segunda-feira, 6 de agosto de 2018

AS MULHERES DE ADÃO: CAPÍTULO X - ÍRIS E JOANA



É amigos, tive meu dia de Carla Perez. Outra vez eles propuseram uma aposta nos mesmos moldes que eu teria que dançar na boquinha da garrafa. Achei exagerado e não topei.

Assim como minha família não topou que os muçulmanos levassem meu corpo pra cidade santa. Minha mãe disse que me achava um santo, mas aí já era exagero.

Toda mãe é igual.

O calor continuava forte na cidade e Eva falava pra sua namorada que aquele tempo pedia uma praia e que ela devia estar lotada. Kátia respondeu que devia estar vazia. Eva não entendeu e Kátia apontou pra entrada do velório.

Um monte de surfistas, pessoas vestidas como salva vidas, com roupas de banho entraram no velório. Edu botou as mãos nas cadeiras e disse “Que issooo!! Que fuzuê é esse? Aqui não é o posto 9!!!”.
Uma grande discussão se iniciou no velório e um surfista pra encerrar gritou “oh auê aí ô!!”.

Todos pararam pra olhar e o surfista emendou que eu era um cara “super maneiro, maior alto astral aí”. Amigo dos surfistas que pegava minhas ondas dava “altos tubos” e literalmente tirei onda nas praias de Pipeline, Malásia, Saquarema e Minas Gerais.

As pessoas ainda tentavam entender a parte de Minas Gerais quando o surfista abriu uma carta vinda da associação dos surfistas profissionais em minha homenagem.

O surfista tentou ler, mas tropeçou nas palavras e disse que “aquilo era uma parada muito sinistra”.
Eva pegou então pra ler. Olhou, olhou e disse “isso aqui tá em inglês, não consigo”. Minha mãe então perguntou “Ué Eva? E aquele curso de inglês que eu te dava o dinheiro todo mês pra pagar?”.

Minha irmã deu um sorriso constrangido e disse que depois conversariam sobre isso. Meu avô perguntou se alguém ali sabia falar inglês e Kátia se pronunciou.

Ela pegou a carta, olhou, olhou, meu avô perguntou “e aí?”. Kátia então respondeu “Aqui diz: Adão era maneiro”.

Todos ficaram olhando pra Kátia que reafirmou que só tinha isso na carta.

Uma das moças de biquíni saiu em minha defesa e disse que eu era um homem maravilhoso, o “garoto de Ipanema” e que ninguém passava um bronzeador como eu. Um cara falou que eu era um rei na rede de futevôlei no Leme e salva vidas e que eu uma vez salvei duas velhinhas, uma criança e um chipanzé de um afogamento na praia do Pepê.

Eu era o máximo, devia ter estrelado “baywatch”.

 Um dos surfistas pegou um violão e começou a cantar uma daquelas músicas de lual, já deu pra notar que meu velório estava bem musical né? Deviam lançar um cd.

Mais uma vez fui abandonado com todos indo curtir a música. Menos a Bia que continuou do meu lado.

Incrível como ela sempre esteve do meu lado desde que nos conhecemos. Mesmo quando não estávamos tão perto fisicamente, namorando outras pessoas ou em cidades diferentes.
Era mais que um amor, existia um elo entre nós.

Um elo forte, inquebrável, mas não o único da minha vida. Um muito forte surgiu de forma inesperada.

Minha vida continuava agitada. Afastei-me de ninfetinhas candidatas a miss e me aproximei de ninfetinhas que não queriam ser miss, de mais velhas, da minha idade, negras, brancas, mulatas, japonesas, índias, anãs...

Eu queria era mulher. Conhecia mulheres na praia, cinema, livrarias, supermercados, enterros. Viúvas são ótimas. Eu era insaciável.

Um dia cheguei em casa de manhã tomei uma chuveirada, deitei e apaguei. Acordei no meio da tarde e Edu me deu um bilhete mandado por uma mulher.

Já me acostumara a receber bilhetes de mulheres. Peguei, botei no bolso e dei mordida numa maçã que peguei na cozinha. Edu falou que era melhor eu olhar logo o bilhete porque a mulher estava nervosa. Olhei e nele uma mulher chamada Íris dizia que precisava falar comigo urgente e deu endereço de sua casa.

No dia seguinte fui a sua casa. Toquei a campainha e ela atendeu.

