sábado, 26 de setembro de 2015

DINASTIA - CAPÍTULO III - MIGRANDO PARA O BRASIL




No dia seguinte com as trouxas feitas a família partiu. Benito na frente da casa parou para olhar pra trás. Olhou a casa que foi criado. Que o pai um dia perdera no jogo para um falso amigo e desde então tiveram que morar de aluguel. O pai morreu alcoólatra de desgosto, o filho não queria o mesmo destino por isso decidira ir embora.  

Olhou e sentiu um aperto no peito, de saudade, de estar indo embora de sua pátria. Salvatore se aproximou de seu pai, colocou a mão em seu ombro e disse “Vamos papa, o mundo nos espera”. Benito respondeu “sim, sim” e partiram.

Muito andaram naquele frio inverno e notaram que várias pessoas se juntaram a eles na caminhada. Eram famílias de aldeias inteiras querendo fugir da miséria e da fome. Olhares vagos, passos demorados. Benito levava a filha mais nova sobre seus ombros e Salvatore conduzia um irmão na bicicleta.

Antonieta andava triste, resignada. Não era da sua vontade a migração, nunca mais veria seus pais, familiares. Mas o marido era o chefe da família e só lhe restava acompanhar.

Canção dos imigrantes toscanos

“Itália bela, mostra-te gentil
E os filhos teus não a abandonarão
Senão eles vão todos para o Brasil
E não se lembram mais de voltar

Ainda aqui haveria trabalho
Sem ter que emigrar para a América
O século presente está nos deixando
E o novecentos se aproxima
Eles têm a fome pintada na cara
E para saciá-los não existe medicina
A cada comento escutamos dizer:
E vou pra lá onde tem a colheita do café”

A família Granata chegou ao porto de Nápoles em 18 de outubro de 1899 e ali descobriu que as coisas não seriam como pensavam. Primeiro que tiveram que esperar dias para o embarque, segundo que ao contrário do que foi prometido a viagem não era gratuita.

Apesar dos pedidos de Antonieta de desistirem da viagem Benito não aceitou. Pegou o restante do dinheiro da venda do comércio e pagou as passagens. Pagou na esperança de chegar ao Brasil empregado e recuperar tudo que investira.

Não tinham onde dormir esperando pela viagem. Benito e Salvatore arrumaram uns jornais para forrar o chão e se cobrirem protegendo do frio.

Levaram alguma comida com eles, mas aos poucos essa foi acabando também. As crianças sentiam fome que era disfarçada com pão duro servido pelos agentes de viagem e água, muita água para enganar o estômago.  

Depois de quatro dias embarcaram no navio com destino ao Brasil. O navio se afastava e Antonieta chorava vendo que não teria mais jeito, via sua Nápoles ficar pequenina assim como seu coração. Salvatore distraído olhava para o nada quando no horizonte percebeu uma pessoa conhecida.

Era Dora. Salvatore correu por todo o navio para conseguir uma posição melhor. Chegou na beirada da embarcação e começou a acenar para sua amada. Triste Dora acenava lentamente de volta despedindo-se daquele que pra sempre seria o amor de sua vida. Salvatore com lágrimas nos olhos gritava “até amanhã” enquanto a moça se virava e ia embora.

Canção dos imigrantes vênetos

“América, América
Lá se vive que
É uma maravilha
Vamos ao Brasil
Com toda a família
América, América
Se ouve cantar
Vamos ao Brasil
Brasil a povoar”

A viagem durou quase trinta dias e as condições dentro do navio eram precárias. Amontoados no navio como passageiros de terceira
classe foram várias as mortes.

Mortes por envenenamento por comida estragada, por epidemias além de ondas de furto. Dessa forma a família Granata e os imigrantes percebiam que nem tudo eram flores.

No porão do navio, onde ficavam, Salvatore sonhava. Imaginava como era o Brasil, queria crescer na vida ser alguém e um dia voltar com dinheiro para a Itália. Casar com Dora? O rapaz não tinha esperanças que isso ocorresse. A mocinha estava perto da idade de casar e pela lógica seu pai rapidamente lhe arrumaria um pretendente.

Mas Salvatore sonhava conhecer uma “ragazza” em terras brasileiras.

Festeiro por natureza mesmo naquelas condições adversas os italianos festejavam. Aproveitavam a noite para comemorar a nova vida que seria apresentada, a esperança que renascia e dançavam.

Nesse clima de muita dança e cantoria Salvatore foi acordado em uma noite. Perguntou o que era e a mãe aborrecida respondeu que eram os “vagabundos festejando não se sabia o que”. Salvatore sentou-se para contemplar a música, suspirou que há tempo não sabia o que era uma boa canção, uma festa.

Benito mandou que o filho fosse aproveitar sob protestos da mulher que não queria que ele fosse. Salvatore com os olhos brilhando perguntou se podia mesmo e o pai respondeu “vá”.

