terça-feira, 19 de agosto de 2014

SEMANA NELSON RODRIGUES: CHEQUE DE AMOR


Pela primeira vez na história do blog será publicado um conto que não é meu. O conto é do homenageado da semana do blog, o genial Nelson Rodrigues.

Esse conto acabou sendo minha primeira experiência como autor teatral já que tive que adaptá-lo para uma encenação na faculdade em 1998.

Com vocês. Cheque de amor.


Filhinho de papai rico, fez o diabo até os vinte e dois anos. Embriagava-se de  rolar nas sarjetas. E era preciso que os amigos ou a polícia o levassem para casa, em estado de coma. De vez em quando, o pai perdia a paciência. 

Chamava o rapaz, passava-lhe um carão tremendo: “Te deixo a pão e laranja, sem um níquel!”. Como não cumprisse nunca a ameaça, Vadeco perseverava na mesma vida.

Um dia, numa boate, excedeu-se a si mesmo; promoveu um conflito pavoroso. Foi um escândalo. De manhã, o velho estava no quarto do filho, esbravejante:

— Você é a vergonha da família!

Vadeco não abriu a boca. Com todos os seus defeitos , que eram muitos e graves, respeitava o pai. No fim, o velho disse a última palavra: “Você agora vai trabalhar, seu animal!”. E, de fato, já no dia seguinte, Vadeco tomava posse no seu primeiro emprego, como gerente numa das empresas do pai. 

Seu primeiro ato foi nomear secretário um amigo e companheiro de farras, o Aristides. No primeiro dia, não fizeram absolutamente nada, senão olhar um para o outro.

De vez em quando, um dos dois tinha a exclamação: “Que abacaxi!”. Mas, na hora do lanche, o Aristides foi dar umas voltas pelo escritório. Voltou outro. Esfregando as mãos, anunciou:

— Parece que tem aí umas pequenas ótimas! 

D. JUAN

E, então, rapidamente, com a colaboração do Aristides, Vadeco foi tomando conta do ambiente. Nem um nem outro faziam nada; mas, em compensação, enchiam o gabinete de funcionárias. Era uma pândega ao longo de todo o horário de trabalho.

De vez em quando, o Vadeco, de olhos injetados, virava-se para o secretário:

— Fecha a porta à chave!

O outro obedecia e o resto dos empregados, atônitos , faziam as suposições mais espantosas. Uma das funcionárias quis se engraçar com o Aristides; este, porém, foi claro, leal, definitivo: “Comigo não! Absolutamente !”. A outra não entendeu e ele teve que ser mais explícito. Explicou, então, que, no escritório, o chefe tinha prioridade absoluta. E insistiu: “Primeiro, ele; depois, eu”.

A verdade é que Vadeco não precisava fazer esforço nenhum. O Aristides é que, com um tato e uma eficiência admiráveis, convencia as companheiras. Usava todos os argumentos, inclusive os de ordem prática:

“Ele te aumenta o ordenado, sua boba!”. De vez em quando, havia maior ou menor resistência. Foi, por exemplo, o que sucedeu com a nova telefonista, uma loura cinematográfica, que se notabilizava pelos vestidos colantes. 

Assim que a viu, Vadeco chamou o Aristides: “Mete uma conversa nessa cara!”. O outro não discutiu: pendurou-se na mesa telefônica. O grande argumento da telefonista era este:

— Mas e o meu noivo?

Aristides foi rotundo:— Teu noivo não precisa saber. Não saberá nunca!

E ela, no pavor de possíveis delações:

— É espeto! É espeto!

Acabou indo. Primeiro houve o cinema; depois do cinema, um passeio delirante de automóvel. No dia seguinte, pela manhã, Aristides perguntava: “Que tal?”.

Vadeco bocejou:

— Serve.

A INCONQUISTÁVEL

Até que, uma tarde, Vadeco dá de cara, no corredor, com uma menina desconhecida. Toda a sua vida sentimental se fazia na base de variedade. Correu para o Aristides: “Quem é essa fulana?”. O outro foi dar uma volta e regressou com as informações:

— Dureza!

— Por quê?

— É noiva. E vai casar no mês que vêm. Séria pra chuchu! 

Vadeco foi lacônico:

— Vai lá e mete uma conversa.

E era assim Vadeco. Ele próprio admitia: “Tenho uma tara na vida: só gosto de mulher séria”. Gostava das outras também; mas a sua paixão era a pequena difícil, a pequena quase inconquistável. Aristides voltou meia hora depois. Sentou-se, bufando, e admitiu:

— O negócio está duro. Eu te avisei: é séria. Só faltou me dar na cara.

Mas o filhinho de papai rico não aceitava impossibilidades. Quase esfrega o livro de cheques na cara do outro; esbravejou: “Sou rico, tenho dinheiro. E mulher quer é isso mesmo. Gaita”. Aristides suspirou:

— Nem todas. Nem todas.

ANGÚSTIA

Então, aquela funcionária se converteu na idéia fixa de Vadeco. Aristides quis distraí-lo com outras sugestões: “Fulana também é muito boa. E topa”. Vadeco respondia: “Não interessa. Quero essa. Só essa. Ah, menino! Eu beijava aqueles peitinhos!”. Agarrou Aristides pela gola do casaco e o sacudiu:

— Ou tu me arranjas essa “zinha” ou estás sujo comigo!