Uma mulher magra, semblante abatido, com um lenço na cabeça atendeu a porta. Não reconheci. Ela falou que eu sentasse e perguntou se eu queria tomar um café. Sentei e aceitei. Ela voltou me dando a xícara e agradeci. Eu bebia o café na xícara quando Íris falou que pela minha cara eu não estava lhe reconhecendo. Sincero respondi que não e ela então contou que estava muito diferente mesmo e eram poucos que lhe reconheciam. Contou então que era a Íris da praia do Pepino.

Eu frequentava a praia do Pepino uns sete anos antes quando tinha uma rede de futevôlei lá. Olhei bem praquela mulher e perguntei “Íris sereiazinha?”. Ela abriu um sorriso e respondeu que sim. Enfim lhe reconheci.

Íris era uma das mais gatas da praia do Pepino. Aquele tipo de mulher que todo mundo quer pegar. Bronzeada pegava sua prancha de bodyboard e bem cedinho mergulhava nas águas. Eu e muitos outros homens ficávamos na areia babando por ela.

Peguei amizade com Íris e depois de bebermos uma água de coco em um quiosque surgiu o primeiro beijo. Saímos algumas vezes e transamos também algumas vezes até que ela sumiu da praia, nunca mais lhe vi.

Até aquele dia.

Abri um sorriso e falei que lembrava bem dela sim que vivemos bons momentos, mas ela sumiu sem deixar rastros. Íris respondeu que ganhou uma bolsa pra estudar e não me avisou por não achar que tivéssemos algo importante. Morou lá quatro anos e voltou pro Brasil.  

Falei “que bacana” e continuei bebendo o café sem entender porque depois de tanto tempo ela foi atrás de mim. Ela parece que ouviu meus pensamentos e disse que eu devia estar pensando porque foi atrás de mim depois de tanto tempo.

Respondi que sim e Íris falou que era só eu ver o aspecto dela, como estava diferente que eu notaria que ela não estava bem. Estava doente. Perguntei o que ela tinha e Íris respondeu que seis meses antes descobriu que tinha câncer no pâncreas, um câncer maligno que deu metástase e que não sobreviveria.

Fiquei penalizado com a informação. Íris começou a chorar e coloquei a xícara na mesa pegando em sua mão pra acalmá-la. Íris então falou que nunca me procuraria nunca me contaria, mas era uma situação de emergência e ela só tinha a mim pra recorrer.

Perguntei qual era o problema e ela contou. O que mudou minha vida para sempre.

Íris contou que ao chegar a Londres começou a sentir enjôos fez um exame e descobriu que estava grávida. Eu era o seu único parceiro então o filho era meu. Mas que resolvera assumir o filho sozinha por não querer se prender a ninguém.

Pronto. Íris acabara de jogar uma bomba atômica em minha cabeça.

Ela continuou falando sobre sua vida e da filha que se chamava Joana e que como sabia que morreria não podia deixar a filha sem pai, ainda mais que sua família morava no exterior e ela não teria ninguém pra olhar por ela no país.

Eu estava tonto com aquelas informações. Como assim eu pai? E de uma menina de seis anos? Levantei e falei que não podia ser não podia ser minha. Íris se ofendeu e falou que assim eu a tratava como puta, coisa que ela nunca foi e era minha filha sim.

Eu continuei duvidando estava muito tonto e falei que não era minha filha, eu nunca seria pai porque nem gostava de crianças e que ela empurrasse esse problema pra outro.

Íris levantou e gritou que Joana não era um problema, era uma menina maravilhosa e por ela nunca teria me contado de sua existência porque eu era um D. Juan, um bom vivant que só pensava em mim. Um homem egoísta e que se eu quisesse faria exame de DNA pra mostrar que era minha filha.
Falei  “ótimo” e faríamos então o exame. Saí batendo a porta com força deixando Íris chorando pra trás.

Tá bom, vocês devem estar me odiando agora, mas, por favor, não fechem o livro pra devolver à livraria nem apareçam no cemitério pra fazer xixi no meu túmulo. Eu não esperava aquela informação. Foi um baque, nunca imaginei ser pai, não queria ser pai.

Fui pro único lugar que conseguia raciocinar. As pedras do Arpoador e lá vi o fim de tarde pensando em tudo que ouvi.

