sábado, 3 de outubro de 2015

DINASTIA: CAPÍTULO IV - HOSPEDARIA




Salvatore, com outros imigrantes, foi levado até a “Hospedaria do Imigrante” em São Paulo. Construída em 1882, no bairro do Bom Retiro, foi demolida e reconstruída na Mooca devido a grande demanda de imigrantes que chegavam.

Assim que chegou à hospedaria Salvatore recebeu impresso em italiano o regulamento do local. O regulamento era impresso em seis idiomas e lá recebiam alimentação nos refeitórios e camas em dormitórios, com divisões entre famílias e solteiros.

Salvatore viu aquela quantidade enorme de estrangeiros na hospedaria e teve esperança de encontrar sua família. Percorreu por todo lugar e nada até que desistiu e foi deitar.

Deitou, mas não conseguiu dormir. Virava de um lado para outro na cama pensando em Morgana, em sua família e na Itália. Estava sozinho naquela terra estranha e no meio de tantas tragédias não aguentou e chorou.

Um choro quase silencioso, esmagado em seu peito, aflito. A vontade de Salvatore era explodir, gritar, mas se conteve apenas apertando seu boné contra o peito e chorando.   

Do nada aparece um rosto no beliche cima. De um rapaz. Ele pergunta se está tudo bem e timidamente Salvatore responde que sim.

O rapaz sorri e diz que isso é bom porque eles têm um país pra conquistar, da boa noite e se deita.

Salvatore pensa na frase que o rapaz disse “um país pra conquistar”. Ele só queria reconquistar a alegria.

Salvatore não consegue dormir e quando a mulher ruiva que o levou até a hospedaria, dona Gioconda, se levanta e vai até a cozinha encontra o rapaz varrendo.

A mulher se espanta com o rapaz tão cedo já pegando no batente e Salvatore responde que nunca fugiu de trabalho e queria justificar sua estadia. Gioconda se diz feliz e manda o rapaz ir ao refeitório que logo serviria o café.

Salvatore encosta a vassoura e pergunta onde ficam os italianos do local além da hospedaria, precisava achar seus pais. Gioconda conta os lugares que os imigrantes frequenta, mas diz para o menino não ter muitas esperanças porque muitos já foram para outros bairros da cidade e o interior trabalhar.

O rapaz diz que perdeu tudo e a única coisa que lhe restou foi a esperança. Gioconda coloca a mão em seu ombro e pede que ele vá ao refeitório tomar o café.

Salvatore sentou e tomou seu café. Não era nenhuma iguaria dos Deuses, mas era a melhor refeição que fazia em muito tempo. Enquanto comia uma pessoa sentou ao seu lado. Era o rapaz da noite anterior.

O rapaz, muito falante, se apresentou como Manolo e pediu que Salvatore passasse o pão. O rapaz foi logo contando que era da Espanha, chegara há algumas semanas e enriqueceria no Brasil.   

Manolo falava demais, não deixava Salvatore falar, nem raciocinar.

Uma hora Salvatore pegou um pedaço enorme de pão e pediu que Manolo abrisse a boca, o espanhol abriu e o italiano colocou o pão e mandou que mastigasse.

Enquanto Manolo tentava mastigar Salvatore disse que finalmente conseguia respirar e perguntou se todos os espanhóis eram assim e depois os italianos é que eram acusados de falar demais.

Manolo engoliu e disse que adorava falar, adorava viver e que a vida era maravilhosa. Salvatore deu um gole no café contando que a vida não estava sendo maravilhosa com ele e o espanhol retrucou que ele resmungava demais.

Salvatore contou que sua noiva e irmã morreram na viagem e tinha se perdido da família no desembarque. Nesse instante Manolo levanta da mesa, estende a mão e fala “vamos”.

Salvatore sem nada entender pergunta para onde e Manolo responde “achar seus pais”.

O italiano olha por um tempo o espanhol que estende a mão de novo e diz “Que há carcamano? Tem medo de que?”. Salvatore levanta e diz que tem medo de nada e o espanhol completa “então vamos achar sua família e conquistar o país”.

Salvatore foi até Gioconda e pediu permissão para sair com Manolo e procurar sua família prometendo trabalhar na hospedaria até a noite e a mulher concordou. Dessa forma os dois novos amigos saíram pela cidade.  

O italiano não estava acostumado com uma cidade tão populosa e grande. São Paulo da virada do século era a síntese do desenvolvimento urbano.

Salvatore se deparava com ruas pavimentadas, energia elétrica que começava a chegar e linhas de bondes. Vendedores ambulantes se digladiavam tentando vender seus produtos e Manolo ensinava ao novo amigo que caso ele se perdesse tinha que dizer que estava hospedado na Mooca. Salvatore perguntou se havia risco de se perder e Manolo respondeu que se ele conseguiu se perder na descida de um navio imagine numa cidade grande como aquela.

Manolo se transformou em um verdadeiro guia de Salvatore. Contou que muito da riqueza daquela cidade vinha dos imigrantes como eles. Os olhos de Salvatore brilharam e o italiano perguntou se era verdade mesmo que os imigrantes enriqueciam no Brasil.

