quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O LEGADO DA COPA


*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 3/8/2014


Algumas coisas ocorreram e acabou que não consegui fazer essa coluna que gostaria de fazer após o último jogo do mundial.

E teve copa.

Não só teve copa, teve muita copa. Ao contrário dos teóricos do caos e também, porque não, do bom senso, deu tudo certo.

Mas o Brasil curte esse drama todo pra fazer um evento. Quem conhece bem o Brasil sabe que daria.

Lembro bem da ECO 92, a reunião com os maiores chefes de estado do mundo para tratar do meio ambiente. Foi no auge da propaganda da violência no Rio de Janeiro, período que tinha arrastão na praia com hora marcada e exclusivo pra Globo. Era um desespero só.

Todos se perguntavam como o Rio passando por aquele drama conseguiria fazer um mega evento como a ECO. Ninguém acreditava, mas deu certo.

Como deu a copa e dará as Olimpíadas. O Brasil é uma gambiarra que deu certo. Faz um puxadinho aqui, amarra um bombril ali e a coisa funciona.

Não era pra funcionar. Ficou tudo bem mais caro que o previsto, as tais promessas para o tal legado ficaram em boa parte nas promessas, muita gente enriqueceu e o povo foi pras ruas protestar contra a copa.

É. Mas assim mesmo deu certo.

Porque como disse o Brasil é uma gambiarra que deu certo e com o tempo aprendemos nessa querida terra que basta os governantes não atrapalharem que o povo garante o sucesso do evento.

Tudo ficou muito longe do ideal, mas não ficou vergonhoso. Não viramos nenhuma Alemanha em organização, mas deu pra levar e dando pra levar o povo garantiu o sucesso do evento com seu habitual e já conhecido acolhimento. Povo bacana, simpático e que sempre tratou bem os turistas.

Os turistas vieram no clima do Brasil também. Queriam farrear, aproveitar, curtir muito o Brasil e suas belezas, com poucas exceções, e assim existiu o congraçamento fazendo aos poucos que o medo cedesse lugar a alegria.

O futebol dentro de campo também ajudou. Torcidas coloridas, animadas e entrelaçadas viram um excelente nível técnico de jogos, o melhor nível em muitas copas. Grandes goleadas, gol bonitos, craques surgindo e se confirmando. Foi bacana.

Dessa forma o Brasil conseguiu vencer essa copa que parecia perdida. A de organizador de evento.

Só não entendi e continuo sem entender o tratamento a Dilma. Sem entrar em política, mas onde o governo da Dilma está tão pior assim que os anteriores que mereça tantas vaias? Estamos muito longe do ideal. Corrupção, crise econômica, mas posso dizer que já tivemos períodos tão bons quanto esse no Brasil, melhor não.

Me parece coisa orquestrada, misturada com um certo preconceito com o fato do PT defender os mais pobres e o cansaço do povo com a inércia do PT a corrupção.    

Mas me parece um equívoco a forma que trataram uma chefe de Estado que bem ou mal fez a copa. Ela foi bem sucedida e errou ao entregar a taça de cara feia, claramente incomodada com as vaias. Era seu momento, sua hora e com certeza usará a copa como propaganda a favor na campanha.

Evidente que no Maracanã tinha uma classe mais abastada e a classe mais abastada não gosta do PT, se fosse um evento no meio de pobres não acredito que ela fosse vaiada. Mas o PT no alto de sua arrogância se esquece que elite também é povo e um governo tem que governar pra todos. Se existe um grupo incomodado, mesmo achando que foi coisa orquestrada, tem que saber e entender o porque.

Sou sim eleitor da Dilma, mas repudiaria vaias a FHC ou a qualquer tucano e acho que a melhora do país começou sim com o PSDB. O PT melhorou ainda mais, mas disso tudo falo mais a frente.

Curioso que fomos bem sucedidos onde acharíamos que seria um fracasso e um fracasso onde acharíamos que seríamos bem sucedidos. Tudo bem, podem dizer que bem ou mal  4° lugar não é um fracasso, mas nas circunstâncias que foram podem sim.

O Brasil jogava copa em casa, nunca mais terá uma chance dessas e é inadmissível que seja eliminado dessa copa em casa tomando de 7 e as pessoas ligadas a CBF tratarem um resultado desses como “apagão”.

Foi uma copa péssima e medíocre feita pela seleção, com descontrole emocional e fraqueza de elenco assim como foi em 2010 e provavelmente será em 2018 porque o Brasil não revela mais jogadores.

Não revela porque foi criada uma lei idiota chamada lei Pelé que praticamente mata os clubes e fortalece os empresários. Não interessa aos clubes, principalmente aos pequenos de onde surgiram vários craques, revelar jogadores se faltando seis meses para acabar um contrato ele pode assinar com outro. Quem se dá bem com tudo isso é o empresário que negocia o moleque que nunca foi visto jogando aqui e já está no exterior. 

Os clubes não revelam mais e quando revelam fazem isso mal. Nossos técnicos e professores estão defasados e privilegiando o físico em detrimento da técnica. Ensinam desde cedo a “pegar”, a “matar a jogada” e assim o talento vai rareando.

O Brasil imita a antiga Alemanha e a Alemanha o antigo Brasil. Não é coincidência a seleção alemã ter sido tão amada no Brasil. Ela foi a verdadeira seleção brasileira.

E pelas novas escolhas da CBF não me parece que isso vá mudar.

Tudo bem, não tem como acabar com a lei Pelé. Os jogadores alegaram que eram escravos, mas nunca vi escravo ganhar cem mil por mês. Podiam dar um jeito de proteger mais os clubes e fortalecer nossos campeonatos. A CBF poderia também abrir CTs pelo país para garimpar jogadores, mas esses caras só querem saber de dinheiro.

Eu sou a favor de uma intervenção na CBF, vale a pena ficar alguns anos punido se for pra limpar o futebol brasileiro.
O tempo da gambiarra tem que acabar dentro e fora do campo.

Que esse seja o legado da copa.    


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