terça-feira, 4 de abril de 2017

AMAR DE NOVO: CAPÍTULO IV - O ACIDENTE


Fiquei totalmente "fora do ar", sem saber o que fazer. Só conseguia repetir "tenho que ir ao hospital". Não suportaria uma nova tragédia, não suportaria outra perda de tal tamanho. E de um filho? Não! Não pode! Ta errado! Filhos não podem morrer antes dos pais, não é das leis de Deus. Aliás, começava a duvidar que Deus gostasse realmente de mim.

Luana pegou meu braço e mandou que fôssemos logo. Saímos do restaurante e o empresário afetado estava do lado de fora com seguranças. O homem não queria deixar que Luana fosse, que tinha muitos fotógrafos esperando um furo dela e a cantora respondeu "Foda-se os fotógrafos" me colocando em seu carro e saindo em disparada.

Me perguntou em que hospital estava e enquanto dirigia e saía em disparada com os segurança atrás desesperados tentando acompanhar eu olhei para o céu e esbocei um sorriso. Respirei fundo e falei "Não tem borboletas".

A cantora nada entendeu e me perguntou do que eu falava, só respondi "Não tem borboletas". A mulher olhando pra frente e guiando disse "Oxe que endoidou de vez".

Chegamos no hospital e desci correndo enquanto Luana desceu e foi cercada por fãs que queriam autógrafos e fotos. Cheguei na recepção desesperado perguntando por meu filho e Francisco pegou meu braço dizendo "calma tio". Respondi que não tinha como ter calma e Bia me abraçou dizendo "Deixa na mão de Deus".

Meu filho estava sendo operado. Eu não conseguia me acalmar, andava de um lado pro outro e não conseguia pensar em outra coisa senão em Camila, pedindo que ela protegesse nosso filho. Gabriel era muito novo ainda, cheio de vida e não merecia passar por aquilo. Rezei para meu amor pedindo por nosso menino.

Depois de um tempo o médico foi até a recepção e "gelei". Fui ao seu encontro e perguntei como estava meu menino. O médico respondeu que a operação havia sido bem difícil, Gabriel perdera muito sangue, mas tinha sido bem sucedida e naquele instante cabia esperar.

Sentei desgastado, devastado e o homem pra me tranquilizar comentou "O pior já passou, cabe a nós esperar. O menino é forte". Samuel chamou o médico em um canto para conversar enquanto Bia sentou-se ao meu lado dizendo que precisávamos conversar.

Perguntei qual era o problema, mais aquele problema e minha amiga respondeu "O acidente teve consequências. Ninguém no carro de Gabriel ficou gravemente ferido, mas tinha o outro carro". Eu estava tão impactado e devastado com a situação de Gabriel que me esqueci que tinha outras pessoas envolvidas. Perguntei o que acontecera e ela respondeu "Já ouviu falar da Irmã Maria de Jesus?”

Respondi que sim, claro. Irmã Maria de Jesus era uma conhecida freira, grande batalhadora nas causas dos mais pobres e que estava cotada até ao prêmio Nobel da Paz.

Cheia de dedos Bia continuou "Pois é. Ela estava de carona no outro carro com a presidente de uma ONG. Ela ficou muito ferida". Botei a mão no rosto espantado e ela continuou "A freira morreu".

Abaixei a cabeça colocando em meu colo não acreditando naquela situação. Apenas consegui exclamar um "Meu Deus!!". Bia continuou dizendo que a situação era muito séria e Gabriel precisaria de um advogado. Respondi que naquele momento meu filho precisava viver e Bia completou "Ele vai viver".

Sabia que as consequências poderiam ser terríveis, mas não queria pensar naquilo no momento. Não queria e nem podia. A vida de meu filho estava em jogo. Fiquei sentado por um bom tempo no sofá olhando para o nada, apenas pedindo que Camila protegesse nosso garoto e quando autorizado fui até meu filho.

Entrei e ele estava dormindo sedado. Peguei em sua mão e chorando pedi que ele fosse forte, pois precisava muito dele. Passei a noite toda velando seu sono.

Na manhã seguinte saí um pouco do local e fui a cantina tentar tomar um café. Nada descia por minha garganta e me preparava para voltar quando minha mãe entrou mandando que eu sentasse. Apesar da gravidade da situação eu ri, ainda mais quando minha mãe completou com "Sou sua mãe, me obedeça".

Sentei e dona Hellen pediu um pão na chapa e um copo duplo de café com leite para mim. Respondi que estava sem fome e ela revidou "Já disse, sou sua mãe, só vai levantar daí depois que comer".

