Pardal não sairia tão cedo da cadeia e não tinha mais como gerir o morro e fatalmente uma hora ou outra o bando entenderia essa situação e daria um golpe de estado nele tomando o poder.

Curió falou que não, o grupo era de confiança, mas Lucinho cortou dizendo que não existia confiança em ambiente de dinheiro e poder a qualquer momento os caras veriam que o Trololó estava sem comando e tentariam algo podendo até matá-lo. Curió se assustou com essa parte.

Lucinho percebeu que deixara Curió zonzo e continuou falando que Curió teria o poder, seria o cara do pedaço todos teriam obediência e dinheiro, muito dinheiro para realizar todos os seus sonhos e sem o irmão por perto para encher o saco.

Finalizou que Curió devia ser o novo dono da favela.

Curió então perguntou a Lucinho o que devia fazer. Chegou aonde o bandido queria..

Lucinho então contou que ele devia assumir o poder, mostrar ao Trololó quem mandava agora e que podia contar com ele que estaria sempre ao seu lado oferecendo todo seu apoio e experiência.

Curió com os olhos brilhando pela ambição perguntou se podia contar mesmo com Lucinho e esse com o sorriso já famoso botou a mão no ombro do traficante e respondeu “claro que sim”.

Curió era cabeça fraca, vivia à sombra do irmão e claro que não seria difícil pra Lucinho com todo seu papo convencer o bandido a fazer o que ele queria.

Curió iria assumir o poder na favela, mas de verdade seria uma fachada quem mandaria mesmo seria Lucinho conseguindo assim o seu maior objetivo. 

Derrubar Pardal.

Cheguei no morro exatamente no momento que Curió e Lucinho saíam da reunião reservada. Cumprimentei os dois e Lucinho sorrindo falou “quanto tempo Beto fiquei com saudades”, respondi que ele tinha sumido e ironicamente perguntei o que fazia de bom, ele respondeu que nada demais apenas matando policiais, derrubando aviões, coisas corriqueiras e que o melhor viria naquele instante.

Quando ele me falou Curió reuniu os bandidos do morro e falou que tinha um comunicado pra fazer. Lucinho me puxou para que eu ouvisse.

Com todos reunidos Curió contou que haveria uma mudança no comando da favela. Pardal preso se impossibilitara de continuar a frente dos negócios e ele seria o novo comandante.

Os homens ficaram quietos um tempo até que um apontou o fuzil pra cima dando vivas para o novo chefe e todos atiraram. 

Puxei Lucinho e perguntei que maluquice era aquela, daria merda com Pardal. Lucinho respondeu que Pardal tinha coisas mais sérias pra se preocupar como sua própria vida na cadeia.

Lucinho não deixava de estar certo. Pardal era um dos figurões de sua facção criminosa e lógico que sua cabeça estaria a prêmio. Os presos foram divididos em galerias condizentes com suas facções, mas o clima bélico estava no ar. A cadeia cheirava a morte..

Pardal se converteu no presídio virando evangélico, mas por mais estranha que essa situação pareça o fato de ter virado crente não fez deixar de ser bandido. Fui visitá-lo sem jeito de contar ou não o que ocorria no Trololó, mas o bandido era bem informado e já sabia de tudo.

Encontrei Pardal puto da vida contando que daria um jeito de sair da cadeia. No auge de sua fúria falou “Por Nosso Senhor Jesus Cristo eu vou matar todos esses filhos da puta!!”.

Aquilo tudo era muito estranho pra mim. Pardal com roupas de crente, pedindo pra ser chamado de Irmão Nicácio e com uma bíblia na mão falando em matar, aterrorizar. Eu olhava fixamente pra bíblia enquanto ele contava que sabia também que tomava chifre de Camila.

Olhei espantado pra ele que reforçou “É, Camila”. A menina se transformou em uma “Maria fuzil” e começou um caso com Curió e também morreria quando ele saísse de lá.

Se Pardal crente, citando passagens da bíblia tinha aquela fúria
eu nem queria ver quando ele fosse tomado pelo capeta.

