domingo, 18 de dezembro de 2011

XXI - Enredo do meu samba


A pressão da sociedade e principalmente da Rede Povo de televisão pela prisão de Pardal foi muito forte, mas esse colocou dez no macaco e se mandou. Apenas Curió sabia onde estava o bandido e por telefone ele recebia as ordens de como tocar o Trololó.

Lucinho se afastou mesmo da favela e resolveu seguir seus passos de forma independente. Envolveu-se em negócios com outras favelas e até com a facção rival a de Pardal. Um bom dinheiro começava a entrar para o bandido.
Lucinho começou a fazer uma série de viagens rápidas para o exterior e em uma delas quis me levar. O desafio era a Holanda, levar uma carga pesada de cocaína para o país que renderiam muitos euros.

Assim em uma noite Lucinho bateu à minha porta me chamando para ir com ele assim como fizemos para Paris. Como sempre eu falei que era melhor não ir, achava perigoso, mas também como sempre Lucinho acabou me convencendo.

Mas alguma coisa naquela história não me fazia bem. Eu já havia me envolvido até o pescoço com a bandidagem carioca, mas não queria ser preso e tinha uma filha para criar. Desde a situação de Irmã Leila comecei a viver um dilema moral, não conseguia mais sentir tanto prazer em viver nesse mundo. Ainda mais que já fiz meu pé de meia.  

Decidi que seria a última viagem e me afastaria de tudo, ainda mais com Pardal preso. Fui até a casa do Senador me despedir de Rebeca e contar que traria um presente lindo pra ela. Juliana então me chamou pra conversar.

Com cara séria e preocupada perguntou aonde eu iria e porque tantos mistérios. Mais uma vez falei pra Juliana não se preocupar que era nada demais e eu sabia o que estava fazendo.

Despedi-me das duas e na hora de abrir a porta Juliana veio atrás de mim, segurou a minha mão e pediu para que eu não fosse. Olhei para minha ex e ela com uma cara assustada me falou que tinha um pressentimento ruim e algo poderia ocorrer comigo.

A fala dela me preocupou, mas não deixei transparecer. Acariciei seu cabelo, agradeci a preocupação e saí.

Saí com o coração na mão.

Em casa arrumava as malas para viajar mais tarde quando recebi ligação de Itaperuna. Era minha mãe nervosa contando que o velho José Martins não estava bem. Corri pra cidade.

Meu pai gostava de um goró e havia caído da escada em casa. Uma ambulância levou pro hospital e quando cheguei lá tudo aparentava estar bem. O médico me chamou pra conversar e eu perguntei em quanto tempo meu pai teria alta.
O médico então contou que ele tinha leucemia.

Meu mundo desmoronou. Meu pai sempre foi meu herói, meu melhor amigo aquele que sempre esteve ao meu lado quando eu mais precisava e não podia suportar ficar sem ele. Fui ao quarto contei para meus pais a situação e que eles iriam pro Rio de Janeiro comigo.

Não podia abandonar meu pai em um momento como aquele.

Enquanto eles arrumavam suas coisas liguei para Lucinho e falei que não podia ir com ele, meu pai estava doente e precisava de mim. Evidente o bandido ficou puto, pedi desculpas e desliguei.

Peguei meus pais e trouxe para o Rio. Tive que sair da quitinete que eu tanto amava e aluguei um apartamento de três quartos para tomar conta dos meus velhinhos e contratei uma enfermeira para cuidar do meu pai e da minha mãe que apresentava Alzheimer. Meu pai começou seu tratamento e eu dei sorte porque não viajei.

Lucinho chamou Cobreloa para ir no meu lugar e o gringo topou. Usaram os disfarces de padre rotineiro, mas dessa vez a polícia se preparou e não adiantou usar a desculpa dos parafusos na perna.

