segunda-feira, 26 de agosto de 2013

1982: O JOGO QUE NÃO TERMINOU




Depois de fazer “1989: O ano que não terminou” deu vontade de continuar nesse tema e falar sobre outro ano. 1982.

O que teve de importante na minha vida em 1982? Muito pouco e se teve lembro menos ainda. Em 1982 eu terminava o maternal na maturidade dos meus seis anos de idade. Na época chamávamos esse ano letivo, o da alfabetização, de CA. Eu comecei a aprender, mas lia devagar, com dificuldade. Depois percebi um dos garotos da turma lendo e escrevendo rápido aí me aprimorei e passei a ser como ele.

Sempre competitivo. Nisso me ajudou.

Em 1982 lembro que fazia natação. Lembro que minha avó bateu de carro e fiquei um tempo com trauma de andar de carro. Sobre isso falo melhor mais tarde. Lembro de Manuela também.

Manuela já foi citada na coluna “As mulheres da minha vida”. Loirinha, bonitinha com cinco anos de idade (caramba, a Bia já tem quatro, será que vai pintar gavião de seis em cima dela?) “disputei seu amor” com um amigo e venci. Uma das poucas vezes que venci alguém nesse tipo de “competição” até hoje.

Manuela foi marcante demais na minha vida, meu primeiro amor. Também teve Renata quase na mesma época, parente de uma namorada de meu tio. Não lembro se era irmã, sobrinha, mas também foi namoradinha. As duas na mesma época já revelando como seriam meus rolos futuros. As duas com certeza não lembram mais de mim como quase todas as mulheres que conheci depois.

Mas não “chamei” vocês até aqui pra falar de Manuela e Renata por mais que merecessem. Poderia citar dois nomes pra fazer 1982 valer a pena. ET e Thriller.

ET um dos maiores filmes da história. Um dos primeiros que vi no cinema, o marco de uma geração e que nos ensinou a importância de ter um telefone pra ligar pra casa. Thriller é a obra prima de um gênio, o maior dos discos, que tem o melhor e mais revolucionário dos videoclipes, fez com que Michael Jackson deixa-se de ser um simples mortal. Disco que vendeu 104 milhões de cópias.

Dois excelentes motivos pra falar de 1982. Mas também não são eles.

Guerra das Malvinas? Fato importante. Eleições diretas pra governador? Vitória de Leonel Brizola e revelação do escândalo da Proconsult? Importantes também. Mortes de Elis Regina e Adoniran Barbosa? Fatos muito tristes.

Império Serrano campeão ironizando as super escolas de samba? Bacana. Niemeyer começando a planejar a Sapucaí? Também. Flamengo campeão brasileiro? Maravilhoso.

Mas mesmo fatos tão importantes não são motivos dessa coluna.

Qual o motivo afinal? Não darei um. Darei doze.

Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho, Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Serginho, Éder e Telê Santana. Entendeu agora sobre o que é essa coluna? O que é o ano de 1982?

ET, Thriller, Malvinas são importantes demais na história da humanidade. Mas o ano é desses doze. Os doze homens que fizeram uma nação sonhar.

E por quê estou falando nisso agora? Não falei ano passado, por exemplo, que foi aniversário de trinta anos dessa seleção?

Porque eu encontrei esses caras pela primeira vez na verdade ontem, dia anterior que escrevo essa coluna quando navegando pelo youtube, como sempre gosto de fazer quando a casa fica em silêncio, me deparei com Brasil x Itália.

Brasil x Itália, 1982.


Essas palavras dão calafrio em qualquer brasileiro como Brasil x Uruguai de 1950. Mas acho que para todo mundo que curte futebol Brasil x Itália marca mais por ser mais recente. Por muita gente ter visto, lembrar exatamente onde viu, suas reações e passado essa história para novas gerações.

Itália 3 x 2 Brasil é a nossa tragédia. É o nosso assassinato de JFK, nossa perda de Evita Perón, nosso 11 de setembro ou nossa bomba atômica pedindo perdão por exageros. Mas o futebol é a coisa mais importantes das não importantes que existem nesse país.

