sábado, 12 de setembro de 2015

DINASTIA: CAPÍTULO II - VIDA NA ITÁLIA




“Salvatore!! Oddio mio onde se meteu esse bambino???”

O italiano nunca foi meu forte apesar da descendência, mas imagino que o jeito de falar era perto desse. Era Antonieta, mãe de Salvatore lhe chamando, pois, era hora da janta e o jovem italianinho já se “perdera” pelas ruas de Nápoles.

Salvatore era um jovem bonito, encorpado e de sorriso largo o que conquistava as menininhas. Gostava de cantar e nos fins de noite passeava com os amigos fazendo serestas para as meninas. Era o terror dos pais de família e muitas vezes tinha que fugir de maridos enciumados.

Levava a vida com extrema felicidade mesmo com as dificuldades econômicas que a Itália passava no fim do século XIX. Os italianos começaram a migrar para o Brasil na década de 1870. O alto crescimento da população e o acelerado processo de industrialização afetaram diretamente as ofertas de emprego no continente e isso fez muita gente emigrar pelo mundo.

Antonieta continuava chamando Salvatore pela janela até que o jovem apareceu de forma acelerada descendo a ladeira e na porta de casa pedindo desculpas à mãe pela demora. Salvatore abre a porta, pede bênção e entra com Antonieta lhe mandando tomar banho para jantar.

O banho gelado é tomado de forma rápida devido ao inverno mais frio que o normal que tomava conta da cidade.

A casa é humilde, velha, mal cuidada. Já teve dias melhores. O problema é a crise que se espalha pelo país e a família Granata não escapa dela. Benito Granata, pai de Salvatore, é um pequeno comerciante e sofre diretamente com a crise, pois, como as pessoas não têm dinheiro pra comprar ele não vende e ele não vendendo não ganha dinheiro. Simples assim.

Comida não faltava na casa dos Granata já que tinham um mercadinho, mas Benito se preocupava. Já devia dinheiro aos fornecedores e cada vez era mais difícil conseguir alimentos. Também sofria com o calote de vários consumidores que compravam fiado e não pagavam. Mas Benito tinha um bom coração e entendendo a situação que as pessoas passavam não cobrava. Só que dessa forma sua situação piorava a cada dia.

Salvatore, de banho tomado, sentava-se à mesa com seus irmãos e Benito puxava a oração.  Agradecia por ainda ter o que comer enquanto tantos passavam fome. Na mesa uma sopa com cenouras, beterraba e outros legumes que reforçavam a comida e água para beber. Todos em silêncio comiam apenas com o barulho dos grilos do lado de fora acompanhando.

Depois de um tempo Antonieta contou ao marido que o dono da casa fora cobrar o aluguel. Benito com jeito abatido, olhar fundo de quem não dormia bem há tempos e aspecto bem mais velho do que realmente era respondeu a mulher que não tinha dinheiro e não teria como pagar.

Antonieta tensa contou ao marido que o homem fez ameaças e insinuou que pegaria a casa de volta. Salvatore, o mais velho dos filhos, propôs que o comércio ficasse aberto por mais tempo, abrissem assim que o Sol nascesse e só fechassem depois que as ruas estivessem vazias.

Apesar do jeito namorador e de gostar de serestas Salvatore era um ótimo filho. Trabalhava com o pai sendo seu braço direito e pessoa de confiança.

Benito agradeceu a preocupação do filho, mas disse que de nada adiantaria fazer aquilo, pois, o problema não era o tempo de trabalho e sim a falta de dinheiro das pessoas. Antonieta deixou cair umas lágrimas e respondeu que daquela forma acabariam morando na rua e passando fome.

Benito ficou um tempo em silêncio enquanto Antonieta e Salvatore olhavam para o nada e os menores comiam como se nada ocorresse, blindados pela ingenuidade infantil quando o patriarca suspirou fundo e colocou um folheto na mesa.

Antonieta não sabia ler, mas Salvatore sim e olhou por um tempo o panfleto. Antonieta perguntou o que era e Salvatore leu.

“América, terra no Brasil para os italianos. Navios partem todas as semanas do porto. Venham construir seus sonhos com a família. Um país de oportunidades. Clima tropical e abundância. Riquezas minerais. No Brasil vocês podem ter o seu castelo. O governo dá terra e ferramentas para todos.”

Um dos filhos menores perguntou o que era o Brasil e Salvatore olhando para o pai respondeu ao irmão que era longe, muito longe. O rapaz emendou perguntando ao pai no que ele pensava.

Benito pegou a jarra, encheu o copo de água e respondeu ao filho que aquela podia ser uma solução. Antonieta se enervou e disse não saber nada sobre aquela terra estranha, que devia ter selvagens, canibais. Um outro filho perguntou a mãe o que eram canibais e Salvatore respondeu “pessoas que comem outras pessoas”. O menino apavorado gritou que “não queria ir pra lugar onde comem pessoas, não queria o Brasil” e saiu correndo da mesa chorando. 