Mas a minha situação também não era tão tranqüila.

Estava na casa de Andréia fazendo minhas brincadeiras de praxe com ela e Samantha quando um carro parou bruscamente na frente da casa.

Andréia percebeu o carro e falou que era alguma merda. Eu que me divertia falei pra deixar pra lá e continuarmos, mas Samantha disse que era melhor ver o que ocorria. Levantou e na janela percebeu que era o carro de Pitinha.

Botei minha cueca correndo quando Pittinha esmurrou a porta contando que sabia que Samantha estava lá e tinha um homem. Andréia desesperada mandou que eu pulasse a janela. Falei que era alto demais e estava apenas de cueca, mas Samantha implorou que eu fizesse e pulei.    

Pulei e saí correndo. Pittinha arrombou a porta e não me achou só viu as duas na cama. Na ótica esquisita do bicheiro ele nem ligou da mulher estar na cama com a irmã o problema era ter homem no meio.

Revistaram o quarto e acharam minha carteira e lá minha identidade descobrindo assim quem era o amante. Pittinha foi até a janela e um segurança alertou que eu pulei. O bicheiro puto virou para as mulheres e falou que aquilo não ficaria assim e me mataria.  

Eu na rua apenas com cueca andava constrangido e dando boa tarde pras pessoas como se aquela situação fosse normal. Cheguei em casa e minha mãe perguntou onde eu tinha ido com aquele traje e eu poderia pegar uma gripe.

Dei um beijo em minha mãe quando o telefone tocou. Atendi e era Andréia falando pra eu sumir porque Pittinha estava como um doido falando que me mataria.

Falei pra minha mãe que teria que sair de casa por um tempo, mas não lhes deixaria desamparados. Entrei no quarto pra colocar uma roupa e colocar outras em uma mochila com minha mãe falando “tudo bem, mas quem é você?”.

Peguei minha mochila e botei nas costas quando ouvi Pittinha esmurrar a porta. Eu já estava de saco cheio dessas histórias de ter que pular pela janela pra não morrer, mas lá fui eu de novo.

Pulei pela janela no momento que Pittinha abriu a porta e deu um tiro acertando minha bunda. Caí no chão soltei um ai e corri capengando, pra minha sorte um taxi passava na hora pela rua e fiz sinal entrando.

Enquanto os homens de Pittinha atiravam pela janela mandei que o taxista acelerasse para um hospital e fiquei ali sentado no banco de ladinho.

Constrangedor no hospital eu de bunda pra cima e o médico examinando. O homem falou que estava tudo bem comigo e o tiro havia sido de raspão. Fez curativo e mandou que eu ficasse lá deitado, mas eu sabia que não podia ficar ali a qualquer momento chegariam Pittinha e seus rapazes.

Coloquei minha roupa sem ninguém perceber e saí do quarto. Ao sair vi uns seguranças de Pittinha pelo corredor. Voltei ao quarto e pela terceira vez no dia e quarta nessa história pulei pela janela.

Não podia voltar pra casa então me refuguei no Trololó pedindo proteção de Curió e Lucinho.

Pra minha sorte não precisei ficar muito tempo na favela. O homem que foi preso devido ao atentado contra a juíza Solange resolveu abrir o bico e não levar mais a culpa sozinho acusando Pittinha de ser o mandante.

O bicheiro ficou um tempo foragido com a polícia do país lhe caçando. Parou em Buenos Aires e lá foi preso pela polícia argentina enquanto curtia um tango no bairro de Boca.

Depois de enfrentar as burocracias costumeiras Pittinha foi extraditado e recebido com todo carinho e afeto pela justiça brasileira. O advogado das roubadas Dr. Eduardo Feitosa tentava o habeas corpus pro bicheiro, mas todos eram negados.

Mas Pittinha não tinha muito do que reclamar tendo as regalias de sempre na cadeia. Quem se deu bem com isso foi Pardal que também usufruía do poder do bicheiro.

Na cadeia aumentaram seu grau de amizade e intimidade. Pardal explanou pro bicheiro a situação do Trololó e propôs sociedade a Pittinha.