Manolo e Salvatore pegaram um bonde e o espanhol com mais experiência na cidade respondeu que sim. São Paulo era a terra das oportunidades e os primeiros imigrantes fizeram fortuna com comércio e indústria. Salvatore estranhou ao ver algumas pessoas com peles mais escuras e perguntou quem era, Manolo respondeu que eram os negros.  

Não existiam negros em sua terra e Salvatore curioso perguntou mais sobre eles.

Manolo explicou que eles estavam lá para substituir esses negros que trabalharam como escravos até pouco tempo antes. Eles fariam o serviço que era dos negros com a diferença que seriam remunerados. Salvatore perguntou porque esses negros eram escravos e Manolo respondeu “porque são negros, isso bastava”.

Manolo perguntou se Salvatore queria conhecer melhor os negros e o italiano respondeu que sim. Pegaram um bonde e andaram um pouco até chegar a Santa Efigênia e seus cortiços. Lá Salvatore viu pessoas pobres, muitas vezes vestidas com trapos, bebês chorando e mães dando água misturada com farinha pra aplacar a fome e crianças brincando.

Na porta de uma das casas tinha um homem negro já com idade avançada. O homem fumava um cachimbo e abriu um largo sorriso ao ver os dois imigrantes. Levantou e disse “Manolo, meu amigo”.

Os dois se abraçaram e Manolo num “portunhol” apresentou Salvatore ao homem negro. O homem cumprimentou o italiano e perguntou se ele era espanhol também. Manolo riu e respondeu que não, esse era carcamano. O negro sorrindo mandou que os imigrantes entrassem.

A casa era humilde, mas ainda era uma das melhores do local. O homem se apresentou como Tião e Manolo contou que Salvatore nunca vira um negro na vida. Tião contou que não só ali em São Paulo, mas pelo Brasil havia muitos, irmãos dele que como ele sofreram na mão dos brancos, um sofrimento que vinha desde seus ancestrais africanos.

Tião contou que era um ex-escravo e mostrou as costas a Salvatore. O italiano traduzido por Manolo perguntou o que eram aquelas marcas e o negro rindo contou que eram marcas do chicote, castigo que os donos do café davam. Salvatore se espantou e contou que viera ao Brasil para trabalhar no café e não queria apanhar.

Tião riu e mandou que o italiano não se preocupasse, pois, era branco como um bebê igual aos donos das terras e estava ali para ganhar dinheiro, não para ser escravo.

Manolo disse que Salvatore estava triste porque se perdera da família quando desceu do navio e Tião contou que nunca conhecera a mãe, foi arrancado de seus braços assim que nasceu. Salvatore comentou que aquilo devia ser muito triste e Tião retrucou “seu moço, o senhor não tem noção do que é tristeza”.

Logo após o negro dizer isso uma mulher apareceu convidando os dois para comerem. Era Jurema, esposa de Tião.

O casal serviu aos amigos um feijão com vários tipos de carne dentro que Salvatore nunca comera na vida e se deliciou. Tião serviu uma bebida contando que era típica de seu povo. Salvatore se animou e Tião contou que mostraria ao italiano como era a festa de seu povo.

Os três saíram da casa e andaram um pouco até encontrar vários negros. Alguns batucavam instrumentos que Salvatore nunca vira e outros faziam uma dança que as vezes parecia uma luta. Tião contou que se chamava capoeira.

Salvatore e Manolo se encantaram com aquela dança que parceria luta ou luta que parecia dança, não tinham certeza e o espanhol notou uma negrinha faceira que dançava e não tirava os olhos dele.

Manolo falou ao amigo que já voltava e sumiu com a negrinha. Salvatore nem se importou com o sumiço do amigo e por um tempo se esqueceu das tragédias que entraram em sua vida maravilhado com os negros e aquilo tudo que descobria. Chegou a pensar em quanto seu pai gostaria de ver aquilo e prometeu lhe mostrar um dia.

Depois de um tempo Manolo voltou e disse ao amigo que estava na hora de se despedirem. Deram um abraço em Tião que desejou boa sorte aos estrangeiros. Salvatore devolveu o desejo de boa tarde e Tião riu “sou negro seu moço, aqui não temos sorte”.

Os dois partiram e Manolo contou que queria mostrar outra coisa ao amigo. Salvatore curioso perguntou o que era e o espanhol respondeu que ele conheceria um pouco da cultura de sua terra. Decidiu levar o amigo ao Largo dos curros.

Largo dos curros é a atual Praça da República e lá na virada do século aconteciam touradas. Os amigos foram e Manolo se extasiava vendo o toureiro e seu balé. Salvatore pouco entendia o que ocorria, apenas que o bicho estava sofrendo e começou a torcer pelo touro.

Manolo ficou indignado e disse que Salvatore estava desrespeitando sua cultura torcendo pelo animal e que o certo era o toureiro sair vencedor. O italiano respondeu que não torceria contra o bicho, era crueldade e começou a gritar “vamos touro”.