Benito mandou a mulher parar de falar besteiras e Antonieta perguntou como seria, quem poderia ir e Benito respondeu apenas eles e as crianças. Assustada Antonieta perguntou “e meus pais?”. Benito respondeu de pronto “Só nós”.

Uma das filhas chorando diz “não quero ficar longe da nona” saindo também correndo da mesa. Benito irritado disse que a mulher estava assustando as crianças e ela rebate que também estava assustada. O casal discute sob o olhar de um calado Salvatore.

Depois de um tempo ouvindo a discussão Salvatore se encheu de coragem e disse “faça o que tiver que fazer papa”. Os dois pararam para olhar o filho que disse a frase mais uma vez.

Continuaram olhando Salvatore que voltou a tomar a sopa e ao se notar vigiado pede aos pais para tomarem a sopa que estava esfriando.

Salvatore Granata, meu tetravô, tinha a maior característica que marca minha família, a coragem. Bem ou mal ele tinha uma vida na Itália, não conhecia nada além de Nápoles que era sua terra natal, sua raiz. Ali tinha seus sonhos, esperanças, amigos e amores, mas ao ver a família em uma fase ruim de imediato apoiou a mudança.

A história de migração foi deixada um pouco de lado, mas a situação não melhorava. Uma tarde Salvatore e Benito estavam no comercio vazio quando chegou um grupo. O homem que liderava esse grupo era um dos fornecedores que não conseguia receber. Perguntou a Benito se ele tinha o dinheiro e o homem respondeu “muito pouco”.

O homem pediu o dinheiro. Benito de forma humilde abriu a caixa e o homem foi logo metendo a mão tirando tudo. Contou na frente de Benito e Salvatore e reclamou que tinha muito pouco. Mandou que os homens recolhessem frutas, legumes, sacos de arroz e feijão, enfim, produtos do comércio até que fosse o suficiente para pagar toda a dívida.

Salvatore levantou para encarar o grupo e ficou frente a frente com o homem olhando em seus olhos. O homem perguntou se ele queria alguma coisa. Benito puxou o filho e o homem rindo mandou que ele ouvisse o pai que seria melhor para sua saúde.

Benito disse no ouvido do filho que “coragem não era burrice” e os dois sentados impassíveis viram o bando levar quase tudo.

Depois deles irem embora Benito levantou e olhou o que sobrara do comércio. O homem desolado contabilizava o enorme prejuízo quando Salvatore levantou, colocou a mão no ombro do pai e perguntou sobre a história do Brasil.

Benito andou até a frente do comércio e olhou o céu. Ele estava estrelado, com uma Lua linda. Salvatore andou até o lado do pai, olhou também e perguntou se o céu no Brasil também era assim.

Benito perguntou ao filho se aquela ideia era realmente a melhor, alegou que seria uma mudança brusca de vida.

Salvatore respondeu que qualquer mudança brusca seria melhor que a vida que levavam em Nápoles. Benito suspirou e pediu ajuda ao filho para fechar o comércio.

Enquanto Benito e Antonieta discutiam na sala Salvatore deitado olhava para o teto pensando na vida. Pensava em tudo que deixaria pra trás e em Dora, a preferida entre as namoradinhas, que pensava um dia se casar, ter filhos e que com essa mudança teria que deixar pra trás.

A casa ficou em silêncio e algum tempo depois Benito bateu na porta. Salvatore disse que estava aberta e o pai abriu. Benito contou que estava tudo resolvido e iriam para o Brasil. Salvatore respondeu apenas “que bom”. O pai desejou boa noite e fechou a porta. Salvatore resolveu dormir que o dia seguinte seria longo.

Benito encontrou um desses agentes que negociavam vindas para o Brasil e o homem vendeu o país como um sonho. Garantiu as passagens gratuitas e que em poucos anos poderiam juntar um bom dinheiro, voltar para a Itália e até comprar um pedaço de terra.

Aquilo serviu como uma ária para os ouvidos de Benito que rapidamente agilizou a mudança. Vendeu o pequeno comércio que passara por décadas no seio da família, pagou fornecedores, o dono da casa que moravam e guardou o que sobrou para o começo da vida no Brasil.

Salvatore saiu com os amigos e foi a uma taverna. Com eles bebeu bastante vinho e se lamentava por não vê-los nunca mais. O seu melhor amigo Eliseu lhe deu um abraço e respondeu que sempre seriam amigos e para que ele nunca esquecesse que tinha sangue italiano.

Salvatore ouviu o amigo e puxou o grito de “Viva a Itália!!” seguido por todos, depois começaram a cantar.

Passaram horas cantando até que Salvatore ficou em silêncio e lembrou-se de Dora. Eliseu propôs que fossem até sua casa lhe fazer uma serenata e Salvatore topou. Foram todos para a casa de Dora.

Já eram altas horas quando começaram a cantar. Salvatore e mais três amigos bêbados cantando as dores de amor até que Dora abriu a janela e perguntou se estavam loucos.

