segunda-feira, 19 de agosto de 2013

VAI COMEÇAR DE NOVO..FATUMBI - A MÃE DE TODAS AS DISPUTAS




Nessa coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 21 de agosto de 2011 fecho a trilogia “Vai começar de novo” com a maior das disputas de samba-enredo que vi até hoje.


Vai começar de novo... A mãe de todas as disputas



Fechando a trilogia “vai começar de novo”, em que falei de minha carreira como compositor de samba-enredo, falarei com mais detalhes da primeira disputa de minha vida. 

O torcedor da União da Ilha, aquele que frequenta as quadras, tem imenso carinho pelas disputas de samba da agremiação. A União da Ilha é uma das escolas com ala de compositores mais forte e famosa e com sambas inesquecíveis. Suas disputas sempre são de alto nível, com muitas opções de sambas campeões.

E aquele ano foi um ano especial onde todos lembram com muito carinho. Compositores que participaram daquele concurso lembram-se dela até hoje e ela foi conhecida por uma grande virada. Falo da disputa para o carnaval de 1998 com o enredo “Fatumbi – A Ilha de todos os santos”.

Como eu disse em colunas anteriores, eu sempre gostei de carnaval, mas nunca tinha pisado em uma quadra de escolas de samba e vi na coluna de um jornal que tratava de sambas que a União da Ilha entregaria as sinopses sobre o enredo e a ala estava aberta. Eu nunca tinha visto aquele tipo de anúncios em um jornal
e nunca mais vi. Acho que foi destino, ainda mais com a parte que falava “ala aberta”.

Para quem não sabe, antigamente o compositor tinha que prestar concurso para entrar em alas de compositores. Ele precisava fazer um samba sozinho e mostrar no palco para os compositores consagrados da agremiação com ele mesmo cantando. De dez, doze inscritos apenas três ou quatro eram admitidos.

Hoje em dia não é mais assim, o que permite que muita gente que nem saiba segurar uma caneta seja chamada de compositor - mas esse é assunto pra uma coluna futura.
 

Como eu disse antes fui lá com a cara e a coragem, peguei a sinopse sem conhecer ninguém, sem anotar nada e nervoso porque conhecia o carnavalesco Milton Cunha de nome. Era carnavalesco da Beija-Flor anteriormente e sua ida para União provocou uma grande surpresa. Era e ainda é algo inimaginável carnavalesco da Beija-Flor deixar a escola e ir pra União.

Mas ele foi e eu também. Peguei a sinopse e fui pra casa. Lá mostrei para minha avó e minha mãe e me tranquei no quarto pra fazer o samba. Levei meia hora mais ou menos.  

Abaixo a letra do primeiro samba-enredo da minha vida:

"Ilha, Ilha de todos os santos
Mostra hoje seus encantos
Aqui na Sapucaí
Francês lutou pela igualdade
Exemplo de liberdade
Que saudades de ti Fatumbi
                                                                                                              

Navio negreiro chegou ao Brasil
Com um povo varonil
Nascia o afro brasileiro
Corpo acorrentado
Mas na alma não tem algemas
Miscigenação é o nosso lema
A África o seduziu, Jubiabá o encantou
Na Bahia ele aportou

Viveu na áfrica, se apaixonou pela Bahia
Filho de Mãe Senhora, devoto de Mãe Menininha
Filho de Ifá, filho do destino
Percorreu um sublime caminho
Lutou por um sonho divino


Fez uma ponte cruzando todo Atlântico
Aprendeu todos os cânticos
Virou Oju Obá no candomblé
Fotografou, a beleza, a riqueza ele mostrou
Me conta o segredo meu babalaô
O mundo vamos mudar com a nossa fé
Pierre Verger a Ilha desfila pra você
O Sol para todos nasceu
Sangue negro em sua veia correu
África na alma, Bahia no coração
Vamos todos celebrar nossa união

Canta meu amor, é dia de folia
Abre ala avenida, pra escola simpatia
"



Como já disse anteriormente, meu pai tentou a contratação do Cadinho - que já cantaria um samba; então contratamos Dãozinho e
Ricardo. Eram cinquenta e três sambas na disputa, caíram vinte de cara - entre eles o meu. Ali naquela disputa foi só o começo da minha caminhada. 

