segunda-feira, 12 de agosto de 2013

VAI COMEÇAR DE NOVO..A ESCOLA DO SAMBA



*Publicado no Ouro de Tolo em 14/8/2011


Seguindo na trilogia iniciada semana passada, depois de falar como venci meu primeiro samba contarei o início de tudo. Como virei compositor de samba-enredo. Se tem uma coisa que quem conviveu comigo em minha infância e adolescência nunca imaginou é que eu viraria compositor de carnaval. 

Poderiam pensar qualquer coisa. Que eu virasse presidente da república, bicheiro, ginecologista, ator de filmes pornográficos, cafetão, criador de alguma idéia genial em informática que me faria milionário usando óculos fundo de garrafa (e virgem), um poderoso narcotraficante ou chefe da Al Qaeda... Qualquer coisa menos
compositor de samba-enredo.

Eu era aquele moleque meio introvertido que se dava mal com as menininhas, era o último a ser escolhido quando tinha alguma prática esportiva e em vez de brincar na rua ficava em casa lendo ou brincando com bonecos de super heróis. Por ser filho único e brincar sozinho desenvolvi minha imaginação e criava histórias. Com minha avó dona Lieida aprendi a gostar de arte, me levava ao cinema, teatro, me dava livros. Com minha mãe dona Regina aprendi a gostar de revistas em quadrinho, em especial da "Turma da Mônica".

E assim brincando sozinho, tendo que usar a imaginação pra brincar, lendo muito, vendo filmes, revistas, um dia descobri que tinha pelo menos um dom na vida. Sabia escrever.

Vinte e cinco anos atrás, em 1986, decidi criar revista em quadrinho em homenagem ao programa que eu mais gostava que se chamava “Armação Ilimitada”. Durante dois anos escrevi essas revistinhas com um desenho péssimo, mas até que com historinhas interessantes para um garoto de dez anos. Em 1989 com treze comecei a escrever pequenos roteiros que imaginava para cinema e com quinze anos em 1991 a primeira música - fiz em homenagem a uma menina de quem eu gostava.

A música era ruim, a menina foi mais uma das que não quis nada comigo, mas pelo menos somos amigos até hoje e rimos muito desse tempo. Para ela também criei um herói, baseado em mim claro, que sempre se dava mal ao tentar resgatá-la.

Com o tempo aprendi a fazer músicas melhores. Algumas guardo até hoje e gosto muito, mas nunca samba-enredo, aliás nenhum
tipo de samba. Meu sonho era ter uma banda de rock e criava bem mais neste gênero. Contudo, sempre gostei de carnaval.

Eu era do tipo “menino maluco” para meus colegas de sala de aula que em vez de ir brincar carnaval varava a madrugada vendo os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e decorava todos os sambas.

Descobri esse gosto pelo samba-enredo em 1985, quando vi uma reportagem no 'RJ-TV' com uma cartomante dizendo para o Castor de Andrade (na época patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel) que ela seria campeã do carnaval. Fiquei curioso com essa profecia e resolvi acompanhar os desfiles torcendo pela Mocidade.

E a Mocidade desfilou muito bem, com um samba que sou apaixonado: “Ziriguidum 2001”. Eu via a apuração dos desfiles feliz da vida porque a Mocidade venceria o carnaval, mas... mas durante a apuração descobri que existia uma escola do meu bairro, a União da Ilha do Governador. Naquela apuração ela estava descendo pro grupo de acesso.

Na hora mudei de Mocidade para União da Ilha, a Mocidade venceu, a Ilha desceu e eu perdi minha única chance até hoje de ser campeão do carnaval.
 

Mas em uma virada de mesa a União da Ilha ficou e eu ano a ano fui me apaixonando cada vez mais pela escola, a ponto dela dividir com o Flamengo meu
coração. Assim como via Zico, Bebeto, Renato, Junior, Leonardo, Andrade como ídolos eu via Aroldo Melodia, Quinho, Franco, Didi, Bujão, J.Brito, Mauricio 100, Carlinhos Fuzil, Marquinhus do Banjo e Ito Melodia.

E como todas essas paixões se juntaram? Escrever, carnaval e União da Ilha?

Comecei a pensar sobre no carnaval de 1994. Cheguei a falar com meu pai sobre isso, mas como eu me mudaria pro Mato Grosso não levei adiante. Voltei a ter essa idéia em 1997 quando lendo uma coluna de samba em um jornal vi que a União da Ilha entregaria a sinopse de “Fatumbi, a Ilha de todos os Santos” e sua ala estava “aberta” - portanto, qualquer um poderia escrever.

E eu fui à escola com 'a cara e a coragem'. Apesar de gostar muito da União e de escolas de samba eu nunca tinha pisado em uma, não tinha a mínima idéia de como escrevia um samba-enredo e do que precisava para uma disputa. Tanto que o Milton Cunha, carnavalesco de então, deu várias explicações sobre o enredo, pontos necessários e nem caneta eu levei.    

Se tem um grande orgulho que tenho na vida é esse. Comecei sozinho no samba, sem noção de nada, com a cara e a coragem, sem padrinhos nem dinheiro. Fiz meu primeiro samba sozinho e sozinho fui pra luta. Então tudo que conquistei no samba e virei a conquistar começou daí e só quem é do meio sabe como é difícil isso que consegui.

Fiz o samba, mostrei pro meu pai que conversou com o hoje meu parceiro Cadinho da Ilha para que ele defendesse na quadra. Acho que não levou fé em mim e disse que já cantaria um samba, mas
indicou dois amigos seus chamados Dãozinho e Ricardo. Passei o samba pra eles e eles defenderam.