Salvatore respondeu que sim, louco de amor e Dora fez sinal de silêncio dizendo que seus pais estavam dormindo e iria descer. A moça desceu, abriu a porta e foi ao encontro do grupo de amigos.

Salvatore deu uma rosa para ela e disse que lhe amava. Dora se assustou por nunca ter ouvido isso do rapaz e ele pediu que ela saísse de lá com ele para verem as estrelas. Dora olhou pra trás e respondeu que não podia, pois, seu pai lhe mataria.   

O rapaz fez olhar “pidão” e pediu que a moça fosse apenas daquela vez. Dora aceitou e pediu para que Salvatore esperasse um pouco que pegaria um casaco. Ela entrou e os amigos se despediram de Salvatore desejando uma boa viagem.

Eliseu deu um longo abraço no amigo e disse que lhe ajudaria no dia seguinte para ir ao porto. Eles se afastaram e Salvatore ficou lá sozinho esperando sua amada.  

Dora saiu da casa na ponta dos pés e perguntou ao amado para onde iriam. O rapaz fez carinho no rosto da moça e respondeu “para o céu”.

Nápoles é uma das cidades mais lindas do mundo. Seu centro histórico é hoje considerado patrimônio mundial pela UNESCO e lá ficam as ruínas de Pompeia e o vulcão Vesúvio. Nesse cenário deslumbrante Dora andou na garupa da bicicleta de Salvatore tendo apenas a noite como testemunha.

Salvatore levou Dora até o alto de um morro e lá os dois sentaram no chão de terra e ficaram observando o mar. Salvatore ficou jogando pedrinhas do alto enquanto Dora observava as estrelas e comentava o quanto elas brilhavam naquela noite.

Salvatore para de jogar as pedras e sem coragem de encarar Dora conta que irá embora na manhã seguinte. Um não olha o outro, o clima é de tristeza. Dora responde que já sabia e pergunta se é para o Brasil que irão. Salvatore abaixa a cabeça respondendo que sim e Dora comenta que ouviu falar que é um país bonito.

O rapaz em um impulso pega a mão de Dora e diz mais uma vez que lhe ama e carregará a moça consigo no peito. Dora com lágrimas nos olhos encara Salvatore e diz que eles nunca mais se verão. Ele diz que não, que fará fortuna no Brasil e voltará pra ela. Dora responde que não, que ele não vai voltar.

Salvatore se consterna com a tristeza da moça e passa o dedo em sua face limpando suas lágrimas. Dora abraça o moço e diz que ele sempre será o amor de sua vida não importando que case, tenha filhos e netos com outro homem.

O casal de jovens se olha por um instante e num grande atrevimento para  época Salvatore beija Dora, estamos falando do fim do século XIX onde não se permitia esse tipo de atrevimento. Os dois se beijam apaixonadamente e depois Salvatore num atrevimento maior ainda começa a desabotoar a blusa da moça.

Desabotoa botão por botão e os dois fazem amor ali mesmo naquele morro abençoado pela Lua e pelas estrelas. Fazem amor e ficam ali deitados, Dora nos braços de Salvatore olhando para o céu e sem dizer uma única palavra, o silêncio dizia tudo.

Ficaram horas deitados sem dizer uma frase até que Dora pediu para ir embora alegando que tinha que chegar em casa antes dos pais acordarem. Salvatore pegou a bicicleta e a amada sentou atrás lhe apertando forte.

Andaram na bicicleta pelas ruas de Nápoles numa viagem sofrida, de despedida. Dora apertava bem forte o amado como se nunca mais quisesse soltar, como se naquele momento os dois corpos formassem um só. Seu peito apertado apertando suas costas, sua respiração sentindo o perfume do amado, seu odor para que nunca mais esquecesse seu cheiro, seu corpo, seu amor.

Histórias de amor têm que doer, tem que ser fortes, tem que ser intensas senão não valem a pena, senão não é amor. 

Salvatore parou na porta da casa da moça quase amanhecendo. Os dois se olharam um pouco como se fosse para não esquecer o rosto um do outro e antes que Salvatore dissesse algo Dora colocou a mão em sua boca.

Pediu que não falasse nada. Não se despedisse, apenas dissesse “até amanhã” fingindo que se viriam no dia seguinte.

Salvatore concordou então a moça lhe deu um abraço e disse “até amanhã”. Salvatore acariciou seu rosto, beijou-lhe a testa e disse “até amanhã Dora”.

Dora sorriu, se virou e foi embora. Entrou sem olhar para trás. Salvatore olhou ainda por um tempo a casa da moça, montou na bicicleta e partiu.

Antes de chegar em casa parou na casa do fornecedor que pegou as coisas de sua casa. Olhou com raiva, pegou uma pedra e jogou na casa quebrando a janela. Montou na bicicleta correndo e partiu enquanto ouvia gritaria de dentro da residência.

Era uma pequena vingança.


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