Os cachorros latiram muito pra Cobreloa e a polícia achou drogas com ele e também com Lucinho sendo os dois presos. No aeroporto mesmo descobriram as verdadeiras identidades dos dois e vibraram como um gol de placa. Botaram finalmente as mãos em Lucinho.         

Os dois foram transferidos para Bangu I e no momento que vi na TV a reportagem com as prisões dei graças a Deus de não ter ido. Juliana estava certa.

E como forma de agradecimento fui até a casa do Senador. Juliana se espantou quando me viu e perguntou se não era para eu estar viajando, respondi que sim, mas tinha mudado de idéia e estava lá para convidar Rebeca e ela para tomar sorvete.

Minha filha correndo veio me abraçar e perguntou pelo presente. Respondi que ficava para próxima porque ela iria tomar sorvete com os pais e os avós. Ela feliz nos puxou pelos braços e deu um abraço em seus avós que esperavam no carro.

Assim meu pai, minha mãe, minha ex mulher, minha filha e eu fomos para a praia tomar sorvete e eu agradecia aos céus por minha sorte.

Só não poderia contar sempre com ela.. 

Aproximava-se o carnaval e como a polícia e a Rede Povo não achavam Pardal o assunto da cidade acabou virando a folia.

Depois de anos e anos na Acadêmicos da Guanabara Rogério Guanabara recebeu uma proposta pra assumir o comando do carro de som da Soberana de Bangu.

Apesar de anos na Acadêmicos querido na escola e cria da agremiação Rogério nunca recebera a oportunidade de ser o cantor principal da escola e era insatisfeito com isso apesar de ser amigo de Charles Poesia, então o convite veio em uma boa hora e ele topou.

Além do lado financeiro e do sonho de ser primeiro cantor de uma agremiação havia o lado emocional. O pai de Rogério conhecido no samba como Bira Graveto, apelidado graveto por ser magrinho, foi durante muitos anos cantor da escola. Foi a voz da agremiação em seu auge.

Bira Graveto foi cantor da escola durante trinta anos e morreu de ataque cardíaco no banheiro da agremiação no dia da final da disputa de samba-enredo. Alguns dizem que foi overdose, mas isso nunca foi provado.

Os pais de Rogério na ocasião da morte já eram separados e sua mãe foi junto com Pittinha e outros bambas fundar a Acadêmicos da Guanabara.

O moleque Rogério praticamente cresceu na quadra da agremiação e logo garoto descobriu o dom de cantar. Malandro aprendeu a cantar o samba exaltação feito para o velho Pitta e quando via o bicheiro entrar na quadra corria pro palco para cantar o samba. Oswaldo Pitta se emocionava e dava um agrado a Rogério, geralmente em dinheiro.

Como eu já falei antes a Soberana de Bangu era a maior vencedora do carnaval carioca, mas não vencia há vinte e cinco anos, desde a saída de Oswaldo Pitta. A Acadêmicos da Guanabara então foi fundada e desses vinte e cinco carnavais ganhou dez mostrando-se a nova dona do samba carioca.

Mas a Soberana de Bangu prometia um grande carnaval para aquele ano, o fim do jejum.

O pré carnaval foi bem agitado. Fiz amizade com o Rogério e assim como a Acadêmicos da Guanabara comecei a freqüentar a Soberana de Bangu e tinha área vip pra mim nas duas.

Pittinha tinha ciúmes de minhas idas na Soberana. Mas falava que meu coração estava com a Acadêmicos e frequentava a outra pelo Rogério. Pittinha esbravejava que foi traição do cantor e ele nunca seria um dos grandes do carnaval.

Mas Rogério crescia. Recebia um excelente dinheiro da Soberana
de Bangu e como era um dos cantores mais requisitados pelos compositores para defenderem seus sambas nas disputas de samba-enredo começou a fazer seu pé de meia.

No sábado passei rapidamente pela Acadêmicos e fui com Rogério para a Soberana de Bangu já que a noite reservava a apresentação da nova porta bandeira Kátia Mendes, conhecida e premiada porta bandeira do carnaval.

