sexta-feira, 16 de agosto de 2013

SETE DIAS COM ELE



Assim como fiz com a Bia resolvi escrever uma carta para o João Gabriel e lhe apresentar quando for adulto. Podem olhar, fiquem à vontade.

 
CARTA ABERTA AO MEU FILHO
 
 
E aí molecão? Beleza? Acho que sim né. Tenho certeza que essas palavras te encontram em um ótimo momento assim como as que fiz à sua irmã quando ela chegou aos quatro anos e pedi para que algumas pessoas especiais lhe apresentassem já adulta. 

Agora essas te encontram adulto também. Espero que lhe encontrem feliz. Um garotão esperto, inteligente, estudioso, com amigos e evidente que torcedor do Flamengo. Quem sabe goste de um sambinha também? Você bem que podia ser tamborinista de alguma escola de samba né? 

Seu pai sempre teve vontade de aprender a tocar algum instrumento, especialmente tamborim, mas nunca teve vocação. Só sabe escrever. 

E escreve essas não mal traçadas linhas, até porque escrevo em um computador e aqui letras ganham formas iguais, no dia que você faz uma semana. 

Sim, uma semana apenas. Cara, nessa data em que escrevo você é tão pequenininho ainda, até pra te segurar é difícil. Seu tamanho é menor que a distância entre meus dedos e o cotovelo. Quem diria que se tornaria esse garotão que tenho certeza que virou. 

Já deve ser maior que eu e já devo ser um velho cansado. Beirando os sessenta anos e espero de coração entregar essas palavras pessoalmente pra você. De como chegou a esse planeta.   

Como chegou à nossa família.

Você já é adulto suficiente para saber que uma família não é necessariamente composta por um homem, uma mulher e filhos. Vive em um mundo moderno onde espero que preconceitos estejam menores, pastores idiotas tenham se calado e a convivência e a harmonia sejam coisas comuns independente de predileções. 

Na sua família tem sua irmã, seu pai e duas mães. Duas mães que formam um dos casais mais apaixonados que já vi. Um dos relacionamentos mais longos que presenciei e que passaram por muito. 

Gabriel, você não tem noção do que elas passaram. Não posso te dizer que não acreditava que o relacionamento delas fosse durar, eu não acreditava que elas fossem durar. Não acreditava que chegariam vivas nesse dia. Muitas perdas, sofrimentos, tentações, abismo que se aproximava cada vez mais e se mostrava sedutor. Abismo que chamava com o dedo dizendo “vem” e elas se aproximavam.   

Mas não chegaram nele. Reagiram, se mostraram fortes, amadureceram e construíram essa família que você faz parte. Essa família que começou a ser criada na chegada de sua irmã. A Bia é muito especial Gabriel. Carismática, doce, inteligente, se apaixonou por você de cara. Cuidou de sua mãe na gravidez, dava beijinhos em sua barriga e cuidava do filho, no caso você, que estava em seu ventre. 

Espero e tenho certeza que vocês se tornaram grandes amigos. Que ela te protegeu e cuidou nos seus primeiros passos e que hoje você cuida dela. Irmãos são assim. Brigam, se xingam, mas são um time, um cuida do outro contra o mundo. 

É isso que eu quero de vocês, isso que eu mais quero. Fui filho único Gabriel e na hora que a avó de vocês morreu não teve ninguém pra me entender, ninguém pra passar exatamente a dor que eu sentia, para dividir. Para dar um abraço e dizer “eu te entendo”. 

Amigos eu tenho muitos e eles cuidaram de mim, me deram força. Mas a vida de todo mundo continua depois do enterro. Todos voltam para as coisas de seu dia a dia, menos quem sofreu a dor e fica numa solidão feita especialmente pra ele. Dentro de seus pensamentos nem sempre bonitos, de seus questionamentos que ninguém responde. 

Mas eu não tinha um irmão pra dividir essas coisas. Não tinha um pai pra passar a mão na minha cabeça. Fui órfão de pai vivo coisa que vocês nunca serão. Terão um ao outro e terão a mim enquanto eu estiver vivo. Pode adiantar nada, podem precisar de mim e eu não ter como resolver, mas eu estarei ali do lado de vocês e muitas vezes só disso que precisamos. 

Deve se perguntar. Se elas se amam tanto como entrei nessa história? Sei lá Gabriel. Talvez eu seja algumas vezes o ponto de equilíbrio. Devo ter sido em algum momento o alicerce, como já foram pra mim também. O que importa é que deu certo. Essa estranha família de duas mães e um pai que acabou dando uma família numerosa a vocês com bisavós, avós, tios, primos, tudo que alguém precisa. 

Sua irmã aproveitou muito. Ela foi criando, consertando essa família e aproveitando. Você chegou em algo mais estruturado, teve essa sorte. 

Você foi mais bem pensado, melhor planejado. Você veio em uma conversa e combinação nossa. Na primeira tentativa não deu certo, mas no mês seguinte estava aqui.  

Foi todo cuidado durante a gestação. Sua mãe foi muito zelosa com você, fez todos os exames e tomou os medicamentos necessários. Teve problemas, se arriscou, mas o tempo todo apenas pensou em você e que você viesse bem. Tudo isso com a Renata ao lado. Você foi muito amado e principalmente, muito pedido e querido. 

Era esperado no começo de setembro, mas apressado dava indícios que viria antes. Deu alguns sustos, até que.. 

..Até que o destino resolveu trabalhar. 

