terça-feira, 28 de novembro de 2017

NO REINO ENCANTADO´: CAPÍTULO II - O MÁGICO


No dia seguinte a família tomava café normalmente como sempre faz. Apenas Bia estava em silêncio, sua mãe perguntou se algo ocorrera e a menina se desvencilhou dizendo que teria uma prova importante. Gabriel perguntou “Que prova?” e tomou uma cotovelada na barriga.

Na saída de casa Gabriel reclamava perguntando de que prova ela falava e sutil Bia respondeu “Tem prova nenhuma idiota. Eles estão com problemas”. Foram de bicicleta até a frente do colégio e lá compraram algodão doce. Bia adorava algodão doce e comentava “Parecem nuvens, nuvens devem ser feitas de algodão doce”.

Gabriel perguntou qual era o problema e a menina contou tudo o que ouviu na noite anterior. Ele ficou preocupado e perguntou o que poderiam fazer. O sinal indicando o início das aulas tocou e ela respondeu “No recreio a gente pensa”.

A menina não conseguia se concentrar na aula. Sua mente pequenina flutuava imaginando uma forma de ajudar o pai e nem ouviu sua professora chamar. Ao fundo ouviu sua voz lhe despertou.

Perguntou o que a professora dizia e a tia perguntou quais eram os afluentes do rio Amazonas. A menina não soube responder e enquanto as outras crianças riam a professora deu uma leve bronca “Preste atenção na aula Biazinha”.

A sirene do recreio tocou e a professora perguntou se ocorria algum problema. Com a inocência dos pequeninos Bia perguntou “Tia, como faço pra ficar rica?”. A professora sorriu, passou a mão
em sua cabeça e respondeu “Biazinha, se você descobrir me conte”.

Na hora do recreio Bia e Gabriel ficaram isolados em um canto pensando num modo de ganhar dinheiro. Gabriel sugeriu vender todas as suas figurinhas e bolinhas de gude para ajudar o pai e Bia respondeu não acreditar que aquilo bastasse. Pensaram mais um pouco até que Bia teve uma ideia que acreditou ser genial “Vamos pedir um empréstimo”.

Saindo  do colégio foram numa agência de empréstimo. Esperavam pacientemente a sua vez e a atendente nada entendeu chamando os dois. Os dois sentaram a sua frente, de tão pequenos nem conseguiram encostar os pés no chão e a moça perguntou o que queriam. Bia respondeu “Dinheiro emprestado pra ajudar o papai”.

A moça sorriu e explicou todos os passos necessários para conseguir um empréstimo e evidente que nenhum dos dois tinham. Mesmo assim a moça deu um cartão para que os pequeninos levassem ao pai.

Gabriel ainda saiu pra brincar na rua quando voltaram pra casa, mas Bia não. A menina preferiu ficar no pequeno quintal sentada em uma cadeira de balanço pensando no que poderia fazer pra ajudar. A mãe chamou para comer bolo e ela gritou “Quero não mãe, to sem fome”. A mãe resmungou de dentro “Recusando bolo? Essa menina está doente”. Ao mesmo tempo gritou por Gabriel que veio correndo.

Gabriel veio todo sujo da rua e a mãe mandou que imediatamente fosse tomar banho. Como sempre o menino e recusou e tentou fugir com a mãe correndo atrás. Era a mesma confusão todos os dias, mas dessa vez em vez de Bia ficar gargalhando vendo a cena estava quieta no balanço.

Anderson chegou e o menino se agarrou em suas pernas, mas não adiantou, parou no banho.

Enquanto Gabriel ia resignado Anderson perguntou por Bia e da janela Rebeca mostrou a menina no balanço respondendo “Ta o dia todo aí no balanço”. O homem foi até o quintal e começou a balançar a menina. Bia adorava aquele balançar, o vento em seu rosto e pela primeira vez no dia sorria. Depois de um tempo o pai chamou para jantar, comer bolo e a menina aceitou.

Jantaram, viram um pouco de tv e os meninos deitaram. Depois de um tempo Anderson passou pelo quarto e viu Gabriel no décimo sono enquanto Bia olhava o teto. O homem percebeu que a filha não estava bem e perguntou se ela queria ver filme de terror.