Tomei o café e no fim dona Hellen mandou "agora você vai pra casa". Ri e ela continuou "eu vou ficar. Você está morto de cansaço, só ver seu rosto. Vá pra casa e tente descansar". Respondi que não conseguiria, preferia ficar e ela emendou "É uma ordem".

É..Não podia desobedecer minha mãe...

Saí do hospital e uma multidão de fotógrafos e jornalistas esperavam e queriam falar com o "pai do assassino da Irmã Maria de Jesus". Fiquei perdido, não sabia como agir quando dois homens de terno, gravata e óculos escuros me cercaram e mandaram que eu acompanhasse. Não sabia quem eram, mas acompanhei os homens até uma limousine.

Entrei no carro e lá estava o empresário de Luana com o poodle na mão dizendo "A diva quer que vá para a casa dela".

Fui até o mega apartamento no Leblon e entrei. Luana me esperava com um sorriso, me fez um carinho e disse "Venha. Seu quarto está pronto". Perguntei que história era aquela de quarto e ela respondeu "Não ia deixar você ficar sozinho hoje. Precisa que alguém cuide de você. Eu vou cuidar".

Luana me tratou com muito carinho. Deitei e não conseguia dormir olhando pro teto e não conseguindo parar de pensar em Gabriel até que o sono me venceu. Acho que a cantora colocou algo no suco que me ofereceu porque apaguei.

Apaguei e parei no Arpoador. Olhava o mar quando senti uma mão em meu ombro. Olhei e era Camila.

Levantei e desesperado falei de Gabriel. Falei do acidente e pedi que ela não deixasse que ocorresse nada com nosso menino. Camila sorriu e me falou para me tranquilizar. Que ficaria tudo bem.

Continuei olhando para ela que passou a mão em meu rosto e completou "Essa foi a melhor coisa que poderia ter ocorrido a ele".

Acordei assustado com Luana sentada na beira da cama. A mulher sorriu e perguntou se eu estava bem. Respondi que sim, estava sonhando. Ela comentou "Espero que comigo" e me mostrou uma bandeja com frutas, bolo, pães e suco. Perguntei se tinha algo no suco e ela rindo respondeu "Dessa vez não".

Luana mandou que eu comesse e respondi que não estava com fome, precisava saber de Gabriel. Olhei um pouco a bandeja, sorri e respondi "To com fome sim" e comecei a comer com a mulher dizendo que me acalmasse que Nossa Senhora não abandonaria o menino. Comentei, lembrando do sonho, que ele estava sim amparado e levando copo a boca completei "Além do mais não apareceu borboleta".

A musa do axé ria e respondeu que ainda não tinha entendido a história da borboleta quando meu telefone tocou. Era minha mãe.

Corri para atender e nem dei oi, logo perguntando como estava meu filho. Ao ouvir a resposta abri um sorriso, falei que estava indo pra lá e desliguei. Falei com Luana que ele tinha acordado.

Luana exclamou "Com a benção de Nossa Senhora!!" e me tascou um beijo na boca. Não esperava aquela reação, dei um sorriso tímido e disse "Depois vamos conversar sobre isso".

Saí do apartamento levado por seguranças, com a imprensa em cima e mentalmente agradecia a Camila por tudo.

Cheguei no hospital correndo perguntando por Gabriel e dona Hellen mandou que me acalmasse e fosse até o quarto. Entrei e vi meu filho deitado na cama acordado. Ao me ver Gabriel abriu um sorriso e o abracei apertado e chorando. Gabriel tentava me acalmar dizendo que assim eu que lhe mataria. Guga assistia a tudo em pé em um canto do quarto.

Pedi desculpas e perguntei como ele estava. Gabriel respondeu que bem, só estava meio zonzo. Guga comentou que era efeito da medicação e só ali percebi a presença de meu amigo. Cumprimentei Guga que sério respondeu "Vamos lá fora, deixar Gabriel descansar um pouco".

Percebi que tinha encrenca e aceitei.

Saí com meu amigo e fomos até a cantina. Pedimos um café e enquanto bebíamos e eu exalava felicidade meu amigo comentou "Sei que você está feliz, eu também estou, mas agora temos que acordar pra realidade. Temos um sério problema."

Parei de beber o café, olhei Guga e respondi "Eu sei". Meu amigo continuou "Imagino que desde o ocorrido você ficou fora de órbita, sem saber de tudo que ocorria. Pois bem. A repercussão da morte da freira está grande demais, muito negativa em relação ao Gabriel, ainda mais porque ele bebeu".