Itália 3 x 2 Brasil é o jogo mais visto do Brasil até hoje, contado em detalhes até por quem nasceu depois da partida. Paolo Rossi é um dos maiores vilões de nossa história e tudo ganha uma dose de dramaticidade só vista em nossos irmãos portenhos. Não chores por mim Brasil.
Na época da copa eu tinha de 5 para 6 anos. Lembro das ruas enfeitadas, coloridas. Pintaram vários desenhos nas ruas, calçadas, coisas que não se faz mais hoje em dia. Lembro de muita gente em minha casa nos dias de jogos e minha avó ainda colocava uma televisão no portão de casa para vermos com os vizinhos e convidados. Eram verdadeiras festas.

Lembro nada dos jogos, mas lembro das vitórias. Lembro porque confesso, torci contra o Brasil. Todo mundo feliz, torcendo e eu contra. Contra porque morria de medo dos fogos e medo porque sempre que o Brasil vencia minha família pegava o carro e saía fazendo “buzinaço” até a Zona Sul, que não era perto da minha casa.

Todo mundo feliz, o Rio de Janeiro em festa por causa da seleção e eu morrendo de medo dentro do carro lembrando da tal batida que disse acima. Então não era bom pra mim a seleção vencer.

Vinheta copa 1982


Comercial com Zico


Voa canarinho voa


Então, por tudo isso, devo ser o único brasileiro que ficou feliz no dia 5 de julho de 1982. Porque eu me livrava assim da agonia dos fogos e do buzinaço.

Inocente demais na época pra perceber que a minha alegria infantil vinha da dor. Vi as pessoas tristes, chorando..Acabaram os fogos, os buzinaços. Parecia que os “quase duzentos milhões em ação” acordavam de um sonho e embarcavam no pesadelo da realidade.

Aquele jogo sempre me marcou, o nome Paolo Rossi sempre me acompanhou. Cresci ouvindo falar do jogo, meus traumas com carros e fogos acabaram e eu comecei a entender como aquela data foi ruim. Em 1986 com 9 anos e já entendendo torci muito pro Brasil pegar a Itália nas quartas de final. Mas ela perdeu pra França e o resultado nós sabemos. Meu primeiro choro de desespero por causa da seleção quando vi a bola do Julio Cesar bater na trave.

Entendia ali o que era a dor do futebol e a dimensionar o que passaram quatro anos antes. Naquele fatídico ano de 1982.

A tragédia do Sarriá, uma coisa tão triste que os Deuses do futebol parece que reconheceram o erro e sumiram com o estádio em 1997 que virou um condomínio e um parque.

Tragédia que sempre me acompanhou de uma forma desconfortável, que não amenizou em 1994 e que ontem no youtube fui tentar entender.

O homem de 37 anos apertou o iniciar e começou a acompanhar a tragédia grega vestida de verde e amarelo. Ver o que a pouca idade não permitiu em 1982.

No começo, com a distância de 31 anos que nos separava, ri quando Luciano do Valle e Marcio Guedes projetavam uma grande vitória brasileira e o enfrentamento com a Polônia nas semifinais. Aos poucos fui me envolvendo com o jogo, parecia ao vivo. Eu que comecei vendo o jogo deitado e com sono me sentei e vi aos cinco minutos o primeiro gol de Paolo Rossi comentando comigo mesmo “que mole da defesa”.

O empate do Brasil não demorou com a genialidade de Zico e a classe de Sócrates. O doutor era elegante demais. Correndo com cabeça levantada, peito estufado como se fizesse uma tranquila corrida na praia. O domínio de bola daquele time, a classe que jogava era impressionante.

Time tão auto suficiente em sua classe e talento que tomou um gol bisonho em erro de saída de bola. O discurso otimista de Luciano e Marcio se mantinha, mas pensei me conhecendo e sabendo como vejo futebol que se fosse ao vivo já estaria tenso.

