terça-feira, 25 de julho de 2017

QUINZE ANOS: CAPÍTULO IV - MARÇO


E lá estava eu naquela sala de aula. Cheio de sono já que não estava mais acostumado a acordar tão cedo e o ar refrigerado da sala fazia bater um soninho muito gostoso.

Até que de repente senti uma bolinha de papel bater na minha cabeça. Quando olhei pra trás ninguém se acusou. Olhei novamente à frente para copiar o dever quando jogaram outra bolinha.

Olhei pra trás puto e gritei “dá pra parar?”. Naquele momento Luis Felipe e Rodrigo, grandes amigos meus, começaram a rir e a professora deu bronca perguntando por que eu estava virado pra trás e que eu prestasse atenção na aula.

Pedi desculpas e olhei para o quadro negro copiando a matéria e sofrendo um ataque de bolas de papel.
No intervalo matei a saudade de meus amigos. Gustavo, Rodrigo e Luis Felipe.

Estudava com o Felipe há dois anos, desde que mudei para o AME. No começo o achava esquisito, mas com o convívio vi que ele realmente era esquisito. Apelidamos carinhosamente de “Luis Mongol” por causa de umas “retardadices” dele. Ok, apelido totalmente politicamente incorreto, mas estamos falando de 1989.
Rodrigo e Gustavo conheci no ano anterior. Eram irmãos. Rodrigo era alto parecendo jogador de basquete, um daqueles negões da NBA.

E ele era todo americanizado mesmo, gostava de tudo que vinha dos EUA e lamentava não ser americano. Sonhava em ser piloto de caças e o seu apelido era “Top Gum”.

Sim, pelo meu sonho e o apelido dele vocês podiam ver como gostávamos desse filme.

Gustavo era mais novo que Rodrigo e mais na dele, introspectivo. Mas era um grande sujeito que podia contar sempre. Mesmo que no ano anterior tivéssemos disputado o amor da Raquel.E os dois perdido.
No recreio, perto da quadra de esportes, cada um contava como foi nas férias. Eles contaram de suas viagens, meninas que pegaram e chegou minha vez de contar.

Lembrei de John Travolta em “Grease” e na minha imaginação ajeitava um casaco de couro em arquibancadas de madeira e em forma de canção contava meu encontro com Fabíola em Maceió e como nos amamos naquele período com ele respondendo “tell me more, tell me more..”.
Mas na realidade eu só gaguejei a eles e contei que conhecera uma menina com Luis Felipe logo me cortando e dizendo que apostava que ocorreu nada.

Eu furioso olhei pra ele e disse que não era bem assim e Gustavo deu razão à Felipe. Ainda tentei contar das minhas férias, mas Rodrigo perguntou a Marco Aurélio como tinha sido as dele. Marco Aurélio, assim como muitos que estavam com a gente naquele ano era de outra turma. Ocorreu uma fusão das duas turmas de sétima série em uma só e como ele outras pessoas que viraram colegas de classe marcaram minha vida, como vou contar mais adiante.

Marco contou que não fora nada demais. Jogou bola, ajudou a mãe doente em seus momentos de dor e apanhou do pai quando ele bebia. Coisas rotineiras em sua vida.

Um silêncio constrangedor tomou conta de nós.

A vida do Marco era fácil não. Sua mãe tinha câncer e o pai alcoólatra descontava todas as suas raivas e frustrações nele, mas o Marco era um moleque muito gente boa, boa praça, era impossível não gostar daquele sujeito de riso escancarado e olhar triste.

Rodrigo quebrou o silêncio ao mostrar Raquel falando com outras meninas e lembrando que eu e Gustavo nos demos mal no ano anterior. Fiz cara de irritado e lembrei que até em velório fui para ficar perto dela.
Os garotos riram e o Marco que não me conhecia direito, conhecia mais Gustavo e Rodrigo por ser vizinho deles, perguntou velório de quem que eu fui, respondi que era de um tio dela e que quando soube que morrera me prontifiquei a acompanhá-la em um momento complicado.  

Marco comentou que devia ter sido um momento difícil pra ela e eu respondi que ela nem sabia o nome dele e eu entrara em uma furada. Todos riram e eu respondi pra não rirem que era sério, mas não me contive e concordei que era engraçado mesmo caindo na risada.