Ao contrário da maioria das crianças Bia adorava filmes de terror. Era apaixonada por Chucky, Fred Kruegger, Jason e cia limitada. Topou na hora e foi para a sala. Deitou nos braços do pai enquanto viam o filme. Viam em silêncio. Bia na hora do susto pedia para seu pai lhe abraçar mais forte e em determinado momento Anderson perguntou se a filha estava com algum problema.

Bia ficou um pouco pensativa, olhou para o pai e perguntou “Como faço pra ficar rica?”. O pai deu a mesma resposta da professora e a menina respondeu “Eu preciso ficar rica”. O Pai perguntou porque e ela respondeu “porque sim”.

Como a maioria dos pais dizem Anderson riu e falou “porque sim não é resposta”. Bia ficou em silêncio e o pai decidiu explicar “Você tem duas chances. Ganha na loteria ou trabalhar muito”. A menina respondeu que precisava ficar rica naquele instante. O pai para não tirar seus sonhos apenas respondeu “Peça a Papai do céu”.

E foi isso que Bia fez ajoelhada no chão ao voltar pro quarto.

No dia seguinte foi de novo a aula com Gabriel pensativa. A menina queimava os miolos pensando numa forma de ajudar o pai e nada vinha a mente. Novamente voltou triste pra casa. Via o tempo passar e não via como resolver o problema da casa.

Mais uma vez passou a tarde no balanço triste e nem percebeu que o pai se aproximava. Teve seus olhos tampados pelas mãos do Anderson e sorrindo disse “papai”!!

Anderson tirou a mãos e contou ter uma surpresa pra filha. Ela perguntou o que era e o homem mostrou vários ingressos. Bia perguntou o que era e o pai respondeu “Nós vamos ao circo hoje”.

Por instinto Bia perguntou “Com que dinheiro?” mas o pai não ouviu já que naquele instante Gabriel passava correndo por ele com a mãe atrás tentando lhe alcançar para tomar banho. Anderson gritou “Vamos todos tomar banho porque vamos ao circo”. Gabriel ficou tão feliz que foi correndo para o banheiro.

Todos arrumados e bonitos foram ao circo. O circo era simples, mas muito bacana. Tinha palhaços, que faziam a turminha se divertir demais, trapezistas, malabaristas, refrigerante, cachorro quente e mágicos. Os mágicos eram o que mais fascinavam Bia em um circo.

Um mágico velhinho, andar curvado e uma imensa braba branca começou a fazer uns truques para alegria da criançada. Em determinado momento ele pediu um voluntário e Gabriel empurrou a irmã.

Antes que desse tempo da menina reclamar com o irmão o mágico fez sinal pedindo que a menina se aproximasse. Bia foi resmungando para Gabriel dizendo baixinho “você me paga” e se aproximou.

O mágico fez uns truques bem manjados com a menina utilizando cartas e coelhos e por fim fez um que dava a impressão que a menina fizera xixi de coca-cola.

Aquele irritou demais Bia ainda mais porque todos no circo começaram a rir, ainda mais que o menino que ela gostava estava no circo. Ela tentou se afastar do mágico voltando ao lugar quando ele respondeu “Calma, que tem mais um”.

Bia disse que não queria mais e o mágico argumentou “Esse você vai querer”. Bia voltou a se aproximar e o mágico pediu que se virasse para ele.

A menina se virou e o homem ordenou “Faça um pedido, mas não fale, apenas pense”. Bia olhou o mágico com cara de dúvida e o mesmo ordenou “Vá!! Faça!!”.

Bia olhou fixamente o mágico e pensou “Eu quero ficar rica”. No momento que Bia pensou uma grande trovoada foi ouvida do lado de fora do circo e a luz apagou. Uma gritaria se iniciou e Bia chorando gritou que estava com medo do escuro. O pai pediu que se acalmasse e tateando conseguiu chegar ao meio do picadeiro e pegar a mão de Bia. Até que a luz voltou.

O mágico não estava mais lá. Sumiu.