Pittinha gostou da idéia. Os dois juntos retomariam o Trololó e ganhariam dinheiro com a favela. O poderio financeiro do bicheiro junto com o conhecimento do traficante poderia ocasionar muitos estragos.

Visitei Pardal e soube do que ocorria, tentei visitar Pittinha também, mas esse ao me ver tentou voar no meu pescoço e disse que me mataria.

Detesto pessoas que não sabem perdoar.

Vou falar uma coisa pra vocês..a temporada pro Dr. Eduardo Feitosa estava intensa, o homem nunca teve tantos problemas para resolver na vida e provavelmente nunca ganhou tanto dinheiro. Não era apenas Pittinha que passava por problemas com a justiça, o Senador também.

Como vocês já sabem o Senador Getulio Peçanha era bispo e fundador de uma igreja, além de dono de um grande conglomerado de comunicação. Um homem poderoso e 171. Seus pares também sabiam que ele era safado, mas não tinham como provar. Não tinham...

O Senador estava como diriam os antigos na “crista da onda”. Virou ministro da educação e cuidava de toda verba orçamentária do ministério. Cuidava com carinho principalmente a parte que ia para seu bolso.

Lançou um projeto de construção de escolas pelo país e superfaturou o projeto. Assim cada saco de cimento e tijolo ganhava oficialmente um preço muito maior atendendo ao apetite voraz do Senador. Ele se julgava mais esperto que os outros, mas o mal do malandro é achar que todo mundo é otário.

A oposição ficou em cima e desse esforço começaram a pipocar denúncias contra o ministério. Uma revista semanal lançou no domingo uma grande matéria de capa com o Senador e as denúncias de desvio de verba.

Mais uma vez Getulio apelou para a fé e o preconceito religioso para se defender das acusações. O homem era líder das pesquisas pro governo do estado e não podia deixar que nada atrapalhasse sua campanha.    

Mas as denúncias eram sérias, contundentes e com embasamento o que complicava a situação do Senador.

Escândalos antigos que foram abafados retornaram a tona e criou-se um grande embate não só religioso como político entre governo e oposição. O presidente da República lhe defendia com unhas e dentes e declarava confiança em seu ministro.

Mas as denúncias aumentavam. Novas provas apareciam e por incrível que pareça o Senador crescia nas pesquisas pro governo. Sua igreja era muito forte no estado e a impressão que dava é que as denúncias não chegavam ao eleitorado.

Podiam não chegar ao povo, mas chegava ao congresso, à justiça e à imprensa e no domingo seguinte uma matéria pior ainda ligava Getulio ao narcotráfico com gravações, rastreio de dinheiro, enfim muitas provas e eu apavorado que chegasse em mim.

A casa caiu pro Senador.

Sem alternativas Getulio foi obrigado a pedir demissão ao presidente e voltar para o congresso a fim de manter seu mandato e evitar que fosse processado pela justiça.

O negócio era ver se Jesus salvava..

A situação para o Senador era preta, mas tinha gente que começava a se dar muito bem e o nome dessa pessoa era major Freitas.

O major descobriu uma nova fonte de renda e nessa nova fonte se transformou na principal cabeça.

O major como vocês já sabem de honesto e ético tinha nada e ganhava muito dinheiro extorquindo traficantes em troca de “paz”. Os bandidos davam a grana e Freitas garantia que a polícia não entraria na favela.

Só que a ganância de Freitas era grande, maior do que os traficantes podiam dar. O major começou a ficar insatisfeito com a situação e observando como era a vida na favela percebeu que poderia ganhar muito mais se não tivesse atravessadores.

Foram a uma favela na zona Oeste da cidade e o traficante reclamou que o major já tinha estado lá naquela semana. Freitas olhou pra ele e disse que estaria lá não só naquela semana como nas outras dando um tiro no rosto do bandido.

Subiu a favela com outros policiais de seu bando e mataram ou colocaram pra correr o resto dos bandidos do morro. No fim Freitas falou que a favela era deles.