Gustavo perguntou se eu já tinha esquecido a Raquel e respondi que sim, estava completamente apaixonado pela Fabíola e não queria mais saber dela. Naquele momento Raquel passou com as amigas por nós, cumprimentou a todos e disse que se lembrou de mim nas férias.

Tomei um susto e perguntei como e ela respondeu que viu um show do Cazuza e sabia que eu adorava, comprou um LP dele e se quisesse depois me emprestava. Gaguejando respondi que tudo bem e ela se despediu dando uma piscada e saindo com as amigas.

Meus amigos riram e perguntaram se eu tinha certeza que não queria mais nada com ela e respondi que sim, meu amor por Fabíola seria eterno mesmo que nunca mais a visse. Eu seria mais de mulher nenhuma.
Não tinha sido de nenhuma até aquele momento, mudaria nada. Completei com convicção afirmando que queria que um raio caísse na minha cabeça se eu estivesse mentindo.

Naquele momento tomei uma bolada no rosto e vi mais nada.

Acordei caído no chão com um monte de gente em cima me olhando com preocupação e em especial uma menina linda, branca de cabelos negros e rabo de cavalo, manchinha verde perto da orelha. Ela estava com minha cabeça no colo e os seios firmes e pontudos como de qualquer menina de quatorze anos perto de meu rosto.

Enquanto ela nervosa perguntava se eu estava bem eu só conseguia olhar aqueles seios próximos de meu rosto. Então rapidamente fiquei sentado, peguei a menina em meus braços, olhei firmemente seus olhos e lhe beijei como Rock Hudson à Elizabeth Taylor em “E assim caminha a humanidade”.

Mentira. Ainda com a cabeça no seu braço respondi baixinho que estava tudo bem e ela aliviada respondeu “que bom” tirando o braço debaixo da minha cabeça e ela batendo no chão. Com a menina já de pé soltei um “ai” e ela pediu desculpas. Disse esperar que eu ficasse bem e voltou à quadra.

Ela tinha me dado uma bolada jogando voley, por isso caí desmaiado.

Eu ainda me recuperava com meus amigos rindo e falando que parecia que eu agarraria o seio dela. Perguntei quem era e Marco Aurélio respondeu que se chamava Ericka e era da sua turma. Perguntei se ela então agora fazia parte da minha turma assim como ele e meu amigo confirmou.

Dei um sorriso enquanto Gustavo me perguntava pela Fabíola. Enfeitiçado olhando Ericka jogar perguntei “Fabíola, que Fabíola?”. Voltamos à sala de aula e notei que Raquel estava sentada ao lado de Ericka na parte do fundo. Vi um lugar vazio atrás delas e bem na frente de meus amigos, peguei minhas coisas e fui pra lá.

Sempre fui da turma do fundão, quem senta na frente é CDF.

Sentei ao lado de um menino magricela e de óculos que me cumprimentou e disse se chamar George e comentei com Raquel que adoraria poder ouvir o LP do Cazuza e que o show devia ser demais. Ericka, como eu queria, se intrometeu na conversa e disse ser muito fã do Cazuza e perguntou que show Raquel tinha ido.

Ela respondeu e as duas começaram a conversar animadamente sobre ele esquecendo minha presença ali.
O professor entrou em sala de aula, deu bom dia e começou a passar sua matéria.

Em determinado momento o professor falava, não lembro por qual motivo, que ninguém era burro quando se ouviu na sala uma voz discordante e falando “Não professor, eu sou burro”.

Um silêncio tomou conta da sala e eu que só prestava atenção em Ericka notei no silêncio e olhei em volta. Todos olhavam pra mim. Fiz cara de espantado fazendo sinal negativo que tinha falado nada quando ouvimos novamente “Eu sou burro professor”.

Olhei para o lado e vi quem tinha falado. Foi George.

O professor chegou perto da gente e eu tentava me afastar de George como se quisesse dizer “tenho nada com esse maluco” e o professor olhando pra ele reforçou que ninguém era burro.

George reforçou que era burro e eles ficaram uns cinco minutos naquele debate existencial sobre a existência ou não da burrice. O professor irritado desistiu e voltou para frente da sala. Comentei com George que ele devia ser muito burro mesmo para entrar naquele tipo de debate com professor logo no primeiro dia de aula e ele me respondeu “Viu? Você concorda, sou burro, mas não sou mentiroso”.