Ninguém entendeu de princípio, mas aos poucos algumas vozes iam surgindo a favor do pobre animal e quando Manolo se deu conta a arena toda apoiava o touro. Os gritos de “vamos touro” ecoava por todo o lugar deixando não só Manolo desconcertado como o toureiro também.

No fim o touro não só venceu como deu uma chifrada no toureiro para delírio do público. Manolo saiu indignado da tourada dizendo que Salvatore humilhara a Espanha e o italiano só ria.

Voltaram a hospedaria e Salvatore notou que já era bem tarde, bem mais que prometera voltar e se desesperou imaginando que seria mandado embora por Gioconda. Entraram na hospedaria com o italiano logo pedindo desculpas para a mulher.

Salvatore alegou que perdera a hora, mas estava disposto a trabalhar a madrugada inteira para compensar. Serena Gioconda mandou que o rapaz fosse descansar porque estava precisando e que no dia seguinte ele fizesse o serviço. Salvatore mais uma vez pediu desculpas, agradeceu e se retirou.

Quando ele saiu Gioconda agradeceu a Manolo pela ajuda e o espanhol respondeu que ajudaria sempre que ela precisasse.

Manolo entrou no dormitório encontrando Salvatore já deitado. Subiu a escadinha quando o italiano comentou que se divertira muito naquele dia, como há muito tempo não se divertia, mas estava frustrado por não encontrar sua família.

Manolo colocou a cabeça para fora de sua cama e contou ao amigo que tinha uma boa e uma má notícia para lhe dar. Salvatore perguntou quais eram.

Manolo respondeu que a má notícia é que ele não encontraria sua família e provavelmente nunca mais os veria e eles não saíram naquele dia para encontrar os seus.

Salvatore então perguntou qual era a boa notícia.

O espanhol respondeu que era eles não terem saído para encontrar a família do italiano e sim para reencontrá-lo, reencontrar sua alegria e esperança e isso eles conseguiram encontrar.

Manolo deitou e Salvatore ficou alguns segundos pensando naqueles dizeres. Manolo colocou novamente a cabeça para fora e disse “esse país pode nos dar muito, é só sabermos aproveitar”.

E assim, depois de muito tempo Salvatore dormiu bem.

Os dias se passaram. Salvatore continuava trabalhando na hospedaria em troca de alimentação e cama e procurando sua família no tempo vago. Não conseguia nenhuma pista deles e a esperança de encontrá-los caía a cada dia.

Manolo pegava um bico aqui outro ali para conseguir sobreviver. Batalhava com agentes uma oportunidade de ir para o interior do estado trabalhar nas fazendas de café e continuava muito atraído pelas negrinhas.

E a amizade entre os dois fortalecia cada vez mais.

Chegou o último dia do ano, do século e Salvatore acordou cedo como todos os dias para limpar a hospedaria. Gioconda liberou o italiano do trabalho alegando que era dia de festa e o italiano perguntou se podia então ir para a rua procurar sua família.

Gioconda disse que sim e o italiano partiu.

Mais uma vez Salvatore revirou ruas atrás de seus familiares, o dia todo até que viu um homem caminhando. O rapaz teve a certeza de ser seu pai Benito Granata e saiu em disparada atrás. O homem pegou um bonde e Salvatore correu até que alcançasse o bonde e também conseguisse entrar.

Do lado de dentro foi pedindo licença para as pessoas até que tocou no ombro do homem e disse emocionado “papa”.

O homem se virou e não era Benito. Salvatore pediu desculpas e desolado desceu do bonde.

Voltou para a hospedaria e não estava em clima de festa. A noite chegou, todos brindavam celebrando os 1900 que surgiam enquanto Salvatore sentado do lado de fora observava a Lua que tanto gostava.

Manolo chegou com duas taças e uma garrafa de vinho sentando-se ao seu lado. Encheu o copo do amigo e disse que aquele século seria grandioso.

Salvatore com o copo cheio olhando a Lua respondeu que não sabia como e Manolo apontando para ela retrucou “Tudo será nosso nesse século, até a Lua”.

Salvatore riu e Manolo completou após beber e encher novamente seu copo “mas antes vamos começar por Ribeirão Preto”. Salvatore não entendeu o que o amigo quis dizer e o espanhol repetiu “Ribeirão Preto, nós vamos para lá”.

O italiano contou que nem sabia o que era Ribeirão Preto e o espanhol respondeu que era onde tinha uma grande fazenda de café que ele recebeu oferta de emprego e levaria o italiano com ele. Salvatore respondeu que não iria e Manolo retrucou que ele não tinha escolha.

Salvatore olhou por um tempo Manolo e o espanhol perguntou “Você quer ficar aqui lavando chão e procurando sua família pro resto da vida? Foi para isso que você veio ao Brasil?”.

Salvatore olhou mais um tempo e perguntou “Ribeirão Preto?”. Manolo olhando os olhos do amigo respondeu “Ribeirão Preto”. Salvatore sorriu e exclamou “Ribeirão Preto!!” oferecendo a mão ao amigo.

Manolo estendeu a sua, apertou a mão de Salvatore e também exclamou “Ribeirão Preto!!”.

Ribeirão Preto.  


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