Perguntei o que ocorreria e ele disse "To aqui como amigo e principalmente como advogado porque ele vai precisar. A imprensa ta toda em cima, a opinião pública chocada com a morte de uma pessoa quase santa e nossa candidata a prêmio Nobel da Paz”.

Continuou "Ele não está ferrado ainda. Vão, com certeza, tentar indiciá-lo por homicídio doloso, com intenção de matar, pois ele bebeu antes de guiar e a legislação hoje é severa." Pus as mãos na cabeça vendo que saía de um drama para entrar em outro quando Guga disse "A sorte que Ericka conseguiu acordar do desmaio, ligar para você e tentar ajudar as pessoas do outro carro. Ligou para o hospital. Tentou atendimento. É um atenuante. Vamos tentar jogar pra culposo e alegar inocência. Que foi um acidente".

Perguntei quais eram as chances de Gabriel e Guga respondeu que ele estava vivo, essa era a maior das chances. Pediu que deixasse que ele cuidasse de tudo e eu amparasse meu filho naquele momento.

Foi o que eu fiz. Logo depois voltei ao quarto e Gabriel estava dormindo. Sentei em uma poltrona próxima olhando meu belo menino de cabelos revoltos e imaginando o drama que viria pela frente. Mas agradecendo a felicidade dele estar vivo.

E agradecendo a Camila.

Na manhã seguinte acordei enquanto meu menino ainda dormia e fui tomar café na cantina. A tv estava ligada e o noticiário mostrou o acidente que vitimou a Freira Maria de Jesus e o rosto de meu filho como o assassino. Comprei o jornal e o principal nome dele no dia era eu!! Não só nele como em todos!!

Tomei um susto porque nunca fui notícia em nada. Mas estavam lá minhas fotos e os motivos. Eu era o pai do assassino da santinha e o affair de Luana Spencer. Sim, os fotógrafos me pegaram entrando e saindo de seu apartamento.

No programa da tarde ao mesmo tempo em que anunciavam filmadoras em promoção falavam de mim desnudando minha vida para ver quem era o escolhido da rainha do axé.

Devem ter me achado sem graça porque não tem nada mais sem graça que o homem comum.

Gabriel se recuperava aos poucos e em poucas semanas recebeu alta. Tivemos que fazer uma "operação de guerra" para tirá-lo do hospital a salvo da imprensa. Eu também estava com problemas com os jornalistas. Eles me cercavam devido o caso de meu filho e principalmente para saber se eu era o novo "namoradinho" da estrela.

Nem tive contato com Luana depois do episódio. A estrela saiu em turnê pela América Latina e por um lado até foi bom pra mim. Não aumentava o burburinho que já estava imenso. Podia, junto com Guga, me dedicar ao caso de meu filho. A situação não era fácil. A polícia queria fazer serviço, mostrar força perante a população e prometia investigar com rigor o atropelamento. A opinião pública clamava pelo indiciamento por homicídio doloso.

Luana Spencer voltou de viagem e me mandou flores. Recebi na gravadora com Jessé, que estagiava no local, comentando "Ela ta afinzona de você". Eu ri e respondi que era impressão dele que devolveu 'Tio, às vezes parece que você que é o garoto".

Será? Uma vez disseram que eu tinha síndrome de Peter Pan, seria eternamente um garoto. Não sei. Difícil avaliarmos a nós mesmos.

De noite estava sozinho em casa ouvindo música quando a campainha tocou. Atendi e Luana apareceu. Sim, Luana Spencer, apenas de roupão e com uma garrafa de champanhe na mão.

Sorri enquanto ela disse "Isso aqui é para bebermos agora. Tirando o laço tem a sobremesa".

Entrou, me deu o champanhe, abri e coloquei em duas taças. Ela ouviu a música e me convidou para dançar. Começamos a dançar e um clima foi criado. Luana chegou em meu ouvido e comentou baixinho "Essa é a hora do beijo". Naquele momento começou a tocar outra música.

Começou a tocar Raspberries.

Imediatamente parei de dançar e a cantora estranhou perguntando se algo ocorrera. Fiquei em silêncio quando ela perguntou "A música né? Li seu livro".

Olhei para Luana e pedi desculpas. Ela sorriu e perguntou "Você sabe quantos homens nesse país gostariam de estar no seu lugar?". Respondi que provavelmente todos e ela completou "Todos menos você".

Desliguei o som, mais uma vez pedi desculpas e ela disse "Não tem porque se desculpar. O que eu mais gostei em você foi esse olhar de menino que não cresceu, mesmo com todas as perdas que teve na vida, mesmo virando um homem poderoso você não perdeu o olhar de menino carente e pidão".