Sua mãe foi para o hospital na madrugada de 7 para 8 de agosto de 2013. Não, não podia ser, de novo não. 

Como você sabe sou de 9 de agosto e mais, sua bisavó Lieida também de 9 de agosto, Eu nasci em 1976 no aniversário de 43 anos dela e você estava arriscado a vir na mesma data. No meu de 37 e no dela de 80. Presente de 80 anos para ela. Três da mesma família no mesmo dia, mas como?
 
Uma pessoa tem 365 dias no ano pra nascer. Qual a chance de nascer no mesmo dia que o pai? Pior, qual a chance de nascer no mesmo dia do pai e da bisavó? 

Coincidência? Não acredito em coincidências. Maktub, está escrito e Deus além de ser todo feito de amor é bem humorado, “gozador”, desculpe Senhor, mas é sim e decidiu “vou brincar com eles”. 

E brincou. Fez dos dias 8 e 9 angustiantes. Quando parecia que você estava próximo de nascer não vinha, parecia que você resolveu brincar também. Todos angustiados, tensos. Dia 9 chegou, sua mãe num rompante arriscado e que se mostrou certeiro fugiu do hospital e foi para outro. Tudo preparado pro seu parto e dia 9 perto do fim, nada de notícias.. 

..Até que a Renata ligou pra dizer que nascera. Recebi esse telefonema quase às 23:30Hs. Eu nasci 23:50Hs de um dia 9 de agosto, você às 21:25Hs. 

Você chegou ao mundo me emocionando, me fazendo chorar. Aliás, você e sua irmã são sacanas. Sua irmã nasceu no dia que ganhei um prêmio de samba. Soube da notícia ao descer do palco. Você nasceu no dia do meu aniversário. 

Presentes de uma vida, presentes para toda uma vida. 

Fui te conhecer no dia seguinte e logo depois fui na Portela estrear nosso samba concorrente para 2014. No dia seguinte voltei ao hospital.

 Era um domingo dia dos pais. Dia de Fla x Flu.

Oito anos antes em um domingo de Fla x Flu fui visitar sua avó Regina no hospital. Assim como no seu nascimento perdi o jogo para ir a um hospital. Só que em 2005 foi uma despedida. Uma despedida doída porque no fundo eu e ela sabíamos que ali era o fim. Ela apertava minha mão, respirava forte e olhava assustada pra mim sem dizer nada. Eu não entendi o que ela queria me passar. Estava se despedindo de mim. 

E em mais um dia de Fla x Flu voltei a um hospital. Mas ali não era despedida, era um “prazer em te conhecer”. Você ali entrava na minha vida da mesma forma que sua avó nunca saiu. 

Em 2005 cheguei em casa a tempo de ver o Fluminense vencer e o Flamengo fazer gol de honra no fim da partida. Em 2013 cheguei em casa a tempo de ver o Flamengo vencer e o Fluminense fazer gol de honra no fim da partida. 

Maktub Gabriel. Todos os grandes fantasmas da minha vida exorcizados e você ajudou nisso. 

Você chegou em casa apenas dois dias antes que eu escrevesse essa carta. Ainda estamos nos conhecendo. Não tenho muito a te oferecer ainda, só meu colo de vez em quando e sendo sincero e sei que você entenderá isso hoje eu tenho muito mais intimidade com a Bia que com você. Te vejo rapidamente duas, três vezes por dia e passo muito mais tempo com ela.  

Mas temos todo o tempo do mundo para criar intimidade, ter o nosso entendimento. Com a Bia foi assim e assim será com você. Mas saiba Gabriel que já te amo muito. Se sua irmã é minha princesa você é o meu garotão e te garanto e sei que ao ler essa carta você dirá que eu cumpri é que teremos uma história muito bacana juntos. 

Meu anjo Gabriel. O menininho de bochechas rosadas, olhinhos pequenos e que eu darei um forte abraço quando acabar de ler. 

Você e a Bia são meu tudo.
 
 
Você e a Bia são eu. 
 
 
Pra finalizar deixo a letra de uma música que compus pra você essa semana. Por não estar totalmente dominada ainda não gravarei vídeo passando vergonha como fiz pra sua avó e a Bia. Mas prometo que ainda esse ano gravo esse vídeo. 

Tadinho. Com uma semana de idade e já aturando o pai e “seus micos”.

Vai se acostumando.

 
O ESPELHO E A ESTRADA

 
O espelho que reflete minha vida
Que um dia já mostrou um choro meu
A face do adeus na despedida
Lamento que o poeta escreveu 

Agora só reflete esperança
Amor que o destino escolheu
Na forma de um sorriso de criança
Olhar que vê no espelho um filho teu  

A vida, que é bonita, também trouxe dissabor
A tristeza desceu meus olhos, a saudade em mim morou
Perdi quem mais amava, pra sempre hei de amar
Me senti sozinho tendo estrada pra andar  

Mas a vida se fez poesia
E alguém lá em cima de mim cuidaria
Mandou duas estrelas brilharem e descerem do céu
Filhos de seu filho, continuam seu papel 

Mas a vida se fez poesia
E alguém lá em cima de mim cuidaria
Nessa estrada eu vou, com a luz que apaga jamais
O espelho refletiu a minha paz


 
FAMÍLIA


OITO ANOS SEM ELA http://www.aloisiovillar.blogspot.com.br/2013/04/oito-anos-sem-ela.html


QUATRO ANOS COM ELA http://www.aloisiovillar.blogspot.com.br/2013/05/quatro-anos-com-ela.html


 

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