sábado, 2 de agosto de 2014

DISPUTA DE SAMBA: A BOLHA


*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 29/7/2014


O Pedro Migão pediu para que escrevêssemos uma série sobre disputas de samba. Sinceramente não sei porque já que é um assunto que não muda, não se renova.

Eu já falei desse assunto inúmeras vezes aqui e em meu blog, outros colegas também e se quiser saber mais sobre as disputas de samba-enredo é só procurar por essas crônicas.

Mas vamos lá, vamos falar do assunto. Um concurso de samba-enredo é um local onde caras vaidosos e gananciosos se juntam para tentar ter a honra de ser os autores do samba-enredo, ou seja, do tema musical que a escola levará pra avenida.

Tudo muito bonito, tudo muito legal. O problema é que um concurso envolve muito dinheiro, tanto para levar um samba a final e vencer quanto de direitos recebidos pelos compositores. Não vou entrar em detalhes sobre pra que serve o concurso, como ele é realizado e o fato da maioria que se diz compositor não o ser porque já cansei de falar sobre isso aqui.

Quero falar de outras coisas.

Eu não ia escrever samba esse ano. Estava decidido a isso porque além de estar focado em outras coisas como minhas peças teatrais que começam a ser encanadas por algumas cidades do país eu estou um pouco cansado. Não do meio do samba e dos inúmeros amigos que fiz nele. Mas dos rumos da coisa.   

Semanas atrás meu amigo e irmão Cadinho começou a encher o saco porque queria fazer samba pra União da Ilha. Relutei, falei que não queria e ele foi montando a parceria. Um grupo todo de amigos e alguns com os quais nunca escrevi e tinha muita vontade. Acabei mudando de ideia e topando mesmo sem estar no clima.

Agora vou mostrar o porque de não estar com muita vontade.

Demos dois apelidos para nossa parceria, a “Beleza dura” brincando com o título do enredo e “Parceria dos refugos” porque tivemos que juntar três ou quatro parcerias em uma só para concorrer.

Somos umas doze pessoas no grupo onde só seis podem assinar. Eu fui o primeiro a dizer que não quero assinar pelos motivos citados acima. Doze pessoas em uma parceria de samba parece ser um exagero e é.

Mas temos motivos pra isso.

As principais parcerias da escola que ano a ano já se fundiam formando novas parcerias fizeram novamente isso esse ano. Um dia essas principais parcerias já foram seis ou sete, recentemente passaram para quatro, hoje todo o poder financeiro e político da União está resumido a duas parcerias.

Parcerias enormes que envolvem mais de dez pessoas. Gente com dinheiro, política, comunidade e talento que se uniram para poder vencer o samba. Até o multicampeão e talentosíssimo vice-presidente da escola Djalma Falcão pediu licença de seu cargo para concorrer.

Então me diz. Como ter alguma chance? Nem digo de vencer, mas de ser notado? Só fazendo o que fizemos. Unindo uns doze que “sobraram” na união dessas super parcerias.

Isso não é exclusivo da União da Ilha. Em todas as escolas de samba ocorre isso encarecendo as disputas de uma forma absurda. O encarecimento vira uma bola de neve porque assim como surgem essas parcerias poderosas e riquíssimas as outras coisas encarecem por saber da bala na agulha que esses grupos tem.

Nem vou falar de sambas de escritório porque já estou de saco cheio de falar sobre isso. Vou falar desses grupos como se todos fossem oriundos das escolas. O samba saísse exclusivamente deles.

Essas superparcerias montam super palcos. Alguns com até três cantores do grupo especial. Evidente que cantores e músicos sabendo do poder financeiro desses grupos encarecem seus preços.

Acredito que nenhum cantor do grupo especial hoje peça menos que quatro dígitos pra defender um samba. Um cantor médio, daqueles que tem talento, mas não mudam a história de um concurso nem tem nome para isso já pedem perto de um salário mínimo.

E esses grupos pagam aos cantores e músicos esses valores absurdos. Acontece que esses cantores e músicos pedem esses valores a todos, os que pertencem a esses grupos ou não porque sabem que os outros também terão que pagar pra ter alguma chance.

Além disso, nos últimos anos temos visto o fenômeno de artistas de meio de ano entrando no mundo do samba. Geralmente são artistas importantes, famosos, que passam por um viés de baixa e veem no samba-enredo uma forma de ganhar dinheiro e estar em evidência.

Entraram e gostaram já que a maioria vence. Ter esses artistas concorrendo e vencendo é propaganda gratuita para eles e para as escolas. Dessa forma artistas como Elymar Santos e Dudu Nobre repetem a experiência. Dudu até aumenta seu poder de fogo e além da escola do coração concorre em escolas do acesso e de São Paulo.

Quem trouxe esses artistas para o samba foram os caras que tem grana, quem trouxe os caras da grana para o samba foram os compositores pobres, talentosos e que precisavam investir.

Com o tempo os caras da grana perceberam que não precisavam desses compositores pobres, podiam comprar seus sambas e os afastou. Alguns desses artistas já estão trazendo outros artistas para o meio e vão perceber que não precisam nem do compositor pobre nem do cara da grana porque com o nome que eles têm e aprendendo a conhecer a comunidade com os anos passados na escola concorrendo o artista perceberá que eles bastam.

Aí chegará o ano que Ronaldinho Gaúcho perceberá que não precisa investir numa parceria como fez ano passado na Ilha. Vai perceber que uma parceria dele, seu irmão, Wagner Love e Adriano encomendando samba para algum pagodeiro terá até mais chance de vencer.

Assim como Elymar Santos vai perceber que uma parceria dele com Jorge Vercilo, Djavan e Fágner terá mais mídia e mais atração para patrocinadores que com um monte de desconhecidos.

Moral da história: O malandro do samba é o otário de amanhã. O compositor, classe gananciosa, vaidosa e sem nenhum tipo de união provoca e alimenta o animal que ira lhe comer. No mercado financeiro chamam de bolha um momento como esse.
Em alguma hora irá explodir.

Por isso sou a favor do fim dos concursos de samba-enredo. Mas falarei disso quando os mesmos começarem. 

 

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