Salvatore levantou e foi correndo com Antonieta furiosa recriminando Benito. O homem sorriu e só respondia pedindo para deixar o menino se divertir.

Salvatore chegou na festa e seus olhos irradiavam felicidade. Viu jovens como ele, pessoas mais velhas, crianças dançando e se juntou a eles. A esperança renascia no peito do rapaz, tudo com alegria é mais fácil.

E dançando com os novos amigos ele reparou em uma jovem. Linda, cabelos encaracolados negros, bochechas rosadas ela dançava alegremente com seus pais e outros passageiros do navio.

Salvatore se encantou imediatamente pela jovem e se aproximou. Os dois começaram a dançar, festejar sem tirar os olhos um do outro. Pegavam as mãos, rodavam, o riso fácil saía de seus corações, o encantamento era mútuo.

Aproveitando a distração dos pais da moça Salvatore lhe chamou para passear e os dois foram.

Afastados da festa sentaram para observar a Lua e conversar. Salvatore contou toda sua história e a moça se apresentou como Morgana, era moradora de uma pequena aldeia italiana e viu com os pais a chance de recomeçar em outro país.

Passearam mais um pouco, conversaram bastante, riram e antes de voltarem Salvatore deu um pequeno beijo na boca de Morgana que foi correspondido. Voltaram para a festa onde os pais aflitos procuravam pela moça e Salvatore com seu sorriso fácil se apresentou dizendo que seria o futuro genro deles.

Morgana se assustou, os pais nada entenderam e Salvatore se afastou dizendo que procuraria por eles. Aquele devia ser o dia mais feliz de sua vida.     

Voltou para o porão, deitou ao lado da família e sonolenta Antonieta perguntou qual era o motivo da alegria. Deitado olhando para o teto sorrindo Salvatore respondeu que era o Brasil.

No dia seguinte passeando pelo navio com o pai Salvatore contou toda a história. Benito se assustou perguntando ao filho se não era muito cedo para ter tantas certezas e ele respondeu que não,                                                                                                                 
que sabia que aquela era a mulher de sua vida.

Ao ver Morgana com o pai Salvatore pediu que Benito lhe acompanhasse e pegou em sua mão lhe puxando em direção a eles.

Salvatore cumprimentou Morgana, ao seu assustado pai e perguntou ao homem se lembrava dele. Ele respondeu que sim, que ele tinha se apresentado na noite anterior como seu genro. Salvatore sorriu e falou que era ele mesmo.

Apresentou o pai e contou que queria pedir a mão de Morgana em casamento. O pai da moça boquiaberto perguntou se ela sabia o que ocorria e Morgana rapidamente respondeu que estava tão surpresa quanto ele.

Salvatore se abateu e disse que não iria mais lhe incomodar. Virou-se pra ir embora e quando se afastava Morgana disse que não era porque não sabia que não iria aceitar.

Rapidamente o rapaz voltou, exibiu novamente o largo sorriso e perguntou se queria casar com ele. Morgana sorriu enquanto Salvatore ficou de joelhos a sua frente e pediu a seu pai a mão dela.

O pai de Morgana perguntou se ele era sempre assim e Benito, resignado, respondeu que sim. O homem então riu e falou que o jovem era audacioso, corajoso e era uma pessoa assim que queria pra sua filha. Finalizou respondendo que concedia a mão.

Salvatore levantou do chão, deu um pulo de alegria e abraçou forte ao sogro dizendo que não iria se arrepender. Deu um forte abraço em Morgana e puxou ao pai para contarem as novidades à família.

Salvatore conta a uma perplexa Antonieta e à noite mais uma festa acontece, agora para celebrar o noivado de Salvatore e Morgana. O navio é tomado pela festa e mesmo a sempre desconfiada Antonieta celebra a união dos noivos. Noivos apaixonados, cheios de planos mesmo acabando de se conhecerem.

Morgana e Salvatore não se desgrudam mais, cada vez mais apaixonados. Fazem planos para quando chegarem ao Brasil. A ideia era das duas famílias se juntarem e trabalharem na lavoura do café. Salvatore ouvira falar que no Brasil tinha muita terra, bem mais do que pessoas para cuidar e era o país do café, qualquer lugar que fossem tinha um pé de café.

Pegou nas mãos da amada e jurou que enriqueceriam no Brasil, teriam uma terra só deles onde plantaria, construiriam e depois que estivessem com a vida feita voltariam para a Itália. Os olhos de Morgana brilhavam e a moça contava que seu maior sonho era voltar à aldeia e ajudar as pessoas de lá.

Salvatore abraçava a amada e falava que assim seria. Estavam apaixonados, irremediavelmente apaixonados.

No meio daquele clima todo de amor e esperança que tomava
conta da família Granata coisas ruins aconteceram. O nível de condições de limpeza e segurança naquele navio como já foi contado era mínimo. As pessoas viajavam junto com baratas, moscas, ratos e sempre expostas ao perigo e foi esse perigo que se tornou real para cima da filha menor dos Granata.

