sábado, 29 de março de 2014

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAPÍTULO XVII - A MÃE DO MILICIANO




Peguei o carro e rapidamente cheguei na delegacia. Cheguei ao mesmo tempo de Juliana que me abraçou perguntando o que ocorria. Respondi que não sabia. Rubinho desceu do carro e o cumprimentei educadamente.

Entramos na delegacia e lá fomos informados que Guilherme foi preso com uma quantidade razoável de drogas, o que poderia ser configurado tráfico. Rubinho comentou “Filho de quem é” e ouvi avançando em cima do empresário.

A polícia nos separou e Juliana mandou que eu me acalmasse, pois eu podia voltar para a cadeia. É eu apenas cumpria pena em liberdade, ainda tinha dívida com a justiça.

Depois de ânimos acalmados a polícia surgiu com Guilherme que abraçou a mãe dizendo que não estava traficando. Juliana pagou fiança e o menino foi solto para responder processo em liberdade.

Saímos os quatro da delegacia e pedi a Juliana que eu levasse Guilherme de carro, a sós. Minha ex perguntou o motivo e respondi “Confie em mim”. Juliana agradeceu, deu um beijo em Guilherme e foi embora com Rubinho.

Ficamos a sós e mandei Guilherme entrar no carro. Entramos e ele perguntou se iria lhe dar esporro. Nada respondi, aproveitei que estávamos sozinhos no carro e comecei a cobri-lo de porrada. Ali mesmo, sentados dentro do veículo.     

Guilherme tentava se proteger dos meus socos perguntando se eu estava maluco. Respondi “To,to muito doido” e perguntava quem vendera a droga pra ele.

Guilherme se recusava a contar e eu continuava batendo e gritando “Conta! Conta quem vendeu!”. Ele respondia “Pode me bater que eu não vou contar” até que peguei a arma na minha cintura e apontei pra cara dele “Conta filho da puta, quem vendeu?”.

Eu era um pai muito habilidoso.

Guilherme me olhou, com medo e respondeu “Sou seu filho, você não vai atirar em mim”. Engatilhei a arma e encostei em sua testa dizendo “Já perdi uma filha, tanto faz perder outro, conta”. Ele resolveu contar, comprou no morro da Rabiola. Facção rival.

Liguei o carro e segui em disparada para o morro da Rabiola. Parei o carro embaixo do morro, peguei Guilherme pelo colarinho e subi. Parei na frente da boca e disse que queria falar com quem mandava.

Normalmente com essa marra teriam me enchido de tiros. Mas os traficantes devem ter se assustado com tamanha marra e foram chamar o chefe.

Um gordo saiu de dentro da boca e perguntou qual era o problema. Perguntei se ele era o dono e o cara respondeu que sim perguntando quem eu era, respondi “Gilberto Martins, fui dono do Trololó”. O gordo gritou “Facção rival” e todos apontaram fuzis para gente. Desesperado, Guilherme gritou “Você quer matar a gente porra?”.

Apontei Guilherme e disse ao traficante “Tá vendo esse moleque aqui? Você não vai vender mais drogas pra ele”. O gordo riu, apontou seu fuzil na minha cara e perguntou “O que te garante que você vai sair vivo daqui?”.   

Olhei para ele e falei “Cachorros velozes”. O homem se assustou e mandou que os outros traficantes abaixassem as armas. Cheguei perto de seu rosto e comentei “Pelo jeito você conhece”. O gordo perguntou qual era minha ligação com os cachorros e respondi “Maior do que você pode imaginar”.

O gordo deu a ordem “Ninguém mais vende drogas pro moleque, se eu descobrir mato”. Agradeci e desci com Guilherme do morro. O moleque perguntou “O que é cachorros velozes”. Respondi “Não se mete, negócio meu”.

Os “cachorros velozes” tinham muita moral mesmo e ganhavam até simpatia da sociedade por fazerem o “trabalho sujo”, a lei do “olho por olho, dente por dente”. A polícia investigava, mas não conseguia chegar a nada. Trabalhos se acumulavam, matança correndo solta e o bolso de todos enchendo.