O motivo dessas contratações era a mudança de poder na Soberana Florentino Mazola, donos dos supermercados Mazola era o novo presidente e com ele os investimentos necessários chagavam a agremiação carente de conquistas.

E a festa rolava e no meio da festa ela foi apresentada e é por nada não a menina era linda. Graciosa vestida para apresentação e com o pavilhão nas mãos abria um largo sorriso enquanto Florentino falava. Rogério virou para mim e desse “que menina linda”, ri e logo notei que meu amigo se apaixonara.

Rogério foi chamado ao palco e com seus auxiliares e cantou o samba-enredo da Soberana para o carnaval enquanto Kátia bailava com seu mestre sala. Eu fiquei no camarote com Florentino que falava entusiasmado do carnaval que a escola preparava e que finalmente acabaria o jejum.

Nisso major Freitas se aproximou junto com um homem que apresentou como capitão Miranda. O homem com um aperto de mão forte cumprimentou a mim e Florentino e ficamos todos observando o ensaio. Major virou pra mim e no meu ouvido falou pra não criar muita intimidade com Kátia que ela era “comidinha do capitão”.

Assim fiquei sabendo que a porta bandeira era amante do capitão e que ele era um dos líderes de um grupo de extermínio da região. Logo esqueci o quanto ela era bonita.

Major Freitas não foi ao ensaio apenas porque gostava de sambas. Ele estava mal intencionado e sua má intenção de chamava Sophia Charlene, era a rainha da bateria. Não entendi quando ele mostrou o interesse porque até onde sabia a menina não tinha pau, mas preferi ficar quieto para preservar minha vida.

Mais tarde estávamos todos no camarote de Florentino quando Rogério notou que Miranda não se desgrudava de Kátia e me perguntou “qual era a da parada”. Relatei pra ele então e o cantor disse que “estava fora”, não queria mais saber dela. Não sei por que não senti muita firmeza.

Em outro canto do camarote major e a rainha conversavam e de repente rolou um beijo. Sophia era uma menina linda, quase uma adolescente, corpo perfeito e sem nenhum pingo de silicone Uma das poucas rainhas de bateria de comunidade foi eleita no ano anterior para o cargo e no primeiro desfile já havia chamado muita atenção conseguindo o olhar da mídia na mesma proporção de Samantha Blond, a rainha da Acadêmicos.

Era de origem pobre e tinha sonhos. Queria se dar bem na vida e major Freitas sabia disso e enchia a cabeça da menina com esses sonhos. Depois de muitos beijos ele tentou levá-la para um motel e Sophia recusou dizendo que era virgem. O major contou até três e sorrindo falou “tudo bem”. Sophia então disse que era passista de uma boate na zona Sul que fazia shows para gringos e falou pro major ir ao local na semana seguinte.
    
Contrariado, mas disfarçando essa contrariedade Freitas pegou um cartão com o endereço e falou que não via a hora de ver a moça de novo. Sophia então deu mais um beijo no major e disse que o esperava lá depois levantando e deixando Freitas sozinho.

Eu ria e mostrava pra Rogério que o major tinha se fudido, mas o cantor não tirava os olhos da porta bandeira. Pensei comigo mesmo que aquilo daria merda e perguntei pra Rogério o que ele estava pensando. O cantor virou pra mim e contou que não conseguia parar de olhar Kátia e precisava ter aquela mulher. Perguntei se ele estava maluco e que o cara era líder de grupo de extermínio.

Mas Rogério parecia não se importar com o que eu falava e reforçava que aquela mulher seria sua e o pior foi que nesse momento reparei que a porta bandeira também o olhava as vezes.

Aquilo tinha cheiro de grande cagada.

O ensaio acabou e no fim Rogério cumprimentou a todos e deu um abraço afetuoso em Kátia. Um abraço que me deixou embaraçado e doido que terminasse. Nos despedimos e fui embora de carona com ele.

