sexta-feira, 3 de abril de 2015

SEMANA DEZ ANOS: 4 DE ABRIL DE 2015




Para Bia e Gabriel


Meus filhos queridos. Bibica cara de pinica, Gabriel cara de papel. Como vocês estão? Espero que bem. Quando escrevi essas mal digitadas linhas estavam. Bia com cinco anos, perto dos seis. Começando a estudar, linda e amorosa. É comovente o amor que você mostra ter por mim. Poucas coisas me dão alegria igual na vida que te buscar no colégio e você gritar papai e vir me abraçar correndo. Digo poucas iguais. Mais que isso não tem.

Gabriel, Gabigol, o Brocador do Mengão. Menino guerreiro, que nasceu com aparência frágil, mas é extremamente valente. Enfrentou e venceu a morte e hoje é dono de um sorriso lindo, cabelos revoltos e jeitinho de conquistador. Será um, melhor, já é, porque conquistou a todos.

Meus tesouros, minha vida. Quero conversar com vocês hoje, falar de uma pessoa que não conheceram pessoalmente, mas tenho certeza que está sempre ao lado de vocês.

Quero falar da vó de vocês.

Infelizmente terei essa lacuna na minha vida eternamente, nunca verei vocês três juntos. É inacreditável às vezes pensar que sua avó nunca te conheceu Bia. Nunca ouviu suas histórias mirabolantes, te ouviu cantar ou mesmo te deu uma bronca por suas bagunças.

Também não é fácil perceber que ela nunca te pegou no colo Gabriel. Nunca reclamou que você pegou seu chinelo ou botou o nebulizador em você num momento de gripe como ela fazia comigo.

Os três maiores amores da minha vida e nunca conviveram. Nunca estive nem estarei com os três ao mesmo tempo.

Isso dói meninos. Queria muito que um dia estivesse nós quatro juntos e essa dor vem mais forte em dia como hoje que faz dez anos que a vovó de vocês virou anjo e cuida de nós lá em cima. Graças a essa data muitas coisas que tinham sido escondidas nos porões de minha mente voltaram. Essas últimas semanas não foram fáceis. Muitas coisas para pensar, quase sem descanso, mas invariavelmente lembranças vinham.

Lembranças que talvez eu não quisesse ter mais. Vocês podem não acreditar, mas até hoje eu sei o caminho da recepção do hospital Getúlio Vargas até onde a vovó de vocês ficou internada. Nunca mais voltei nesse hospital e nem pretendo voltar, mas eu sei.

Sinto o cheiro desse hospital até hoje.Sempre que pego o 910 e saio da Ilha vem a lembrança do trajeto que fazia até ele. Vejo a vó de vocês no leito. Nesses anos sonhei algumas vezes que fazia aquele trajeto, chegava no quarto e encontrava a vovó sentada com malinha do lado me esperando pra vir embora em alta. Deus..Como quis isso.

Mas não aconteceu.

Sempre tive uma memória privilegiada, mas a idade chega, estou perto dos 40 e ela começa a falhar. Mas não sei se é apenas a idade ou se é uma defesa minha também. Também não sei se ela falha ou eu que procuro não aprofundá-la. Mas poucas vezes lembrei dos dias de internação e do enterro. Lembro bem de ter tentado entrar com coca-cola escondida pra ea. Devia ter tentado com mais veemência. Lembro do seu último momento de lucidez quando soube que seu adorado Papa tinha morrido e lembro de nosso último momento.

Escrevo essa cartinha para vocês na verdade no dia 3, o dia que faz 10 anos de nossa despedida. A gente sabe meus filhos. Não sei que força é essa que une seres humanos que se amam que a gente sabe quando acontece uma despedida. Eu com a vó de vocês sozinhos naquele leito. Ela sem falar nada, só me olhando inchada e arfando como se quisesse falar algo. Eu segurando firme sua mão e lhe olhando também quieto.

Tolo que fui. Dez anos sem perceber que nunca falamos tanto quanto naquele silêncio.

Ah vó da Bia e do Gabriel..que falta que você me faz...