Aristides voltou à carga. E encontrou a mesma resistência ou, por outra, uma resistência mais exasperada. A menina, que se chamava Arlete, gostava do noivo, era louca por ele. Aristides procurava tentá-la: “É um alto negócio pra si, sua trouxa!”. A menina acabou explodindo: “Não sou o que você pensa. Ora, veja!”. E Aristides, com medo de barulho, de escândalo, escapuliu. Nessa tarde, Vadeco foi de uma grosseria tremenda: “Você é uma zebra!”. Concluiu, dizendo: 

— Eu mesmo vou liquidar esse assunto!

Era, porém, outro homem. Sua alegre, sua esportiva irresponsabilidade fundia-se numa angústia de todos os minutos, de todas as horas. Dir-se-ia que só havia no mundo uma mulher e que esta mulher era Arlete. Esperou ainda dois dias. Findo este prazo, nomeou a menina sua secretária. Avisara Aristides: 

“Vou entrar de sola”. E, com efeito, não teve maiores cerimônias. Começou com uma pergunta aparentemente inofensiva:

“Você ganha aqui quanto?”. Um pouco surpresa, ou contrafeita, Arlete respondeu:

— Dois mil cruzeiros.

— É uma miséria! Uma vergonha!

E foi só, por esse dia. Mas, de noite, em casa, Vadeco não conseguiu dormir. Aristides, que o levara em casa, lembrou-lhe: “Não te disse? É batata”. Vadeco, do fundo de sua angústia, teve o desabafo feroz:

— O dinheiro compra tudo!

No dia seguinte, entrou no escritório com uma garrafa de uísque debaixo do braço. Pouco depois, o contínuo trazia o copo e, então, no seu desespero contido, começou a beber. O álcool o tornava cruel e cínico.

Fez, de repente, a pergunta:

— Você é séria?

Arlete, que procurava no arquivo de aço uma ficha qualquer, virou-se, espantada.

Não ouvira direito: “Como?”. Ele repetiu. E ela, sem desfitá-lo, respondeu: — “Sou”.

Ergueu-se, aproximou-se:

— Tem certeza?

— Absoluta.

Durante alguns instantes, olharam-se apenas. Ele voltou para a secretária, sentou-se na cadeira giratória. Arlete parara o serviço e não perdia nenhum de seus gestos. Foi então que Vadeco com a voz estrangulada disse:

— Queres ganhar cem mil cruzeiros?

A princípio, Arlete entendeu “cem cruzeiros”. Vadeco teve que repetir:

— Cem mil cruzeiros. Cem contos! Queres?

Encostara-se no arquivo de aço, como se lhe faltassem forças. E duvidava ainda:

“Cem contos?”. Mas já não estava mais segura de si mesma. Quis saber: “A troco de quê?”. Vadeco estava, de novo, a seu lado; implorava:

— Basta que passes, comigo, uma hora, no meu apartamento. Só uma hora. Cem contos por uma hora! 

E, ali mesmo, diante da menina atônita, encheu o cheque e o passou a Arlete. Num breve deslumbramento, a moça lia: “Pague-se ao portador ou à sua ordem...”.

Reagiu, desesperada, gritando:

— Mas eu sou noiva! Não percebe que eu sou noiva? Que vou casar no mês que vem?

Tiritando, como se uma maleita o devorasse, disse-lhe que a esperava, no dia seguinte, às dez horas, no apartamento. Escreveu o endereço num papel, que entregou à garota.

— Cem contos por uma hora. Só por uma hora e nunca mais. Voltarás com este cheque. Cem contos, ouviste? Cem contos! — E parecia possesso.

O CHEQUE

Quando Aristides soube tomou um choque: “Cem contos ? Você está maluco, completamente maluco!”. Fora de si, Vadeco repetia
a pergunta: “Será que ela vai?”. O outro fez a blague desesperada:

“Por cem contos, até eu!”. E o fato é que, na sua febre, Vadeco estaria disposto até a dobrar a quantia. Que ria vê-la nuazinha, em pêlo.

Mas no dia seguinte, pela manhã, Arlete, que não dormira, levantou-se transfigurada. Jamais uma mulher se vestiu com tanta minúcia e deleite. 

Escolheu sua calcinha mais linda e transparente. Ela própria, diante do espelho, sentiu-se bonita demais, bonita de uma maneira quase imoral. Aristides marcara uma hora matinal, de propósito, para evitar suspeitas. E foi assim, bem cedinho, que ela tocou a campainha do apartamento, em Copacabana.

Antes que Vadeco, maravilhado, a tocasse, Arlete fez a exigência mercenária:

— O cheque!

O rapaz apanhou o talão na carteira e entregou. Arlete leu ainda uma vez, verificou a importância, assinatura, data etc. E, súbito, numa raiva minuciosa, rasgou o cheque em mil pedacinhos. Vadeco ainda balbuciou:

“Que é isso? Não faça isso!”.

Ela o emudeceu, atirando os fragmentos no seu rosto, como
confete. Petrificado, ele a teria deixado ir, sem um gesto, sem uma palavra. Ela, porém, na sua raiva de mulher, esbofeteava-o, ainda. Depois, apanhou, entre as suas mãos, o rosto do rapaz, e. o beijou na boca, com fúria. 

EU MATEI NELSON RODRIGUES
TEATRO DA SUBPREFEITURA DA ILHA
DIA 24/8 18:00 HORAS
RUA ORCADAS 435 ILHA DO GOVERNADOR (AO LADO DO ILHA PLAZA)
INGRESSO: 1 QUILO DE ALIMENTO PARA A ONG SOLIDARIEDADE

        

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