Paramos em um posto de gasolina pra reabastecer e quando o frentista chegou no vidro disse constrangido “oi Rogério”, Rogério se espantou quando viu o frentista e respondeu “Oi Hugo” e completou falando “enche o tanque pra mim”.

Perguntei qual era a da situação e ele não me respondeu. O frentista encheu o tanque e quando voltou na janela Rogério sem olhar para ele disse “lave o vidro da frente”. Hugo parou por um instante, abaixou a cabeça e lavou. No fim Rogério pagou e fomos embora.

Na esquina seguinte Rogério parou o carro tremendo, emocionado e perguntei o que estava acontecendo e ele resolveu me contar toda a história.

Ele e Hugo eram amigos na adolescência, Rogério trabalhava como boy e Hugo em um lava jato. Rogério conheceu e se apaixonou por uma menina chamada Cecília, o primeiro amor de sua vida.

Começaram a namorar, noivaram, mas Cecília reclamava que Rogério não tinha ambição e não crescia na vida e dava o exemplo de Hugo que já trabalhava em um escritório e vivia para o trabalho enquanto ele só queria saber de samba.

Um dia Cecília resolveu largar Rogério e poucos dias depois já namorava Hugo. Rogério encontrou os dois felizes numa fila de cinema e pediu explicações. Cecília então pediu desculpas e falou que não podia pensar em um futuro com um boy que só pensava em samba.

Hugo abraçado com Cecília falou que samba não dava camisa pra ninguém e Rogério devia pensar em ter uma profissão, ser alguém e não perder mais namoradas dessa forma.

Rogério com lágrimas nos olhos virou para os dois e vociferou que um dia Hugo ainda lavaria o seu carro do ano e foi embora.

E a previsão ocorreu naquela noite.

Rogério contou a história e começou a chorar e eu lá ao seu lado sem saber o que fazer entendi aquela reação lembrando-me de toda dificuldade que tive na vida. Passei a mão em sem ombro e falei que ele havia vencido.

Rogério olhou pra mim ainda com lágrimas nos olhos, riu e concordou. Ligou o carro acelerando com toda felicidade.

No dia seguinte acordei com uma bomba. O barracão da Soberana de Bangu havia pegado fogo. Corri para o barracão e lá encontrei Pittinha que foi em solidariedade, não só ele como integrantes de todas as escolas de samba estavam no barracão.

Porque se tem uma coisa que marcam as escolas de samba é a solidariedade, elas são rivais apenas na Sapucaí e durante todos os anos os sambistas de uma escola frequentam a outra, se confraternizam e num momento como esse todas se ajudam.

E estavam lá antes mesmo dos bombeiros tentando apagar o fogo. E estavam lá também depois tentando confortar os integrantes da Soberana. Florentino estava desconsolado ao perder boa parte do seu carnaval faltando apenas algumas semanas para o desfile. Mas Pittinha e os outros presidentes prometeram ajudar a escola e mandaram funcionários de seus barracões para ajudar na reconstrução da Soberana.

E Pittinha resolveu fazer um ensaio no sábado seguinte em homenagem a escola e todo dinheiro do ensaio seria revertido pra ela.

No sábado seguinte a comitiva da Soberana de Bangu, inclusive Rogério Guanabara estava na Acadêmicos da Guanabara. Pittinha fez um discurso lembrando-se da ligação do seu pai com a agremiação e todos na quadra lotada ouviam atentamente.

Mas eu estava atento era a outra coisa.

Reparei que Samantha e Andréia não paravam de se olhar e estranhei. Depois todos desceram do palco onde ouviam o discurso e vi que as duas foram para uma sala reservada na quadra. Disfarcei e entrei atrás.

Quando abri a porta encontrei Samantha e Andréia se beijando. O Pittinha virou corno pra própria irmã!! Quando olhei ri e as mulheres pediram pelo amor de Deus pra eu não contar nada pro bicheiro. Dei um sorriso malicioso e falei que só tinha um jeito pra eu não contar.