Ela prosseguiu como vocês já viram, mas como a coluna de hoje é sobre esse concurso pelo menos a minha parte na história como compositor se encerra aqui - continuando só a de espectador. Como compositor em Fatumbi fui coadjuvante, quase figurante.
 

Aquela foi uma disputa especial. O Império Serrano havia caído para o grupo de acesso do carnaval, então seus compositores ficaram “sem casa” no Grupo Especial. Alguns como o meu xará, o brilhante Aluisio Machado concorreram na agremiação, mas não foi muito longe nem chegando entre os dez. 

Outro que se aventurou no concurso foi o cantor de funk Buchecha. Estava na crista da onda, fazendo sucesso nacional, mas também não foi longe.  
 
 Mas do Império Serrano veio uma parceria forte comandada pelo compositor “Mais Velho” e com samba interpretado pelo na época Rixxa (sei que hoje o nome dele não se escreve mais assim, mas não ouso tentar escrever). Rixxa tem apelido de “Pavarotti do samba” devido à sua voz poderosa. É considerado um dos grandes do nosso carnaval.

O samba despontou logo como favorito. Era uma composição maravilhosa: bonita, melodiosa, letra linda que tinha um refrão forte:

“Alô você, sou a Ilha
Sou o Sol da liberdade na folia
                                                                                                      
Luz que ilumina o meu viver
Sou União Fatumbi Verger”
 

Como dizem as gírias do samba de hoje, o samba era uma “porrada”, uma “patada de elefante” e dava mostras de ser campeão.

Mas a ala de compositores da Ilha não é de bobeira, além de talentosa sabe fazer política interna como ninguém e quase todos os compositores principais da agremiação estavam no concurso. Bujão estava na Grande Rio, J.Brito na Mocidade e Franco não concorreu, mas Marquinhus do Banjo, Carlinhos Fuzil (campeão no ano anterior), Bicudo, Djalma Falcão, Dito, Jota Erre estavam no concurso.

Mauricio 100, Almir da Ilha e Marcio André também, mas deles falo depois.
 
Eu não faltei a nenhuma semana da disputa e logo fui cooptado pelo meu amigo Paulo Travassos para entrar na torcida do samba de Dito e Jota Erre, interpretado pelo Wander Pires (foto) e por meu hoje amigo e parceiro Roger Linhares. Era samba muito forte também, com refrão poderoso:

“Aos orixás eu peço a fé
Pro meu povo axé
Na minha festa tem batuque e candomblé”    


Fui caminhando com esse samba até o fim, participando de seus churrascos no morro do Guarabu e depois pegando bandeira para torcer nas eliminatórias. Na final aconteceu um fato curioso.
 
                 
Estávamos lá no morro eu, minha mãe e minha avó. Em determinado momento passa um rapaz com uma “coisinha” na mão e minha avó aponta e ri dizendo “olha, ele usando arma de plástico”. Minha mãe vira para ela e diz “fala baixo que é de plástico não, é de verdade”...

Esse foi um dos fatos engraçados que guardo do concurso. Outro foi na noite que a Lady Di morreu. Cheguei à quadra, aquele clima de comoção todo e Milton Cunha que era o mestre de cerimônias da escola pega o microfone e diz: “genteeeee, princesa não morre não, é igual bicha - vira purpurina”.

Voltando ao concurso. Curtia aquele samba, era bonito, pegava bandeiras e cantava no meio da quadra. Contudo, não era meu favorito.
 
