sexta-feira, 10 de abril de 2015

FOLHETIM



*Conto da coluna "O buraco da fechadura" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 2/11/2013

O local é uma loja de móveis em um grande shopping no Rio de Janeiro. Patrícia, empolgada, conversava com a atendente dizendo o tipo de móveis que queria para o apartamento triplex que ganhara na Barra da Tijuca de seu pai de presente de casamento. Não parava de falar, agitar as mãos, gargalhar enquanto Cláudio, sentado a uma cama, assistia a tudo.

Assistia com cara de tédio, com vontade de estar longe dali. Tudo o que queria era estar naquele momento na praia jogando futevôlei com os amigos e bebendo um chopinho, mas não, tinha de estar lá com a noiva.

Cláudio e Patrícia eram noivos havia quatro anos, namoravam havia sete, portanto bastante tempo. Quando se conheceram Cláudio trabalhava como DJ e nas horas vagas surfava, Patrícia era o que chamamos de socialite. Sua função na vida eram os eventos sociais, dar festas e ser capa de revistas fúteis mostrando sua casa ou um vestido novo que comprou.

Conheceram-se na praia com a moça assistindo e admirando o rapaz surfando. Dividiram uma água de coco, um cigarro de maconha e logo estavam transando escondidos nas pedras do Arpoador.

O pai de Patrícia não era rico, era muito rico, podre de rico. Dono de uma rede de supermercados, era um novo rico deslumbrado que assim que enriqueceu comprou uma mansão na Barra da Tijuca e colocou uma cascata de ouro que jorrava água mineral na frente de casa.

Persuasivo, convenceu Cláudio a esquecer as carrapetas das caixas de som e trabalhar em seu escritório. O rapaz largava o surf, as noites tocando pra acordar todos os dias seis da manhã e se enfurnar no escritório do sogro exercendo trabalho burocrático.

Começou a ganhar muito dinheiro apesar de não ser a vida que sonhava. Tinha que aturar o deslumbramento do sogro e a futilidade da noiva enquanto dava suas escapulidas com algumas “mariposas” pela rua.

O tempo foi passando e o rapaz cheio de vida e frescor foi se transformando em um homem entediado. Aquele ali que estava sentado na cama com pensamento longe enquanto Patrícia queria comprar a loja toda.
Patrícia perguntava em relação a tudo o que Cláudio achava e, mesmo sem olhar, o rapaz dizia que estava lindo e por dentro pensava: “se eu falar que está feio muda nada mesmo”.

Cláudio, entediado, quase dormindo, estava doido par ir embora enquanto Patrícia queria todos os detalhes de todos os produtos. Foi como um alívio, quase um orgasmo quando a mulher cheia de sacolas na mão virou para o noivo e perguntou “vamos?”.

No carro, Patrícia não parava de falar enquanto Cláudio, em pensamento, se perguntava se um tiro em sua cabeça resolveria o  problema. Algum tempo se passou e ele pensou “na minha cabeça não, na cabeça dela”.

Tudo que Patrícia perguntava Cláudio respondia com “uhum” e, doido para fumar, se perguntava onde conseguiria.

Chegaram à mansão e, enquanto Patrícia contava à família entusiasmada sobre as coisas que comprou, Cláudio foi até área de serviço e bateu na porta da empregada perguntando se ela tinha cigarro.

Ela pegou o maço e entregou um cigarro pra Cláudio, que agradeceu. E ficaram os dois fumando na área de serviço, no único lugar permitido naquela casa.

Cláudio ao voltar para a sala foi chamado pelo sogro, que, entusiasmado, contava de um megamercado que estava abrindo no Recreio dos Bandeirantes e contou: “assim que você casar com minha filha entrará numa boa grana, será poderoso”.

Sábias palavras para um rapaz que já estava com dor de cabeça com tanto blá blá blá e o que mais queria era ir embora.

Saiu tonto da reunião e pensou consigo mesmo que precisava se divertir naquela noite. Entrou no carro e ligou para o seu primo Igor contando que precisava de um lugar pra se acalmar e se divertir e Igor passou pelo telefone um endereço e pediu que Cláudio lhe esperasse la que chegaria em meia hora.