Me dei bem né? Comi as duas!! Nada..as mulheres me colocaram pra fora da sala a bolsadas e falaram que se eu contasse fariam pior.

E como vocês já sabem sou um cagão juramentado e não queria ficar mal com elas nem com Pittinha, então evidente fiquei quieto.  

Saí e no meio da quadra reparei que Kátia e Rogério não se desgrudavam. Capitão Miranda foi preso durante a semana por sua ligação com grupos de extermínio e assim o caminho estava livre para Rogério. Reparei quando trocaram um beijo perto do banheiro, com a prisão tudo ficava mais fácil e poderiam viver sua história de amor.

E também notei clima de romance entre Sophia e major Freitas.

O major como prometera foi ao show durante a semana, foi junto com um amigo e apontou para Sophia enquanto ela sambava mostrando ao amigo quem era ela. Depois a moça sentou com eles à mesa e major apresentou o amigo como um empresário do entretenimento que tinha uma proposta pra lhe fazer.

O tal empresário falou que tinha casa de espetáculo de samba na Espanha e que Sophia se daria muito bem lá. Perguntou se não era interesse da menina morar na Europa, ganhar em euros e assim ajudar os familiares.

Sophia que tinha o sonho de dar uma vida melhor para sua família se entusiasmou e major Freitas falou que seria uma ótima para ela. Ele ficaria responsável por todos os documentos para a moça viajar, tiraria passaporte com ela e levaria no aeroporto. Sophia abraçou o major e disse que não sabia o que fazer sem ele.      

Nesse momento enquanto abraçava Sophia major reparou em um travesti que se apresentava e olhou fixamente. Quando o show do travesti acabou ele alegou que precisava ir ao banheiro e pegou o telefone do traveco.

Começava ali mais um caso do major.

A viagem de Sophia seria logo depois do carnaval e assim o tempo foi passando. A Soberana de Bangu com raça e ajuda das outras escolas se reconstruiu. Eu me animei já que seria meu primeiro carnaval na Sapucaí e sairia como diretor na Acadêmicos da Guanabara e tocando tamborim na bateria da Soberana.

E o caso entre Rogério e Kátia seguia a todo o vapor com o capitão preso.

Chegou o dia dos desfiles. O dia de emoção para muita gente. Milhares de pessoas de todas as agremiações desde a mais poderosa do Rio de Janeiro a mais humilde do país sonhavam com esse dia. Pessoas que ralaram o ano inteiro fazendo carros, costurando fantasias, dando seu suor e suas lágrimas por alguns minutos de emoção.

Naquele instante na avenida todos viravam artistas, tudo virava um sonho. Todas as dores da vida eram esquecidas, as tristezas iam embora junto com o suor de felicidade. O sonho de ver sua escola de samba ganhar o carnaval.
E na quarta-feira de cinzas quando a vida voltava ao normal as fantasias iam para os armários ou viravam cortinas de barracos orgulhosos.

E naquele dia enquanto milhares desciam os morros para desfilar eu ainda ia até a costureira ajeitar minha fantasia da Soberana que tinha ficado grande. Problema ajeitado fui correndo com o saco preto que guardava a roupa pra casa.

Com a noite na cidade a Marquês de Sapucaí se encheu para acompanhar os desfiles e a Acadêmicos da Guanabara veio primeiro. Um desfile impecável, técnico, com muitas celebridades e pinta de campeã. No fim Samantha e Andréia se abraçaram e deram um beijo apaixonado enquanto desviei o olhar de Pittinha o abraçando e dando parabéns pelo campeonato e assim ele não ver a cena.

Depois fui para a concentração da Soberana de Bangu. Devido as dificuldades a escola não estava tão bonita quanto a Acadêmicos, mas as pessoas pareciam incorporadas, vinha coisa muito boa ali.