Os sustos valeram para Guilherme que por conta própria pediu para ser internado. Juliana e eu levamos nosso filho até a clínica. Juliana deu um abraço no moleque, pediu para que se cuidasse e evidente chorou. Depois foi minha vez.

Ficamos frente a frente. Guilherme olhou pra mim e disse “Sem essa de abraços ta? Ainda to me acostumando em ter um pai presente e que põe arma na minha cara”. Respondi “sem problemas” e ficamos mais um tempo parados na frente um do outro.

Guilherme levantou o rosto, me olhou e disse “obrigado” estendendo a mão pra mim. Apertei sua mão e ficamos ali um tempo. Um laço entre pai e filho começava a se estabelecer.   

Guilherme na clínica de reabilitação e eu trabalhando com Juliana. Poderia ser perfeito se não fosse o fato de Rodrigo Saldanha, que perdeu a eleição, se juntar a nós como chefe de segurança de Juliana. Não era uma situação confortável, eu tinha a impressão que Rodrigo era uma cobra pronta pra me dar o bote a qualquer momento.

Uma tarde encontrei Bianca conversando com Rodrigo nos corredores do congresso. Estranhei a situação e me aproximei. Senti que os dois disfarçaram e Bianca me abraçou dizendo que “meu amigo era muito simpático”.

Ri e comentei “Sim, amigo”. Rodrigo pediu licença e saiu. Perguntei o que eles conversavam e Bianca comentou “Vem comigo”. Pegou minha mão e levou até o gabinete.

Gabinete estava vazio. Bianca trancou a porta, me jogou na cadeira e sentou em cima me beijando. Fodemos ali mesmo. Impressionante como aquela mulher me tinha nas mãos.

Todo mundo parou pra foder naquele dia.   

Donato foi foder com Scarface então Rubinho aproveitou para foder com a mulher do irmão. Na cama Rubinho lamentava com a amante por um juiz que atravessou seu caminho.

Flávia perguntou qual era o problema e Rubinho respondeu “Um filho da puta, juiz Salomão Silveira. Ta de sacanagem comigo, embargando umas obras importantes”.

Flávia se encostou ao peito do amado e comentou “Você sempre soube dar jeito nessas situações”. Rubinho pegou uma taça de champanhe que se encontrava sobre a mesinha de cabeceira, bebeu um gole e respondeu “Sim e eu já sei o que fazer”.

Outro casal se encontrava na cama naquele instante. Yolanda e Rui. A prostituta cheia de carinho com o policial comentava “Sabe, acho que to apaixonada por você. Não quero mais saber dessa vida, quero ser sua, apenas sua”.

Rui parece que ouviu nada o que a mulher disse. Ignorou completamente o que ela falou e emendou “Preciso que você faça um serviço para mim”.

Ela estranhou e soltou um “Oi?”. Ele repetiu “Tenho um serviço importante para você”. Puta, Yolanda levantou e reclamou “Você não prestou atenção em nada do que eu disse”. Rui percebera a cagada que fez e levantou, foi ao encontro da mulher que olhava a janela, pegou em sua cintura beijando seu pescoço e disse “Tudo que você fala é importante para mim, mas preciso de você em uma missão muito séria, só posso confiar em você”.

Pronto, aquilo ganhou a prostituta. Yolanda se virou e comentou “Deve ser sério, pra você falar assim”. Rui respondeu que era e pediu que a mulher se sentasse.

Ela sentou e pediu “Me conte, que missão é essa?”. Rui respondeu “Eu quero que você seduza um homem”.

Yolanda pediu que o amado repetisse e Rui o fez “Um cara, eu quero que você conquiste um cara”. Yolanda levantou novamente e falou “Tudo bem, eu sou especialista nisso, já seduzi muitos. Mas logo você pedindo isso?”.

Rui pegou a mulher pela mão e disse “É por uma boa causa, sei que não devia te pedir isso, que estamos nos dando bem”. Nesse momento Yolanda abaixou a cabeça e deu um sorrisinho. Rui continuou “Você mexe comigo gata, demais, vou morrer de ciúmes, mas preciso que você faça esse serviço”.