Deu um beijo em minha testa, disse "Não perca nunca esse olhar de menino pidão" e foi embora. Nunca tive nada com Luana. Ela continuou como uma das estrelas de nossa gravadora, mas a relação nunca foi além da profissional.

Talvez tenha perdido uma grande oportunidade. Talvez não. Nunca saberemos.

Tinha coisas mais sérias para me preocupar que romances. Gabriel, por exemplo. Como Guga disse na hora do acidente e realmente tentaram indiciá-lo por homicídio doloso, mas meu amigo o que tinha de playboy beberrão e boêmio tinha de brilhante advogado, Agiu e conseguiu que o indiciamento fosse por homicídio culposo.

A data do julgamento se aproximava e eu tentava apoiar meu filho dizendo que tudo daria certo. Mas Gabriel estava diferente. Mais sério, mais compenetrado. Vestiu um luto por tudo o que ocorreu. Se culpava pela morte que causou.

Não devia ser fácil mesmo conviver com um peso daqueles. Gabriel repetia que merecia ser condenado enquanto eu discordava. Ele tinha uma vida inteira para frente e não tinha culpa pelo acidente. Sempre que meu filho dizia isso Guga se enfurecia e respondia "Nem ouse falar isso no tribunal que você fode meu trabalho". Mais uma vez Gabriel respondia que merecia ser condenado e meu amigo respondia "Quem sabe é a justiça e eu vou ajudá-la a decidir".

O julgamento se iniciou e foi o principal assunto no país. Uma multidão se juntou à frente do tribunal pedindo justiça a freira e a condenação de meu filho. Cheguei ao tribunal e fui vaiado. Jogaram ovos em mim, mas não me acertaram. Me senti como o Guilherme de Pádua ou Alexandre Nardoni.

Do lado de dentro a audiência se iniciou e foi tensa. A acusação tentando provar a culpa de meu filho. Guga, brilhantemente, lhe defendia e eu da plateia pedia que Camila protegesse nosso filho. Gabriel assistia a tudo calado e olhando para o chão.

Testemunhas de acusação, defesa, debates, o julgamento se arrastou pela madrugada, foi interrompido e voltou de manhã para as considerações finais dos advogados. Após o fato o juiz interrompeu a sessão e disse que voltaria com a sentença.

Do lado de fora perguntei a Guga o que ele achava e meu amigo respondeu “O garoto é bom. Menino estudioso, bom caráter que cometeu uma grande cagada. Deve ser condenado, mas vai sair no lucro”.

Algum tempo depois todos foram chamados. A sentença seria lida.

Do lado de dentro o juiz mandou que todos ficassem de pé e leu a sentença. Gabriel foi condenado a um ano e sete meses de prisão.

Mas como era réu primário, de bons antecedentes, iria cumprir em liberdade e prestaria serviços comunitários.

Esbocei que iríamos recorrer e Guga respondeu “Não vamos, está bom demais”.

Saímos. Guga, eu e Gabriel. A imprensa toda nos esperava e a multidão, enfurecida, pedia justiça. Os repórteres pediam declarações enquanto ignorávamos. Até que Gabriel parou e disse que queria falar. Guga pediu que meu filho não fizesse isso, mas ele insistiu “quero falar”.

Reuniu a imprensa para uma coletiva e falou:

“Entendo todos vocês que pedem justiça. Eu também sempre quero justiça. Foi isso que aprendi desde cedo com meu pai e meu tio. Vocês acham que minha pena foi pequena e talvez tenha sido pequena mesmo. Mas não imaginam o quão grande a pena é aqui (apontou para a cabeça). Não sou bandido, nunca fui, nunca briguei na rua e nem mesmo sei segurar uma arma. Mas um dia segurei uma arma sim. Um volante depois de beber dois copos de chopp me achando o ás do volante e nunca aconteceria comigo, só com os outros. Mas um dia nós podemos ser os outros. Cometi uma grande besteira. A vida de um ser humano maravilhoso foi perdida graças a minha besteira e podem ter certeza que se na justiça dos homens minha pena foi pequena na minha consciência ela é perpétua. Não me queiram mal. Até porque ninguém hoje me culpa tanto quanto eu”.

Gabriel falou e entramos no carro.

Olhei meu menino que não parava de olhar para a janela e senti pena dele. Tristeza. Mas também senti orgulho. Reconhecer o erro é o grande passo para acertos futuros. Para um novo futuro.

E o dele só estava começando.

A sua história só estava começando.


CAPÍTULO ANTERIOR:

QUARENTA ANOS 

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