Ao vivo? Quem eu quero enganar? Não percebi, mas entrei em uma máquina do tempo e voltei a 1982, o jogo era ao vivo sim. Eu Já via o jogo sentado, olhos fixos, pessoas falavam comigo no facebook e no twitter e eu não dava importância. Poderia parar o jogo e responder, mas não fazia porque aquele jogo era ao vivo.    

Vibrei com o golaço do Falcão, o rei de Roma e lembrei de palavras de alguém da minha família na noite daquele 5 de julho que disse “parecia que ele sabia que iria perder o jogo”. O time empatou, tocava bem a bola, envolvia a Itália, torcida em festa nas arquibancadas.

Aí teve o escanteio e o lance mais incrível.

Na hora que a Itália bateu o escanteio juro pela Bia e por Gabriel. Eu gritei “Marca o Paolo Rossi porra!!”.

Eu não estava mais no meu quarto olhando a tela de um computador. Estava no estádio Sarriá despertando de um sonho junto com as pessoas que eu vi criança despertarem.

Minutos tensos se seguiam. O Brasil tentando, martelando, sofrendo contra ataques terríveis. O time da Itália ao contrário que muita gente diz era um timaço. Mas o Brasil como bem disse Luciano do Valle era de outra galáxia.

A Itália tem um gol anulado que não sei se realmente o jogador estava impedido e aos 45 do segundo Oscar deu uma cabeçada e gritei gol.

Sim, eu em 2013 gritei gol mesmo sabendo que a bola não entraria. Dino Zoff tirou em cima da linha. Pela primeira vez voltei um lance no jogo. Voltei duas vezes pra rever a cabeçada, o time brasileiro em desespero levantando os braços pedindo gol..Acho que no fundo eu tinha esperança que no replay a bola entrasse.

Mas não entrou e o tom da transmissão foi mudando. O discurso antes otimista agora era de que devíamos aplaudir aquela seleção que encantou o mundo e antes do jogo acabar com uma falta de ataque do Brasil o Luciano disse duas frases que me marcaram.

“Nunca mais esqueceremos esse jogo”.

“Que pena”.

É..Que pena. O jogo acabou, a Itália comemorou, o Brasil cabisbaixo chorou e eu fiquei com lágrimas nos olhos. Finalmente entendia aquelas pessoas de 1982 tristes e chorando. O garoto de 5 anos entendeu que fogos e buzinaços eram muito pouco perto do que aquele time representava.

Perto do fardo injusto que aqueles homens carregaram e carregam até hoje. Alguns lhes chamam de derrotados. Mas em 1982 quem perdeu foi o futebol.

Obrigado Waldir Peres, Leandro, Luisinho, Oscar, Junior, Cerezo, Falcão, Zico, Serginho e Éder. Que Deus tenha vocês em bom lugar doutor Sócrates e mestre Telê. Se eu pudesse abraçava cada um de vocês e diria muito obrigado. Pelo quê? Nem sei direito, só queria mesmo dar esse abraço e agradecer.

O jogo acabou e eu agradeci por não ter 37 anos em 1982. Acho que não agüentaria aquele jogo ao vivo pra valer e passar por aquela dor.

Imaginei a dor daqueles jogadores saindo de campo, das pessoas no estádio, vendo pela tv, as que viram comigo e por alguns segundos me senti como o menino da capa do Jornal da Tarde.

E o futebol? Continuou como a vida, se ele já não fosse uma parábola da vida. Se eu já disse aqui que 1977 com a vitória da Beija-Flor sobre a União da Ilha os rumos do carnaval foram modificados digo que a vitória da Itália sobre o Brasil também provocou isso.

O futebol mundial poderia ser outro hoje. O futebol brasileiro com certeza seria outro se a bola do Oscar tivesse entrado.

Tem certeza que não entrou? Vou ao youtube ver de novo.

Esse jogo nunca acabou e se o Brasil não empatar, se classificar e ganhar essa copa..

..Azar da Copa.

 
*O primeiro vídeo postado tem quase duas horas de duração, sei que dificilmente alguém verá todo ou alguma parte. Mas se você ama futebol veja, vai amar ainda mais.  

E rola essa bola.. 


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