Eram cinquenta e três sambas. No dia da entrega dos concorrentes teve uma audição na quadra e o compositor Paulinho Rocha, campeão do ano anterior, elogiou meu samba, mas eu tinha que aprender duas coisas naquele meio. A primeira é sempre confiar desconfiando e a segunda, que no samba nós perdemos mais do que vencemos. 

E aprendi rápido essa lição. No dia 19 de julho de 1997 estreei como compositor. Nos apresentamos logo depois do samba defendido pelo Wander Pires que é um monstro cantando e lógico que sentimos a pressão. Vinte sambas foram cortados de cara e o meu foi no meio. 

No dia do corte Peçanha, na época presidente da ala de compositores do Boi da Ilha disse que a escola entregaria a sinopse pro carnaval de 1998 e eu fui lá no dia marcado. Peguei a sinopse de “Círio de Nazaré”, que seria o enredo da agremiação.

Assinei o samba com Dãozinho, Cadinho da Ilha (que resolveu me dar uma chance) e Paulo Travassos, que já era um grande amigo meu antes de entrar no meio e assim como eu estreou naquela disputa da Ilha, mas sua intenção era só pegar roupa pra desfilar. Não desfilou e virou um dos compositores que mais respeito.

Aquela posso dizer que foi nossa primeira disputa pra valer. Chegamos à final, a primeira de minha vida e mais uma vez antes dessa final ouvi que no samba perdemos mais que do vencemos e que se eu perdesse não era para desistir porque eu tinha talento. Perdemos e no fim ocorreu o que contei na primeira coluna: minha
mãe catando chorando as alegorias e guardando.

Perdemos vários sambas depois desse até ganhar o “Orun Aye”, e vencemos muitos também. No total foram mais de oitenta sambas feitos até hoje e vinte e quatro vitórias, com três grandes prêmios: o Estandarte de Ouro em 2001 e os prêmios 'S@mbaNet' e 'Troféu Jorge Lafond' - em 2009 com o samba do Boi da Ilha.

E muitas histórias pra contar. Em 2002 no nosso bicampeonato no Boi da Ilha - enredo sobre a cidade de Holambra - aconteceu algumas semanas antes da final o ataque às Torres Gêmeas em New York e nosso samba tinha o verso “paz na terra vem pedindo essa canção”. Evidente que exploramos ao máximo esse verso. 

No ano seguinte ganhamos dois sambas na mesma noite. Império da Tijuca e Acadêmicos do Dendê  - com esse samba sendo ganho 'aos 48 do segundo tempo'  em uma grande virada de mesa. Para o carnaval de 2004 tive a honra de escrever para a Beija-Flor e ser meu o último samba na escola cantado pelo grande Jackson Martins - que faleceu assassinado no ano seguinte.

Fora os sambas que ganhamos em quadras distantes da gente e tivemos que sair correndo pra comemorar no ônibus, vindo pra Ilha, antes que a coisa ficasse feia e garrafas que víamos ser quebradas voassem em nossas cabeças. 

Sambas que considerávamos ganhos como no Boi da Ilha em 2008, em que ficamos 'com pena' de um amigo nosso, o Walkir, e fomos torcer pro samba dele. Quando fomos ver toda nossa torcida foi torcer também e ele nos venceu. 

No mesmo ano em parceria com o dono do
blog Pedro Migão ganhar na Acadêmicos do Dendê sem som, apenas com a torcida cantando. E no ano anterior com o mesmo Migão conosco ganhar mesmo com os fogos sendo soltos na direção errada e indo em direção do palco e da bateria - que tiveram que cantar e batucar desviando deles.

Muitas coisas aprendi com as sinopses ao longo desses anos. Costumo dizer que aprendi mais nesses catorze anos que no tempo de colégio. Aprendi sobre Pierre Verger, lendas afros, indígenas, Charles Darwin, sete povos das missões, revolução farroupilha... e principalmente aprendi sobre mim mesmo, que posso ser bom em algo, que tem coisas que não serei o último a ser escolhido, que posso ser bom, elogiado.

Sabem alguns desses ídolos que citei acima? Muitos foram e são meus parceiros hoje, me respeitam, confiam em mim e aprendi a ter auto estima. Não lembro em quase nada mais aquele menino introspectivo que 'tomava fora das meninas'. Tá, algumas ainda dão, mas modéstia a parte muitas não mais...

Por mais politicamente incorreta que seja essa afirmação eu costumo dizer às pessoas mais próximas que o dom de escrever me livrou de ser um retardado completo. Como já disse nessa coluna sou péssimo em esportes, péssimo desenhando, além do que sou péssimo em matemática, cozinhando, “virando um concreto”, pintando e me enrolo até fazendo pipoca em microondas. 

Mas todo mundo tem um dom e o meu é esse e eu não trocaria por nenhum. Adoro contar histórias e o escritor é um contador de histórias - seja em um livro, revista em quadrinhos ou um samba-enredo. O escritor “brinca de ser Deus”. 
                                                                                                                                                                    
Mas no máximo é um ser humano ingênuo e iludido que acha que pode trazer sua fantasia um pouco pra realidade.

E fantasia e samba tem tudo a ver. O samba foi verdadeiramente uma escola para mim, não só escola de samba como escola do samba. Nessa escola ainda estou longe de me formar, mas acho que sou bom aluno.




E não sou o último a ser escolhido.




 

Nenhum comentário:

Postar um comentário