Não só aquela favela como todas da região caíram nas mãos de major Freitas e seu grupo usando o mesmo artifício. Invadindo e tomando dos bandidos. Freitas se tornou o maior da região ainda mais com a prisão de Pittinha que através do jogo do bicho tinha o controle da zona Oeste.

Ok..vocês devem estar perguntando como o major ganhou dinheiro com essa história toda, ele virou traficante? Não pelo contrário drogas foram terminantemente proibidas nesses locais.

O lucro do bando vinha de outras ações como controle da venda de gás, do gato net que vem a ser operadora ilegal de TV a cabo, de cobranças por proteção e transporte ilegal.

Por uma ótica superficial dá até pra pensar que esse meio era mais legal do que tráfico de drogas e seria uma boa pra população, mas não era. Os métodos de cobrança do major eram ainda mais violentos que do tráfico e um poder perigoso já que Freitas conseguiu o apoio de vários deputados e vereadores para suas ações tornando-se sócio deles. Financiava a campanha de vários deles para as eleições que se aproximavam, inclusive de Getulio Peçanha ao governo do estado.

A polícia descobriu o que Freitas fazia assim como a justiça e a imprensa. Major foi expulso da polícia, mas não conseguiam botar as mãos nele. Virou inimigo público, mas muito poderoso mais até que os traficantes.

A milícia era o novo poder paralelo que assustava o Rio de Janeiro.

E eu nisso tudo? Seguia apavorado com a possibilidade de investigando mais profundamente o Senador chegassem até a mim e decidi abrir uma conta no exterior transferindo 90% do dinheiro que tinha.

 Continuava fazendo a biografia de Pardal diretamente do presídio. O homem cada vez mais fervoroso na religião e como uma contradição com ódio cada vez maior por Lucinho, Curió e Camila. Jurava que teria tudo de volta.

Mas a minha situação era dramática por outros motivos. O Alzheimer de minha mãe era cada vez pior e estava difícil a situação em casa. Eu não sabia mais como tratar com ela e começava a considerar a hipótese de uma internação, além disso, meu pai perdia a batalha contra a leucemia.

Seu José entrava e saía do hospital com freqüência até que foi pra UTI.
Eu me dediquei integralmente ao meu velho. Passava quase o tempo todo no hospital lhe fazendo companhia. Fiquei exausto fisicamente, mentalmente, mas não arredava o pé aquele velhinho na cama era meu ídolo, meu herói o homem que me criou e tinha que saber que eu estaria com ele em todos os momentos.

Uma noite eu estava na recepção sentado olhando pro nada quando Juliana chegou. Ela notou meu estado e sentou ao meu lado com um saco de uma loja de fast food na mão dizendo que ali tinha um sanduíche e um refrigerante pra mim. Eu agradeci, mas falei que estava sem fome.

Juliana disse que eu precisava comer me alimentar direito pra poder enfrentar aquela barra, mas enquanto ela falava comecei a chorar.

Eu nunca havia chorado na frente de minha ex mulher e ela se assustou com a cena. Com lágrimas nos olhos passou a mão na minha cabeça acariciando meus cabelos e falando pra eu chorar que fazia bem e que eu não estava sozinho. Eu com a cabeça abaixada só falava “Ju, meu pai..”.

Juliana deu um beijo em minha cabeça e me abraçou falando que me amava e reforçando que estaria comigo. Levantei a cabeça com o rosto molhado de choro e ela me beijou.

Nos beijamos e no fim eu pedi desculpas lembrando que ela não queria mais saber de mim por eu ter traído, acabado com a confiança e ela me interrompeu com ouro beijo. No fim desse falei que ela só me beijava porque estava com pena de mim.

Juliana disse que eu falava demais e me deu outro beijo.

Fui para casa descansar um pouco e apaguei na cama sonhando com mulher como sempre..mas dessa vez não era uma mulher famosa, sonhava com Juliana. A campainha tocou e tinha ninguém em casa já que a empregada levara minha mãe ao médico então fui obrigado a levantar.