No fim da aula despedi-me de Ericka e Raquel que naquele instante já falavam de Titãs e desci as escadas com Gustavo, Rodrigo, Luis Felipe e Marco Aurélio. Descendo avistamos George na frente e descemos correndo para alcançá-lo.

Pegamos o rapaz pelo ombro e perguntamos que história era aquela de burrice. Ele de novo disse que era burro e eu rindo comentei que podia ser, mas mais burro que o Luis Felipe era impossível. Enquanto o Felipe ficava puto comigo Gustavo convidou o George para ir conosco na pizzaria que tinha em frente ao colégio explicar aquela história de burrice.

Marco Aurélio disse que não iria por estar sem dinheiro e Rodrigo respondeu que ele iria sim que o George pagaria. George estranhou e perguntou “Vou pagar?”, Rodrigo respondeu “Sim, você não é burro?”.
Fomos à pizzaria chamada Zamak que até hoje existe ali. Sentamos e nem precisamos pedir. O garçom chegou logo comentando “pizza de calabresa gigante e um guaraná de dois litros”.

Já éramos bem conhecidos lá.

Gustavo respondeu que sim e que não se esquecesse de dividir a pizza em fatias, porque sempre que dividia em pedacinhos eu comia mais que os outros. O Zamak era nosso quartel general desde o ano anterior e sempre que passo à sua frente lembro daqueles tempos com meus parceiros inesquecíveis na pizzaria. Lá falávamos bobagens, jogávamos palitinho, forca e jogo da velha, brigávamos, fazíamos música e principalmente falávamos de mulheres.

Para aquele ano nossa turma tinha mais dois reforços. Marco Aurélio e George.

George não vinha nem de nossa classe nem da de Marco Aurélio e Ericka, era aluno novo do colégio então nós falávamos de todos os professores. Eu tinha um trauma que era a professora Lilian de álgebra e sempre comentei que ela fez parte da “Juventude de Hitler” e decidiu colocar o que aprendeu em prática dando aulas pra gente, fora que era feia de doer.

Acabou que pra enturmar os novatos comentei todas essas coisas na mesa e George contou “A professora Lilian é minha mãe”.Gustavo engasgou, Rodrigo assoviou, Luis Felipe olhou a vista e eu retruquei que apesar dela ser nazista e feia era ótima pessoa e eu gostava muito dela.

Bebendo um gole de guaraná falei baixinho que o George não era o único burro dali e ele disse para que eu não me preocupasse que sua mãe era tudo aquilo mesmo. Olhamos espantados para ele e George comendo um pedaço de pizza perguntou “qual o problema?”, Marco Aurélio respondeu “Você é um burro muito doido”.

Levantamos e pagamos a conta porque já era hora de ir pra casa.

Peguei meu busão, cheguei a tempo de ver He Man e Globo Esporte, joguei meia hora de vídeo game e me arrumei novamente para ir ao curso de inglês. Fui ao curso, voltei, joguei mais vídeo game, jantei, vi televisão e fui pra cama antes que minha mãe voltasse da faculdade e reclamasse que eu ainda estava acordado.

Deitei na cama e lembrei-me do meu dia, meu primeiro dia de aula.

Um grande dia onde revi amigos queridos e fiz novos. Amigos nunca são demais e quantos mais surgem mais bem vindos eles são e Marco Aurélio e George eram daqueles novos amigos para vida toda. Tão importantes que poderiam um dia parar em um livro sobre minha vida.

“A turma dos seis” do AME, uma turma inesquecível.

E também me lembrava que naquele dia conheci a Ericka, a mais nova paixão da minha vida. Impressionante como um menino de quatorze anos é volúvel.

Em poucos meses fui apaixonado pela Raquel, Fabíola e agora pela Ericka.

E não conseguia parar de pensar em Ericka e ela com o corpo perto de mim perguntando se eu estava bem..não conseguia..não conseguia..até que desisti e fui ao banheiro para “parar de pensar”.

Aquele mês de março foi incrível.


CAPÍTULO ANTERIOR:

FEVEREIRO

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