Como também não era meu favorito o samba de Djalma Falcão (foto) e Bicudo que era um samba lindo, poético, melodioso. Samba 'estilo Djalma Falcão'. consagrado nos anos seguintes na escola, mas que tinha um refrão que hoje podemos dizer que era um mico, o refrão “trash” do ano:

“Tira o pé do chão, vem sacudir
Batendo palmas para Fatumbi”


Outro dia encontrei o Djalma e já tendo certa intimidade com ele tive que brincar com esse refrão e ele reconheceu que era ruim demais. O samba caiu entre os sete.
 


Como também não era meu favorito o samba de Carlinhos Fuzil e Marquinhus do Banjo (foto). Não lembro o refrão desse samba, mas lembro de uma apresentação apoteótica dele. No dia que o som
acabou e Marquinhus levou o samba sem microfone mesmo, na garganta e com o público todo acompanhando. Uma grande apresentação na semifinal - justo no dia que caiu...

Semifinal que foi realizada em um sábado com a final sendo domingo. Quando foram anunciados os finalistas Milton Cunha disse no microfone que o campeão seria escolhido por palmas. Decisão controversa e evidente que foi “jogada pra galera”: nenhuma escola decide assim, como nenhuma escola decide samba em final (com exceções que confirmam a regra). A União da Ilha já tinha seu samba e eu também. 

Mas afinal, para qual samba eu torcia?

Eu torcia para aquele que atropelou na reta final. Quando todos pensavam que o samba de Mais Velho venceria ele começou a crescer, a arregimentar fãs, sua torcida aumentar e teve como peça importante dessa virada o fato de Rixxa ter sido contratado pela União da Ilha para ser o intérprete na avenida - e assim abandonar o concurso.

Foi a senha para a virada deste samba, que tinha no refrão:

“Vem ver, vem ver
A bateria arrepiar
Xirê, Sapucaí vai tremer
Pra Fatumbi Oju Obá”

Era o samba de Almir da Ilha, Mauricio 100 e Marcio André. Magistralmente defendido pelo Mauricio 100 (foto) e que conseguiu no fim da disputa virar o jogo. Uma virada com a cara de Marcio André, que é considerado por todos na Ilha do Governador como
uma das maiores “raposas” em matéria de concurso de samba-enredo. 

O samba chegou absoluto na final e não deixou dúvidas que seria o vencedor. 

Na hora do resultado Paulo Travassos foi para fora da quadra com medo de confusão e falou pra eu ir também. Mas eu fiquei. Fiquei do lado do palco e vi assim ser anunciado pela primeira vez um samba campeão. Vi a explosão na quadra e a emoção dos compositores vencedores.

Os compositores que concorreram foram convidados a subir no palco pra confraternizar. Tentei, mas fui barrado pelo segurança que não me conhecia. Paulinho Rocha - campeão do ano anterior - viu a cena e mandou que me liberassem e subi com o pensamento prometendo que ainda subiria ali campeão da escola (e subi).

E foi uma grande emoção, uma grande confraternização. De grandes compositores que fizeram obras maravilhosas para aquela que acho a “mãe de todas as disputas”. Vi e participei de muitas disputas depois, mas essa pra mim é inesquecível.

Alguns compositores deixaram de concorrer, outros morreram. Mas a história de Pierre Verger, que eu não conhecia, começou a fazer parte da minha vida. Fiquei com Jubiabá na memória e mudei minha trajetória. Nascia ali o compositor de samba-enredo e o sonho de subir naquele palco como compositor campeão não morreu, só aumenta a cada dia.

Porque como disse no meu samba, alma não tem algemas, ela é
livre pra sonhar e dela vem nossa força.

Vem de lá, o dom divino....



VAI COMEÇAR DE NOVO


UMA ODISSEIA NA SAPUCAÍ   http://www.aloisiovillar.blogspot.com.br/2013/08/vai-comecar-de-novo2001-uma-odisseia-na.html

A ESCOLA DO SAMBA  http://www.aloisiovillar.blogspot.com.br/2013/08/vai-comecar-de-novoa-escola-do-samba_12.html

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