Levantei, olhei pelo visor e tomei um susto, abri e era Juliana. Perguntei se havia acontecido algo com Rebeca então ela entrou fechou a porta me encostou na parede e me beijou.

Não deu tempo que eu falasse nada. Nos beijávamos e durante o beijo ela tirava minha roupa e eu a dela. Dessa forma tirando a roupa fomos para o quarto e fizemos amor.

Parceiro é por nada não, sexo é bom pra caralho, mas sexo com quem a gente ama é muito melhor. Fudi pra cacete, esse período todo vocês acompanharam minhas aventuras, mas a melhor foda de todas foi aquela. Sei lá posso estar meio “veadinho”, mas acima de tudo sou um romântico..é..ninguém acredita, mas eu sou.

Fizemos amor e ficamos lá deitados na cama sob as cobertas. Uma sensação estranha porque meu pai estava entre a vida e a morte no hospital, a saúde de minha mãe se deteriorava a olhos vistos e mesmo assim eu estava feliz.

Feliz porque me toquei que aquela que eu chamava de jararaca, que eu falava que ex era um saco porque era pra vida toda na verdade era a mulher da minha vida. 

Ficamos lá na cama fazendo planos. Juliana perguntou se eu não queria casar com ela e engasguei. Rindo minha ex perguntou se então era isso eu só queria comê-la e respondi que não, a idéia era maravilhosa só não esperava porque nunca fui pedido em casamento, mas topava.

Um beijo de amor foi dado e a certeza de um futuro feliz ao lado de minha filha e da mulher que amava.

Os dias passavam e mesmo com as dificuldades com meu pai e minha mãe eu era um homem feliz. Sentia-me mais forte para enfrentar esses problemas.

Contamos pra Rebeca que papai e mamãe voltariam a morar juntos e ela ficou feliz nos abraçando. O Senador também aprovou nossa decisão e tudo parecia caminhar bem.

Parecia..

Minha mãe já estava em um estágio que não falava coisa com coisa e misturava passado e presente. Dizia coisas que eu não prestava muita atenção, mas depois com o tempo começou a falar sobre assuntos que me interessavam.

Do nada ela falava coisas como “José, o menino é seu filho sim” e “José, o menino não é seu filho.” Aquilo não batia bem e eu chegava em minha mãe perguntando o que ela falava, o que significava. Alguns dias depois além dessas frases ela falava “Não Dr. não faça isso, por favor, eu amo meu marido”

É manolo, aí que minhas dúvidas aumentaram.

Perguntava pra ela e nada, com meu pai não tinha como falar porque estava em coma. Então aproveitando uma ida de minha mãe ao médico vasculhei o quarto dos meus pais atrás de um indício.

Até que achei um diário.

Um diário já com folhas amareladas e soltando. Levei para sala e li atentamente. Tinha muitas coisas da vida dele, intimidades com meu pai, coisas que eu fiz. Mas o que me interessava mesmo era a parte de meu nascimento.

E lendo essa parte que me assombrei. Nele minha mãe relata uma noite de chuva em que todos dormiam e ela na cozinha guardava a louça quando o Senador chegou bêbado e começou a acariciá-la. Minha mãe pedia pro Senador parar porque ela era casada e amava seu marido, mas ele não parou e a violentou ali mesmo na mesa.

Minha mãe engravidou, eu nasci e ficou a incerteza de quem era meu pai, o que eu achava que era até aquele momento ou o Senador Getulio Peçanha. Ela nunca contou o estupro pro meu pai. 
 
Eu lia e me aterrorizava. Pulei até a parte que comecei a me envolver com Juliana. Minha mãe mostrava ali o terror que sentia de nos ver namorando sem saber quem era meu pai, mas confiava em Jesus Cristo e tinha certeza que eu era filho de seu marido e assim “os meninos não cometiam pecado”.

Acabei de ler e parecia que meu chão havia sumido. Minha mãe foi estuprada pelo Senador e não sabia de verdade quem era meu pai e por seu uma pessoa humilde, do interior não sabia que tinha como descobrir quem era.