A menina do nada começou a apresentar febre alta, manchas, estava com a peste negra. Doença que naquela época rapidamente tomava a vítima e quase sempre fatal.

E com a rapidez que a doença surgiu ela levou a caçulinha dos Granata. O desespero tomou conta de Antonieta que gritava que nunca quis aquela viagem, queria ficar na Itália e aquela viagem maldita matara sua filha. Benito tentava acalmar a esposa que socava seu peito e lhe acusava da morte.

Salvatore estava tão apaixonado que não sabia de nada que ocorria. Quando entrou feliz de braços dados com Morgana no porão viu a cena da mãe desesperada sendo segura pelo pai.

Nervoso se aproximou para ver o que ocorria e deu de encontro com a cena da irmã morta. Pôs as mãos na cabeça, com lágrimas nos olhos e nada conseguia falar enquanto a mãe também lhe acusava da morte.

Salvatore apenas olhava a mãe lhe xingar sem reação, parecia em outra dimensão. Morgana tentou lhe consolar quando o rapaz em um ímpeto saiu correndo.

Morgana saiu atrás gritando por ele. Rodou por todo o navio procurando o amado e só o encontrou muito depois em um canto sozinho chorando.

Morgana sentou-se ao lado do noivo e lhe abraçou dizendo que estava com ele. Chorando copiosamente Salvatore colocou a cabeça no colo da noiva e nada falava. Morgana acariciou seus cabelos e contou que sempre estaria com ele, onde ele estivesse.

Salvatore foi se acalmando aos poucos e levantou-se do colo. Com o rosto molhado devido ao choro olhou para a noiva, acariciou seus cabelos encaracolados e lhe beijou.

Morgana no começo tentou se afastar, mas acabou correspondendo ao beijo do amado. Aos poucos os beijos foram se intensificando e o casal acabou fazendo amor pela primeira vez.

Primeira e última.

Nos dias seguintes foi a vez de Morgana apresentar os sintomas da peste negra. Já estavam próximos da chegada ao Brasil e Salvatore sem sair de perto da amada pedia para que ela reagisse.

A navio atracou no porto de Santos, estado de São Paulo, no dia 22 de novembro de 1899. Uma grande confusão foi formada na descida do navio. Empurra-empurra, gente sendo pisoteada e nessa confusão os pais de Morgana e a família de Salvatore acabaram sendo levadas para fora do navio mesmo tentando ficar.

Salvatore ficou no porão com Morgana em seus braços. Com um fiapo de voz a moça disse “ao seu lado pra sempre”. Salvatore chorava e pedia para a noiva não lhe deixar, mas aos poucos sua respiração ia ficando mais fraca, mais esparsa até que Morgana faleceu nos braços de Salvatore.

O homem gritava desesperado pela morte da amada enquanto os
italianos desciam do navio em nova terra.

Salvatore ficou ainda por um bom tempo abraçado ao corpo de Morgana até que se viu obrigado a deixar o navio. O homem abatido, dilacerado pelas tragédias que cercavam sua vida foi o último a deixar a embarcação.

Desceu com um porto bem mais vazio do que estava horas antes no desembarque. Naquele instante se lembrou da família, se perdera dela.

Começou a procurar pela família. Procurou entre aqueles italianos que ainda estavam perambulando por lá gritando por Benito e Antonieta. Nada. Depois de horas sentou na calçada perdido, abandonado, com o coração em frangalhos naquela terra estranha sem ter o que fazer.

Com a cabeça baixa, sentado, sentiu uma mão em seu ombro. Olhou de imediato pensando poder ser algum rosto conhecido, mas era uma mulher ruiva, gorda, na altura de seus cinquenta anos.

A mulher se comunicando em italiano perguntou se ele estava perdido e Salvatore respondeu que sim, se perdera de sua família e perguntou se ela conhecia Benito e Antonieta Granata.

A mulher respondeu que não e comentou que ele devia estar cansado e com fome. Salvatore respondeu que sim e ela contou que era responsável por uma hospedaria de imigrantes perguntando se ele não queria ir pra lá.

Salvatore titubeou um pouco, mas respondeu que sim, só não tinha
dinheiro. A mulher respondeu que ele podia ajudar na manutenção
da hospedaria até decidir o que fazer da vida. Salvatore agradeceu e teve sua mão puxada pela senhora para que levantasse.     

A senhora perguntou sua idade e ele respondeu “dezessete”. Ela assustada comentou “é um bambino ainda”.

Salvatore conseguia pensar em nada, só em tudo que ocorrera em sua vida, toda a transformação e que precisava achar sua família.

Andando ao seu lado a senhora colocou a mão em seu ombro e comentou.

“Bem vindo ao Brasil”.

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