Na hora marcada Cláudio estava na frente do bar que Igor marcou e o rapaz chegou perguntando se alguma coisa acontecera, Cláudio respondeu “tudo” e que queria entrar para beber.

Os dois entraram no bar e foram direito ao balcão pedir duas doses de uísque.

Cláudio estava tão doido, tão focado em beber e reclamar de Patrícia e sua família ao amigo, que nem percebeu o lugar que estava.

Quando foi ao banheiro e voltou perguntou ao amigo qual era daquele lugar. Achava as mulheres sentadas pelo sofá e cadeiras muito estranhas, com pouquíssimas roupas, quase seminuas.

Igor respondeu que ali era um puteiro e Cláudio, que na hora bebia, engasgou e perguntou que brincadeira era aquela. Igor contou que o amigo queria ir a um lugar para beber e desabafar e lugar para isso era um puteiro, não igreja dos meninos cantores de Petrópolis.

Cláudio perguntou o que fazer e Igor respondeu que o que Cláudio faria não sabia, mas ele ia atrás de alguma prostituta para aproveitar a noite.

Enquanto Igor se afastava Cláudio resmungava que sua noiva iria lhe matar. Já com certa distância e avistando uma morena maravilhosa no sofá Igor respondeu “ela vai te matar de qualquer jeito”.

Cláudio pediu mais uma dose quando uma ruiva sentou-se a seu lado e contou que lhe daria o prazer de pagar uma bebida a ela.

Cláudio respondeu que não sabia se seria um prazer, mas pagava, sim, e chamou o balconista. Algum tempo depois, a ruiva disse que por duzentos reais faria loucuras que ele nem imaginava. Cláudio perguntou que tipo de loucuras e ela contou em seu ouvido.

Empolgado, Cláudio chamou o balconista, pediu a conta e saiu.

Foram a um hotel próximo e Cláudio deu o dinheiro para a mulher, que colocou na bolsa. Enquanto ela tirava a roupa o rapaz contou que nunca fizera aquilo antes. Já sem blusa, a prostituta respondeu “que lindo, é virgem”, Cláudio disse que não, que nunca tinha saído com uma prostituta. A mulher já nua chegou em seu ouvido e respondeu “eu também” e lhe empurrou na cama, subiu em cima dele e emendou “mentira”.

Transaram loucamente. A melhor transa da vida de Cláudio que, depois, extasiado e deitado na cama, contava que nunca sentira aquilo antes e que poderia passar horas naquela cama quando a mulher falou “deu a hora, vamos embora”.

Cláudio, espantado, perguntou “mas já?”. A mulher, já colocando a roupa, respondeu que se ele quisesse poderia dar mais duzentos no dia seguinte e contar sua vida desde bebê até aquela noite, só teria que ser dentro do tempo estipulado.

Ela já saía quando Cláudio pediu pra esperar e perguntou seu nome. A mulher já na porta virou para ele e perguntou qual nome queria que ela tivesse. Cláudio pensou um pouco e lembrou-se de filmes que via na adolescência respondendo “Emanuelle”.

A mulher disse que aquele então era seu nome, mandou beijinhos e foi embora.

No dia seguinte, teve evento de Patrícia e, enquanto a festa rolava, Cláudio e Igor fumavam na varanda e Cláudio contava das maravilhas da mulher. Igor mandava o amigo tomar cuidado para não se apaixonar e Cláudio respondeu que aquele problema não existiria, mas ele voltaria depois do evento lá.

E voltou mesmo. Despediu-se da noiva e foi até a boate. Viu a mulher e se aproximou dizendo “oi, Emanuelle”, a mulher olhou e sorriu dizendo que gostava do nome.

Foram para o mesmo hotel da noite anterior e Emanuelle, desabotoando os botões da blusa, perguntou se ele queria falar sobre sua vida ou transar. Cláudio excitado com aquela cena respondeu que sobre a vida falava com psicólogo partindo para cima da mulher.

E assim foi por diversas noites. Igor se preocupava e mandava o rapaz tomar cuidado que o casamento se aproximava, mas aquilo fazia bem a Cláudio, que até participou mais animado dos preparativos do casório.