Yolanda perguntou quem era o cara e Rui pegou uma foto na carteira lhe entregando e dizendo “O sujeito é esse aí da foto, ele tem três farmácias na Tijuca. Se chama João Arcanjo”.

É. Rui estava armando para João.

Yolanda olhou a foto e comentou “Bonito”. Rui olhou sério para a mulher que deu um sorriso e lhe abraçou beijando. Depois ela completou “Menos que você”.

Rui continuou contando seu plano “Você é bonita, tenho certeza que vai enlouquecer esse mané. Preciso que ele caia em tentação, mostre sua verdadeira cara”.

Yolanda perguntou porque aquilo tudo. Rui deu um beijo na testa da prostituta e respondeu “Um dia te conto toda a verdade, te juro”.

Depois do diálogo o telefone de Rui tocou e ele atendeu “Fala! O que? Você ta de sacanagem? Ta, vou convocar a rapaziada”. Rui desligou e Yolanda perguntou o que ocorrera. O policial respondeu “Pintou um trabalho e inusitado”.

Perto dali um casal discutia. João Arcanjo e Fernanda. Sim, eles que viveram meses em mar de rosas, a história do grande amor inabalável enfrentavam a primeira crise. Fernanda reclamava do marido que quase não parava mais em casa.

“Preciso de você mais comigo João, você quase não para mais aqui, qual é o problema?” Reclamava Fernanda, enquanto de saco cheio João respondia “São três farmácias, reuniões com clientes, você pensa que é fácil manter o padrão de vida que temos hoje?”.

Fernanda injuriada respondeu “Não me interessa padrão de vida, sim, é ótimo, mas não me interessa se não tem meu marido por perto, ainda mais em um momento como esse”. João não entendeu e perguntou “Que momento? Do que você ta falando?”.

Fernanda pôs a mão na barriga e contou “To grávida”. João irradiou felicidade, começou a fazer perguntas de como e quando a mulher desconfiou, descobriu e ela sorrindo respondeu “Algumas semanas que a menstruação não vem, me senti enjoada, fiz exames e comprovou”. Feliz João deu um beijo na mulher e se agachou para fazer carinho em sua barriga.

Ficaram algum tempo abraçados no sofá quando o celular de João Arcanjo tocou. Era Rui de Santo Cristo. Fernanda apelou para que ele não atendesse, mas o farmacêutico comentou que podia ser importante e atendeu.

Ouviu a tudo atentamente e terminou dizendo “Estou indo praí” desligando. Fernanda furiosa disse “Não acredito que depois de tudo que reclamei, do que contei agora você vai sair”.

João levantou do sofá deu um beijo na testa da mulher pedindo desculpas, mas que não iria demorar. Fernanda gritou “Senta aqui que eu ainda não terminei”, mas João não lhe deu ouvidos saindo.

João, Rui, Scarface e Galalite se encontraram no galpão. Eu estava em Brasília. João Arcanjo logo contou a novidade que seria pai e os homens comemoraram lhe abraçando e dando parabéns. Rui comentou que era mais um motivo para continuarem livrando a sociedade da escória e para ganhar um bom dinheiro como aquele caso daria.

João perguntou qual caso era o da vez e Rui respondeu que era uma situação inusitada. Ele foi procurado por um miliciano, o tenente Rodrigues.

Sua mulher em uma tarde da semana anterior buscava as crianças na escola quando dois homens lhe renderam com armas na cabeça e levaram seu carro. Os homens ouviram atentamente e Galalite perguntou “Bateram nela? Abusaram? Sequestraram as crianças?”. Rui respondeu “Nada disso, só o roubo”.

Scarface, que não queria saber onde era a festa só de comer o salgadinho, pegou a arma e disse “Vamos matar esses filhos da puta”. João mandou que o homem parasse de empolgação e perguntou a Rui “Mas foi só isso? Vamos matar por causa de um roubo?”.

Rui comentou “Não é apenas isso”. Ficou um tempo em silêncio e contou o motivo “As cinzas da mãe do tenente estavam no carro. A mulher faleceu há pouco tempo e seria transportada pra sua terra natal. Suas cinzas seriam jogadas num riacho da cidade, coisa linda”.