E me aterrorizou também o fato dela não ter tentado impedir nosso namoro, casamento, o nascimento de Rebeca. Minha mãe jogou tudo na religião na fé que tinha que eu era filho do homem que me criou e teve essa certeza quando Rebeca nasceu saudável.

Levantei, deixei o diário no lugar e resolvi que tinha que fazer algo.

Fui até o hospital onde meu pai estava internado e cortei fios de seu cabelo. Guardei e levei para exame de DNA.

Foram dias de expectativa até que saiu o resultado, ele não era meu pai.
Meu assombro aumentava. Era um pesadelo que não podia estar ocorrendo. 

Tinha quase certeza, mas precisava saber exatamente então fui até a casa do Senador.

Com a desculpa de saber como ele estava dei um porre em Getulio. Bebemos muito e no fim quando o Senador apagou no sofá cortei fios de seu cabelo pra levar ao exame.

E alguns dias depois foi comprovado. Senador Getulio Peçanha era meu pai.

Eu não era a Maysa, mas meu mundo caiu. Não só Getulio era meu pai, mas como Juninho era meu irmão e pior..Juliana era minha irmã!! Cometemos incesto tivemos uma filha que poderia ter todos os problemas e não teve porque realmente Deus ajudou e justo naquele momento em que Juliana e eu resolvemos assumir nosso amor e partíamos pro tradicional “e foram felizes para sempre” caía aquela bomba.   

Juliana era minha irmã então eu não podia mais voltar pra ela, não podia mais amá-la.

Fui ao apartamento que ela e minha filha moravam aproveitando que era um momento que sabia que ela estava sozinha. Toquei a campainha e ela abriu a porta sorrindo e tentando me beijar, mas me esquivei.

Juliana perguntou se ocorrera alguma coisa, se meu pai piorou. Eu não podia contar a verdade para ela seria terrível pra Juliana saber toda a história, que seu pai era um estuprador eu era seu irmão e nossa filhinha era fruto de incesto. Era muita coisa pra cabeça dela então resolvi fazer o que sei melhor, mentir.

Virei pra ela e disse que pensei muito e resolvi que era melhor nossa história acabar ali.  Juliana espantada perguntou por que, não entendia o que ocorria. Falei que não lhe amava mais eu estava em um momento carente e por isso fiquei com ela e que tudo ficaria como antes.

Juliana pegou minha mão chorando e implorou para que eu não fizesse aquilo, me amava e eu era tudo pra ela, mas frio soltei minha mão e disse que ela tinha me colocado na cadeia, me humilhado várias vezes e eu não acreditaria naquele papo de amor. Xinguei que era uma jararaca e eu preferia as vagabundas que eu tinha na rua que eram mais gostosas e não pegavam no meu pé.  
  
Juliana num misto de raiva e tristeza começou a me socar      
mandando que eu fosse embora, que ela tinha se enganado porque não mudei em nada e acabaria meus dias sozinho. No fim abriu a porta e mandou que lhe deixasse em paz.

Saí, fechei a porta e do lado de fora ouvia o choro desesperado do meu amor. Não agüentei e sentei ali mesmo do lado de fora também chorando. Fiquei alguns minutos ali sofrendo e fui embora.

Entrei em casa dei um beijo em minha mãe e fui pro quarto. Lá coloquei Tim Maia no aparelho de CD. A nossa música, “você”.

Enquanto ouvia os versos “você é algo assim, é tudo pra mim, é mais que esperava baby” deitei na cama e com o rosto no travesseiro abri o berreiro. 

Estava doendo muito.

Depois passei a madrugada no hospital velando o sono de meu pai. Ele sedado com aqueles tubos no nariz e o barulho de seu coração apitando no aparelho que media freqüência cardíaca. Peguei suas mãos e falei que o amava e ele seria meu pai para sempre.

Encostei minha cabeça em nossas mãos e chorei por sua desgraça, a minha e as mulheres que amávamos.

Amava tanto Juliana que por ela fui capaz de renunciar a esse amor. Amor também é renúncia.

Que merda...



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