segunda-feira, 17 de março de 2014

FLORES PARA VOVÓ




Semana passada navegava pela internet e a Hellen, minha namorada me chamou no Facebook dizendo “Ta chegando o dia internacional da mulher”.

Pensei “La vem mimimi” e aí ela me surpreendeu “Vamos mandar flores pra vovó?”.  

Fiquei surpreso, mas não devia porque a Hellen sempre foi carinhosa com os meus. Mas me surpreendi porque ela nem conhece minha avó para ter um gesto desses de carinho. Não levei a sério de princípio até que vi que era pra valer e perguntei “É sério?”.

Tendo a confirmação que era ela me contou que tinha desconto em um site de flores on line, mandou foto das flores, lindas por sinal e pediu o endereço. Ela mora em Curitiba. Passei e depois me pediu uma declaração para o cartão.

Aí veio o problema.

Não que eu escreva mal. Não sou nenhum primor, mas até que me viro, mas tem certas horas que da dificuldade.

Já escrevi sobre minha avó aqui e contei um pouco de suas características. Dona Lieida, sim o nome dela é diferente, é  matriarca da família, a mulher que praticamente sozinha criou quatro crianças e tentava manter um casamento.

Uma pessoa que nasceu nos anos 30 do século passado e cresceu longe da mãe. Boa parte da juventude em um colégio interno, depois fez curso normal, virou professora, grande profissão e status na época e casou com um cara que queria ser artista, mas foi obrigado a ser militar. Um cara que na hora do casamento não queria mais casar e foi obrigado pela mãe a subir ao altar.

Dessa forma foi o casamento. Um homem que não teve a chance de ser o que queria e uma menina que foi obrigada a virar mulher e ser esposa, mãe e profissional. Foram casados até os anos 70, até a época de meu nascimento.

Separaram-se com minha avó ainda apaixonada. Mesmo sofrendo pelo fim do casamento com o homem de sua vida minha avó desabrochou. Tornou-se mulher independente, namorou, viajou pelo mundo, deu aula, tomou pileques, também tomou banho de cultura e no auge de seus 40, 50 anos mostrou a todos a mulher esplendorosa que era. 

Linda, sempre cheirosa, bem vestida, elegante, muito vaidosa a ponto de não me deixar chamar de avó era também geniosa e metia medo. Figura imponente, matriarcal, capaz de ferir de morte em palavras ditas ou escritas. Todos se apavoravam quando recebiam carta dela, quase todos abaixavam a cabeça e fugiam do confronto com ela.

Mas um não fugia disso.

Eu.

Tenho personalidade parecida com a dela. Me considero um cara bacana, amigo, gosto de me divertir, das coisas boas da vida assim como ela. Mas também tenho personalidade forte, sou genioso, bato de frente sem abaixar a cabeça. Não tive que aprender a me defender em colégio interno, mas tive no colégio da vida. Sempre fui gordo e tímido e se eu não aprendesse a me defender e atacar seria engolido pelo mundo.

Nasci sob o mesmo signo que ela, nasci no mesmo dia que ela, 9 de agosto. Peguei dela a personalidade e também o gosto pela arte. Ao mesmo tempo que brigávamos, saíam faíscas, ofensas, muitas vezes eu como leão defendendo dela minha mãe que era frágil dentro de sua imensa força como ser humano evoluído que era também éramos parceiros.

Ela me levava para cinemas, teatros, me dava livros. Boa parte dos artistas que ouço que ninguém da minha idade ouve devo a ela que quase todos os dias acordava a gente e também a vizinhança com Cauby Peixoto, Ângela Maria, Júlio Iglesias, Agnaldo Timóteo entre outros na vitrola.

Pessoa alegre, cheia de vida, apaixonada e apaixonante, junto com minha querida e saudosa mãe e querida e recém chegada Ana Beatriz as mulheres da minha vida. Pessoa que viu essa alegria desaparecer em duas crises de depressão. A primeira em 1989 quando finalmente saiu o divórcio com meu avô. 

A segunda em 1999 com a morte dele e infelizmente a certeza que nunca mais voltariam a ser um casal. Não os conheci como marido e mulher, mas para mim fica a lembrança deles dançando no casamento de minha tia Rosanne.

Não sou velho ainda, tenho 37 anos, mas a gente sabe que está envelhecendo quando a saudade além de trazer boas lembranças faz doer.

Ela nunca se recuperou dessa depressão. Seis anos depois perdeu a filha, minha mãe. Talvez a pessoa com a qual teve a relação mais conturbada e mais próxima. Ela já estava em um estágio que até hoje não sei o quanto essa morte lhe afetou. A mim muito.

Nós três éramos como um triângulo, ficamos assim por 28 anos. A morte de minha mãe e a doença de minha avó fazendo com que ela precisasse de cuidados e se afastasse fizeram com que o triângulo virasse um ponto apenas numa imensidão de vazio e saudade. Eu. 

Ano passado ela fez 80 anos. No dia que eu fiz 37 e que o Gabriel, meu segundo filho nasceu. Dona Lieida envelheceu, como toda pessoa de sorte um dia envelhecerá e espero que ela tenha noção da grande e bem sucedida vida que teve e tem porque não está morta.

Não deve ser fácil chegar aos 81 anos numa casa de repouso, espero sinceramente que em seu íntimo ela não se sinta triste com isso. Nos falamos com uma boa frequência e pelo menos em sua voz não parece. Teve uma grande vida, uma trajetória invejável e se está la hoje, ironicamente local que acaba lembrando colégio interno pode ter sido, como médicos já falaram, preço da vida intensa que teve.

Se foi mesmo o preço da vida tão intensa, tão forte, com tantas coisas maravilhosas eu quero um dia pagar esse preço também porque se alguém soube viver esse alguém foi dona Lieida Quintanilha de Castro Villar.
     
Prometi a ela que contrataria o Cauby Peixoto para cantar em seu aniversário de 100 anos, mas estou preocupado. Não sei se chega ate lá.

Falo do Cauby claro.

Porque minha avó é eterna!! Minha avó é foda!!

E agora? O que escrever para ela e mandar no cartão junto com as flores?  To sem inspiração nenhuma. Como às vezes é complicado escrever.

Que nada. Não existe coisa mais bonita que a simplicidade. O cartão está escrito, entregue e quando ela abriu estava escrito assim:

“Vó, te amo”.


Obrigado Hellen.  

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2 comentários:

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    1. Obrigado pelo carinho e cuidado com alguém que vc nem conhece ainda, essa é uma das coisas que te faz especial, bjss

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