Os três continuaram ouvindo e Rui completou “Os caras roubaram o carro com as cinzas da senhora dentro. Acharam, pensaram que era cocaína e cheiraram. Largaram o carro depois de fazer uns assaltos e quando a polícia achou a urna com as cinzas ela estava vazia e com um canudinho”.

Scarface soltou um “Puta que pariu! Cheiraram a velha!” e os três caíram na gargalhada. Rui, puto, disse que aquilo não tinha graça, mas vendo os homens rindo ele mesmo riu e disse “É, tem graça sim”.

Rui passou todo o mapeamento. Quem eram os bandidos e como achar combinando o ataque para o dia seguinte. João voltou para casa e encontrou Fernanda dormindo. Deitou-se ao seu lado, beijou seu ombro e fazendo carinho na esposa disse “Amo vocês”.

No dia seguinte voltei de Brasília e fui colocado a par da situação. À noite fui para o galpão encontrar os “Cachorros velozes” e o tenente Rodrigues estava junto.

O homem entregou um pacote farto de dinheiro na mão de Rui de Santo Cristo e na frente de todos comentou que confirmando a morte dos bandidos teria outro mais farto ainda. Scarface, com diarréia verbal soltou “Pode deixar que vamos pegar os caras que cheiraram sua mãe”.

Saímos do galpão e fomos ao local que estariam os bandidos, um casebre afastado numa cidade do interior do Rio. Os homens comiam quentinha em silêncio quando o primeiro soltou “Ta achando estranho não Zé Morcego?”. O tal Zé Morcego não entendeu e perguntou “O que Zé Gambá?”.

O primeiro respondeu “Esse cheiro, cheiro de morte”.

Os homens continuaram comendo quando bateram na porta. Um dos bandidos atendeu e éramos nós. Zé Gambá perguntou “Qual foi?” e Rui sorriu perguntando “Por obséquio, aqui é da casa de Zé Gambá e Zé Morcego?”.

O homem respondeu “Somos nós” e Rui comentou “Vocês mesmo que procurávamos”. O bando entrou na casa, tirou as armas da cintura e antes mesmo que eles pudessem reagir deram mais de uma dezena de tiros fuzilando os dois.

Com os corpos no chão, ensanguentados. Rui olhou o trabalho feito e comentou “Missão cumprida senhores, muito bom trabalhar com gente eficiente como os senhores. Vamos embora pegar o resto de nosso dinheiro”. Todos saíram menos Scarface. Rui voltou para buscar o taxista que comia a quentinha de um dos mortos e respondeu “Peraí, ta gostosa”.

Caminhávamos de volta a nossos carros quando ouvi “pai”. Olhei e era Guilherme, com olhar assustado.

Fiquei mais assustado ainda e perguntei “O que você ta fazendo aqui?”. Guilherme respondeu “Saí da clínica hoje. Fui atrás de você e te vi com esses caras, achei estranho e segui. Pai, o que vocês fizeram?”.

Aí que me apavorei de vez e falei “É nada disso que você ta pensando Guilherme, eu só acompanhei, eu relato as histórias no blog”. Guilherme assustado, com olhar decepcionado apenas respondeu “Não me fala nada, eu precisava falar com você, mas é melhor não”.

Saiu andando para ir embora, ainda tentei ir atrás, mas João me segurou dizendo “Deixa pra depois, agora não adianta nada”.

Todos entraram em seus carros. Arrasado entrei no meu e fui embora. Não fui para o galpão, não tinha o que receber. Decidi ir pra casa.

Chegando próximo a ela vi uma blitz. Os policiais me pararam, pediram documentos e mostrei. Logo após pediram que eu descesse para revistar o carro.

Revistaram enquanto eu puto pedia que se apressassem, pois eu estava cansado e queria ir pra casa.

Depois de um tempo um policial apareceu com alguns papelotes de cocaína e perguntou “Isso é seu?”. Não era. Espantado respondi que não e que não sabia de onde surgira.
 
O policial me olhou e me deu voz de prisão.

Aquela definitivamente não era minha noite.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




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