Cláudio e Emanuelle também se tornavam mais íntimos a cada dia, começando uma amizade com troca de confidências e até porque Cláudio finalmente na vida conseguia transar e fumar logo depois na cama.

Na véspera do casamento, Cláudio abriu mão da despedida de solteiro para passar com Emanuelle. Foi até a boate e a mulher se entusiasmou correndo e voando em seu pescoço para beijar. Cláudio lhe deu um beijo e a moça perguntou o que ele tinha, pois, estava estranho.

Cláudio respondeu que o dia seguinte seria o de seu casamento e Emanuelle sentiu o golpe abaixando os olhos e dizendo “que bom”. Cláudio, também triste, disse que eles tinham que aproveitar aquela noite e Emanuelle respondeu que fariam diferente, pedindo para que ele a  acompanhasse.

Foram a um prédio acanhado no Catete, e Emanuelle abriu a porta de um apartamento mandando que Cláudio entrasse. Ele entrou com a mulher contando que era o apartamento que morava. Cláudio olhou umas fotos de Emanuelle com uma criança e perguntou quem era. Emanuelle respondeu que era seu filho, que vivia com o pai em Minas Gerais.

Emanuelle tirou a foto da mão de Cláudio e lhe beijou com os dois logo parando na cama.

Na manhã seguinte Cláudio se vestia enquanto Emanuelle apenas olhava sentada no sofá. Cláudio deu um beijo na testa da moça e se encaminhou para a porta quando ela disse “Fátima”.

Cláudio perguntou: “como?” E a mulher disse que se chamava Fátima. O homem sorriu e respondeu que era mais bonito que Emanuelle. E foi embora.

Na casa de Cláudio, Igor lhe ajudava com o nó da gravata pra se casar enquanto o homem só pensava em Emanuelle, ou Fátima, agora eram dois nomes. Cheio de dúvidas, Cláudio não sabia se casava ou não e, descendo as escadas com o amigo, pediu que ele desse um recado a Patrícia.

Igor perguntou qual era e Cláudio correndo para a porta respondeu: “diz pra ela não me querer mal que eu fui ser feliz”. Foi embora com Igor perguntando se ele estava maluco e como poderia dizer algo assim a Patrícia.

Cláudio foi correndo até o prédio do Catete e esmurrava a porta de Fátima querendo falar com a moça, declarar todo seu amor até que o síndico perguntou o que ocorria.

Cláudio respondeu que procurava a moça que morava lá e o síndico contou que ela se mudara da manhã. Cláudio perguntou se ele tinha certeza e o homem respondeu que sim, inclusive ajudou na mudança.

O síndico desceu e Cláudio, desolado, sentou na escada pensando na chance que perdera.

Depois de um tempo, Patrícia nervosa brigava com Igor na porta da igreja e perguntava o que acontecia, enquanto Igor pedia para que ela se acalmasse, que tinha recado de Cláudio.

Patrícia perguntou que recado era e na hora Cláudio chegou, e respondeu que o recado era que ela seria a noiva mais linda do planeta. Igor nada entendia e Patrícia, furiosa, perguntou o motivo do atraso. Cláudio deu um beijo na noiva culpando o trânsito e entrou na igreja.

Dessa forma, Cláudio com pensamento em Fátima, casou com Patrícia. Saíram da igreja recebendo banho de arroz se encaminhando à limousine e, deslumbrada, Patrícia comentava com o agora marido que o pai dera aquele carro para eles, inclusive com motorista exclusivo para o dia a dia deles.

Cláudio, desdenhando de tanto deslumbramento, respondeu de forma irônica “que bom” enquanto entravam no carro.

Dentro dele, Patrícia beijou Cláudio de forma intensa e parou reclamando que entrara arroz até em seu sapato. Abaixou para tirar o sapato e naquele instante Cláudio percebeu quem dirigia o carro, era Fátima.

Pelo retrovisor, Fátima deu um sorriso e piscou para Cláudio, que deu um largo sorriso e retribuiu a piscada enquanto Patrícia, abaixada e esbravejada, não conseguia tirar o arroz.

Fátima sorria e olhava Cláudio, que de tanta alegria gargalhou enquanto Patrícia mandava que ele parasse de rir e ajudasse.

E assim o carro partiu prometendo muitas emoções.

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