A Soberana fez um desfile de soberana mesmo. A maior campeã do carnaval carioca pisou na avenida como há muitos anos não fazia. Seus carros não eram grandiosos, suas fantasias mais simples, mas a escola tinha coração, tinha alma.

Seus desfilantes pareciam numa guerra, mas uma guerra onde o importante era ser feliz. Não cantavam o samba, berravam. Chão perfeito da agremiação. Bateria dando show, casal de mestre-sala e porta bandeira dançando divinamente, a comissão de frente como nos tempos antigos representada pela velha guarda e Rogério Guanabara cantando o lindo samba-enredo com maestria.

A campeã havia retornado depois de tantos anos adormecida. O público da Sapucaí emocionado cantava junto o samba-enredo e eu arrepiado tocava meu tamborim.

Na parte final do desfile notei uma figura inesperada pela lateral do desfile e com crachá de livre acesso a pista. Era o capitão Miranda, eu não sabia, mas ele havia saído com habeas corpus e sua cara era de poucos amigos.

Me preocupei vendo sua presença e logo lembrei de Rogério e Kátia. O desfile se encerrou e corri atrás do casal perguntando a todos se tinham visto os dois.
Rogério e Kátia já andavam felizes do lado de fora da Sapucaí com a certeza que a escola seria campeã. Abraçados andavam cantando o samba da Soberana quando foram surpreendidos pelo capitão.

Não deu tempo nem deles falarem nada. Miranda puxou o revolver e acertou um tiro no coração de Rogério. Rogério Guanabara caiu ali morto, o vermelho de seu sangue se misturava ao azul de sua camisa.

Miranda ficou ali impassível olhando a cena e eu cheguei e vi Rogério morto no chão. Kátia chorava ajoelhada e uma multidão chegou ao local assustada com o tiro e ao ver o que ocorria um rapaz carregando um surdo começou a bater nele. A polícia chegou e levou capitão Miranda preso em flagrante.

O carnaval assim perdia a graça naquele ano. Rogério virou um mártir do carnaval carioca e ganhou prêmio de melhor cantor do ano e no dia da apuração enlutada a dúvida era qual escola seria a campeã daquele triste carnaval.

No momento da apuração Sophia se despedia de major Freitas que com um beijo lhe desejava boa viagem. Ela então emocionada abraçou seus familiares que foram ao aeroporto acompanhar a partida e prometeu dar notícias em breve e tirar a família da pobreza.

O empresário falou pra Sophia que estava na hora e a menina com lágrimas nos olhos respondeu que tudo bem. Major abraçou o amigo e em seu ouvido falou para que ele não se esquecesse de sua parte. O empresário sorriu e falou que sempre cumpria o combinado com Freitas e que ele ficasse tranquilo.

Assim Sophia embarcou com o homem pra Espanha.

Embarcou para ser escrava sexual no país. Como muitas outras que viajam achando que encontrarão um mundo melhor e na Europa são trancafiadas em boates com uma dívida apresentada, passaporte apreendido e obrigadas a se prostituir pra pagar a tal dívida que nunca será paga.

Sophia conheceria o inferno e o Rio de Janeiro conheceu sua nova campeã do carnaval, ou melhor, suas duas novas. Em uma apuração emocionante disputada a cada décimo a Acadêmicos da Guanabara e a Soberana de Bangu empataram então a Liga das escolas de samba declarou as duas campeãs. 

A Acadêmicos mantinha sua hegemonia ganhando mais uma vez e a Soberana depois de tantos anos finalmente voltava a ganhar um título.

Mas não havia clima de alegria naquelas vitórias.

No sábado das campeãs as duas escolas desfilaram juntas. Pittinha e Florentino vieram na frente e atrás todos os componentes das duas agremiações com suas fantasias desfilavam andando apenas com o som de um surdo, mais nada. Um surdo e uma faixa que dizia..

Obrigado por tudo Rogério Guanabara.



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