Bia sentou com os pais de volta a seu lugar intrigada com o sumiço do mágico. Gabriel perguntou o que ela tinha pedido e a mesma respondeu que não podia contar. Gabriel comentou “Eu pediria pra experimentar as nuvens e saber se tem mesmo gosto de algodão  doce”.

Voltaram pra casa e Gabriel logo caiu no sono. Bia ouviu os pais conversando e decidiu ouvir o que era. Parou na parede próxima e ouvia as preocupações da mãe em relação ao problema da casa.

Anderson pedia pra esposa se acalmar e que tudo daria certo. Mas Rebeca estava longe de ficar calma. A mulher, muito nervosa, gesticulava e falava alto pra Anderson sair do mundo dos sonhos completando “Só um milagre nos salva”. Anderson se levantou, pegou os ombros da mulher, olhou fixamente e respondeu “Milagres existem”.

Os dois se abraçaram e Bia voltou para o quarto. Olhando pela janela viu as estrelas e perguntou onde o mágico estaria. Completou perguntando “Será que vai demorar muito pra ficar rica?”.

No  dia seguinte acordou e não viu diferença nenhuma. Bia nunca fora rica, então nem sabia como era. Sentou ao lado do irmão para tomar café e perguntou a Gabriel “Ficamos ricos?”, Gabriel respondeu que não sabia e perguntou a mãe “Mãe!! Tem dez reais pra lanchar na escola??”. Da cozinha a mãe gritou que levariam lanche de casa e o menino emendou pra irmã “Ainda não”.

Foram pro colégio com Bia encafifada perguntando como saberia se ficou rica e assim teria o dinheiro pra  pagar os três meses de aluguel atrasado. O dia no colégio passava e nenhum sinal de
riqueza se aproximando. Bia começava a ficar desanimada.

Voltando pra casa viu anúncio em um poste e parou pra ler. Se entusiasmou e gritou pelo irmão. Gabriel se aproximou e ela mandou que lesse.

Gabriel leu atentamente e comentou “Corrida de bicicleta”. Ela pediu que ele lesse tudo e no fim estava escrito “Cinco mil reais de prêmio pro vencedor”. Bia, entusiasmada, comentou que aquele dinheiro era o suficiente para pagarem os três meses de aluguéis atrasados.

O menino comentou que era loucura, todos os meninos do bairro iriam disputar e eles não teriam chance nenhuma. Bia olhou séria pro irmão e perguntou “Você é um homem ou um rato?”. Indignado o garotinho respondeu “Sou muito homem” e a menina completou “Vamos treinar”.

Todas as tardes Bia e Gabriel saíam pra treinar pra corrida de bicicletas que ocorreria no domingo, um dia antes do prazo dado pelo Portuga. Era a última chance deles. A única chance.

Chegou o dia e o dois irmãos foram com suas bicicletas ao campinho onde se iniciaria a corrida. Gabriel estava certo, tinha muitos meninos no local e a maioria muito mais velhos que o casal de irmãos.

A largada foi dada e Gabriel ficou pra trás. Mas valente a menininha guerreira acelerou e foi pra frente enfrentar os grandões. Bia acelerava não só por ela, mas por seu pai, sua família e quando percebeu estava na frente.

Bia já se aproximava do fim da corrida sonhando com os cinco mil reais e descendo a ladeira que levava a faixa de chegada quando viu o mágico. O homem estava em uma esquina sorrindo para ela.

A menina virou para a cabeça trás pra ter certeza se era mesmo o mágico e acabou perdendo o controle da bicicleta. Tentou de toda as formas se manter em pé, mas não conseguiu, pra piorar caiu em um barranco.

A bicicleta de Bia saiu voando pelo barranco em um tombo que tinha tudo pra ser terrível e deixar a menina muito machucada. Gabriel vinha atrás e desesperado viu a bicicleta da irmã voar.

Parou perto do barranco, largou sua bicicleta e desceu correndo pelo mesmo gritando pela irmã. Chegou ao fundo esperando encontrar a bicicleta destruída, sua irmã machucada, mas encontrou nada. Nem sinal da bicicleta nem da irmã. Nervoso, rodou por todo o local gritando seu nome e nada.

Bia sumira.


 CAPÍTULO ANTERIOR:

A VILA 

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