Quando eu lembro daquele encontro me dá um arrepio. Quando lembro do sonho que tive ao dormir assim que voltei do enterro com a vó me dizendo que estava bem emociono. Seu rosto começa a ficar distorcido em minha mente já que o tempo é cruel e desbota as tintas da vida. Sua voz quase já não me é audível e isso me entristece. Mas nossos momentos não. Esses nunca serão apagados e por isso tento fazer que meu tempo com vocês seja sempre especial. Desde um dia importante até uma simples noite de vocês aqui comigo. Bia no celular e Gabriel correndo pelo quarto com meu chinelo na mão.

Eu quero com vocês as brigas e as reconciliações que tive com ela. Quero as palmadas e depois o carinho explicando que dói mais em mim que em vocês. Quero o abraço em silêncio e as lágrimas de vocês molhando meu peito na perda de um amor, mas o sorriso na conquista do outro porque ele sempre vem, o amor sempre se renova.

Quero o brinde com champanhe no reveillon mesmo a gente não bebendo. A retirada da tv de vocês na nota vermelha, mas o abraço festivo na nota 8 de geografia que impede que fiquem de recuperação. A ansiedade na procura do ovo de chocolate. A cabeça no meu colo na hora do sono e o meu mau humor quando vocês me despertam.

Mas principalmente, quero com vocês o silêncio da cumplicidade. Aqueles momentos em que não se precisa dizer nada, a cumplicidade e o amor falam por nós. 

Modéstia a parte eu sou um bom pai e sei que vocês concordam com isso. Por muito tempo achei curioso ser bom pai já que o meu não foi. Tolice. Eu tive mãe, pai, amiga, companheira, cúmplice. Tudo na mesma pessoa. Não preciso de pessoas, preciso de sentimentos.

Venham tomar banho de chuva comigo!! Gripe se cura, momentos são eternos. Vamos abrir leite moça na cozinha de madrugada, dançar mesmo sendo desastrados. Fiquem no computador no meu quarto enquanto vejo televisão e me permitam olhar vocês entretidos e sentir a companhia daqueles que eu amo.

E quando eu partir apertem forte minha mão que assim eu irei em paz e com minha missão cumprida.

Todos nós temos uma missão Bibiquinha e Biel. A vó de vocês cumpriu a dela. Acho sim que a vida foi injusta com ela e por isso sinto tanta necessidade de fazer, acontecer, marcar presença. Acho que sendo assim "vingo" a ela já que a vó sempre disse que eu era seu maior projeto. Também acho que a vida foi injusta comigo pelo menos nos primeiros meses do primeiro ano sem ela. Mágoas ocorreram, familiares que eu tinha como exemplos não só me viraram as costas como não respeitaram minha dor e causaram machucados que dez anos não cicatrizaram. Mas tudo isso me fez forte. Me fez virar adulto.

A partida dela serviu para que eu nascesse de novo e dez anos depois posso dizer que chego perto dessa nova adolescência forte como nunca imaginei..

..mais magro, mais representativo, com maior auto estima, respeitado, liderando, fazendo, acontecendo. Por vocês, por ela, por mim.

Por nós.

É Bia..É Gabriel..Dez anos. Não vou dizer que parece que foi ontem. Tanta coisa aconteceu que parece ser uma eternidade. Mas contrariando prognósticos eu sobrevivi e estou aqui conversando com vocês.

Melhor que pensar que vocês nunca lhe encontraram é pensar que nunca passei por hiato de amor. Ela foi embora e mandou vocês. Dessa forma a vida continuou.

Graças a Deus chegaram os dez anos. Estava doendo demais relembrar.

Graças a Deus chegaram os dez anos e eu tenho vocês.

Amo vocês meus filhos e tenho certeza que de um lugar muito bacana a vó de vocês protege a nós três.

Obrigado por tudo Regina Villar. Um dia a gente se encontra e como diz a música que fiz pouco antes de sua missa de sétimo dia.

Amor é como um passarinho radiante tendo o céu a desbravar.

Te amo.

Minha mãe. 


*Com esse texto se encerra a semana em homenagem a minha mãe. Trocando em miúdos volta semana que vem a sua programação normal. 

A semana em homenagem se encerra, mas o amor é pra sempre.

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DONA CAROLA 

Um comentário:

  1. Sei que dona Regina sente orgulho do filho que é e pai que se tornou. Bjs

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