Cheguei ao meu apartamento. Edu estava lá e me perguntou o que ocorrera. Respondi que precisava de um banho urgente e pedi que ele ligasse pra Bia que eu contaria aos dois e precisava da opinião deles.

Com Bia e Edu presentes contei toda a situação. Edu falou que era golpe, a mulher podia estar de olho em dinheiro. Bia mais ponderada falou que podia ser verdade e que se eu tinha dúvidas era bom fazer o exame de DNA, mas que eu me preparasse pra ser pai.

Disse pra Bia que era impossível, eu nunca me imaginei pai e nunca quis uma criança. Bia então respondeu que eu começasse a imaginar e me preparasse pra ter que tomar conta de uma criança que precisaria muito de mim com a mãe doente.

Sentei na cadeira atordoado com tanta informação e Bia passou a mão na minha cabeça falando que iria comigo ao exame. Recebi a notificação e fui lá no dia marcado. Impaciente esperava com Bia pela chegada de Íris para a coleta quando ela chegou.

Com Joana.

Eu com um copinho tirava água do bebedouro quando Bia notou a presença delas e bateu em meu ombro pra olhar.

Eu olhei e ali a minha vida começava uma nova história.

Olhei Joana com carinha de assustada apertando a frágil mão de sua mãe. Olhinhos tristes, mas expressivos. Boca parecida com a minha, nariz parecido com o meu.

A menina era a minha cara.

Bia também percebeu e com lágrimas nos olhos falou “Adão, você é pai”.

Caminhei ao encontro delas e fiquei frente a frente. Abaixei na frente de Joana que segurava um urso de pelúcia e falei pra ela que era um urso muito bonito. Joana olhou pra mim e perguntou se eu era o “seu papai” e eu zonzo, emocionado dei um sorriso, respondi que sim e lhe abracei com Íris e Bia chorando em volta.

Levantei, pedi desculpas a Íris e falei pra irmos embora porque eu não precisava mais de exame de DNA e que fossemos pra um cartório e pra eu colocar meu nome em sua certidão de nascimento.

Assim virei pai.

Acompanhei toda via crucis de Íris. Fui com ela nas sessões de quimioterapia e radioterapia na tentativa de um milagre que não veio. Íris foi internada em estado grave e eu fui seu acompanhante no hospital.

Na UTI ela apertou minha mão com força e pediu para que eu cuidasse de nossa menina.  Jurei pra ela que cuidaria.

E assim vi a Íris sereiazinha do Pepino morrer.

Depois do enterro começava um grande problema pra mim. Como cuidar de uma menina de seis anos? Nesses últimos tempos de Íris no hospital Joana ainda continuou na casa que morava sendo cuidada por uma empregada. Depois do enterro fui à escola e lhe busquei. Joana estranhou porque sempre era a empregada que buscava e era a primeira vez que eu ia.

Desci do carro, lhe dei um beijo e falei pra irmos tomar um sorvete.

Na sorveteria a parte mais difícil. Como contar pra uma menina de seis anos que sua mãe morreu? Ela tomava seu sorvete e eu a olhava sem tocar no meu e saber como contar quando ela virou pra mim e perguntou “mamãe foi morar com o papai do céu né?”.

Respondi perguntando como ela sabia. Joana respondeu que sonhou com ela e no sonho sua mãe mandava ser uma boa menina e que obedecesse a seu pai.

Eu com nó na garganta e voz embargada respondi que sim, sua mãe agora morava com papai do céu. Joana perguntou se nunca mais veria sua mamãe e respondi que veria sim quando também fosse morar com Ele. Joana fez mais uma pergunta e perguntou se podia ir morar também e respondi que não, demoraria a que isso ocorresse.

Joana então começou a chorar dizendo que queria a mamãe e eu sem saber o que fazer levantei e lhe abracei.

Amigo, não foi fácil. Eu até estava acostumado com mulheres, mas não de tão pouca idade. A empregada preferiu voltar pra sua terra e não veio morar conosco então sobrou pra mim e pro Edu cuidar de Joana. Mudamos pra um apartamento de três quartos e varanda na mesma Ipanema pra lhe dar espaço.

Revezávamo-nos em acordar cedo e levar pro colégio. Dar almoço, janta pra ela e cuidar de suas roupas. Meu martírio era amarrar seu cabelo. Eu sempre fui especialista em desabotoar sutiãs, não amarrar cabelos.

Minhas saídas diminuíram drasticamente. Uma vez consegui marcar encontro com uma morena deliciosa, mas não pude ir porque Joana estava com febre. Não estava fácil.

Nem pra mim nem pra Joana. A coisa só melhorava quando Bia ia lá em casa. O que provocava ciúmes em João Victor já que com a chegada de Joana ela ia com freqüência.

Uma vez me chamaram em sua escola. A psicóloga do colégio me mostrou um desenho de Joana. Achei bonito e falei que ela desenhava melhor do que eu. A psicóloga pegou o desenho de minha mão e mostrou comentando “repare no coelho, é preto”.

Olhei o desenho e comentei “verdade, ele é preto”. A psicóloga então comentou que Joana estava com problemas. Saí de lá sem entender como um coelho pintado de preto significava problema, pra mim aquela psicóloga era racista.

Mas realmente o clima não era bom e uma vez ela ficou brincando com a comida e não queria comer. Eu mandei que ela comesse uma, duas, três vezes e ela nada. Irritei e falei que ela só levantaria quando acabasse de comer.

Fui pra sala, liguei meu som e olhei Joana levantando e indo pro quarto gritei que era pra ela sentar-se à mesa e ela gritando respondeu que não iria e eu não mandava nela. Cheguei perto dela e mandei de novo que ela se sentasse. Joana pegou o prato e jogou a comida no chão.

Dei uma palmada em sua bunda.

Ela chorando olhou pra mim com raiva e se trancou no quarto.

Bati na porta, mas ela não abriu. Edu chegou e eu disse que iria deitar um pouco porque estava com dor de cabeça.

Duas horas depois levantei arrependido por ter batido em Joana e bati em sua porta. A porta se abriu e ela não estava lá. Perguntei pra Edu onde estava Joana e ele respondeu que no quarto e eu falei que lá não estava. Perguntei a meu amigo se ele ficou na sala o tempo todo e ele disse que não. Desceu pra tomar uma cerveja.

Só consegui falar “puta que pariu, a Joana fugiu”. Peguei a chave pra procurá-la e quando abri a porta pra sair Bia chegou perguntando se algo ocorrera e respondi que sim Joana fugira de casa.

Ela então se propôs a ajudar e saímos eu, Bia e Edu a caça de Joana.

Percorri Ipanema toda no meu carro. Fui pra Copacabana, Leblon, Lagoa, Botafogo, Flamengo, em cada rua e nada de achá-la. Parei em uma pracinha sentei em um banco e comecei a chorar. Olhei pro céu e pedi pra Deus não fazer aquilo comigo e que me trouxesse a Joana de volta.

Nisso meu celular tocou. Era Bia contando que tinha achado Joana, ela estava perto de uns mendigos na saída do metrô do Largo do Machado.

Voltei pra casa correndo e lá encontrei Edu, Bia e Joana na sala. Fui até minha filha perguntar onde ela se metera e Joana com raiva respondeu que me odiava e não queria mais morar ali.

Dói ouvir de um filho que ele te odeia. Fiquei sem reação e Bia pediu pra que eu e Edu saíssemos porque teria uma conversa de “mulher pra mulher” com Joana.

Fui pro quarto e deitei. Triste pelo que Joana me falou e feliz e agradecido a Deus por ela ter voltado. Eu já era tão pai, tão ligado naquela menina que a morenaça que eu iria encontrar ligou pro meu celular e nem atendi.

Um tempo depois bateram na porta, quando fui ver era Joana.

Minha filha com lágrimas nos olhos falou “desculpa papai, te amo”.

Aquele “te amo” foi o mais importante que ouvi na minha vida e olha que modéstia a parte ouvi muitos de muitas mulheres. Abracei minha filha e ficamos lá os dois chorando sob os olhares da Bia. Perguntei "Você nunca teve um papai e eu nunca tive uma filha, vamos aprender isso juntos?". Ela concordou e nos abraçamos novamente.
 
Alguns meses depois finalmente me formei na faculdade de Comunicação e subi pra receber meu diploma de mãos dadas com Joana. O reitor entregou em sua mão. Peguei minha filha no colo e ela mostrou orgulhosa o diploma pra platéia que aplaudia de pé.

Nascia um grande caso de amor.

O amor da minha vida.

*Dedicado a Bia, Gabriel e Lucas


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HELENA

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