quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

VOLTANDO DAS FÉRIAS: O BEIJO E A CHIBATA


*Coluna publicada no blog "Ouro de Tolo" em 9/2/2014


E depois de mais de um mês estou de volta com as colunas semanais. Quase sentiram saudades não é? Pois eu senti desse nosso espaço para conversar. Hoje é uma coluna de “volta das férias” tipo redações que fazíamos no colégio de volta as aulas contando como foi esse período fora da escola.

Pois é querido professor. Não fiz muita coisa nas férias. Caminhei muito e o mundo continua girando da mesma forma que sempre.

Algumas coisas ocorreram. O ano do 2014 até agora mostra um “calor ensurdecedor” neste país tropical bonito por natureza onde temperatura de  40 graus virou algo rotineiro e aprendemos que esquiar na neve e andar em passarelas no Rio de Janeiro podem ser coisas muito perigosas.

Muita coisa aconteceu, mas duas coisas me chamaram a atenção para debater com vocês o quanto nossa pátria amada é hipócrita.

O assunto do garoto amarrado em árvore no aterro do Flamengo já  foi deveras debatido, até mesmo aqui no blog, mas eu não toquei nesse assunto ainda. Nem mesmo em rede social. Decidi falar sobre.

Primeiro não falei porque ao contrário de Caetano Velloso não tenho opinião sobre tudo que ocorre no planeta e segundo porque apesar de vivermos em um ambiente democrático e as redes sociais com sua diversidade serem exemplos disso não me senti seguro para dar opinião sem ser bombardeado por amantes do PSOL e cia.

Não. Antes que vocês pensem não sou “bolsonarista”. Não sou adepto do “bandido bom é bandido morto” do finado deputado Sivuca (ele morreu?). Mas também não sou Jean Willys nem Marcelo Freixo. Sou um ser humano normal e como todo ser humano normal  não estou fincado em um lado da sociedade.

Fiquei com pena do garoto? Não. Chorei por ele? Também não. Acho  o garoto uma vítima? Muito menos. Não gosto de bandido e ele é bandido com três passagens na polícia por furto e lugar de bandido é na cadeia. Tenho pena de trabalhador, pai de família, não de marginalzinho.

Mas leram o que escrevi acima? Lugar de bandido é na cadeia.

Para isso existem leis. Não existe nada nas leis que permita que pessoas comuns se achem  o Batman, saiam de suas batcavernas com roupa de tiazona esquisita, máscaras  (no caso capuzes) e se tornem paladinos da justiça batendo e amarrando pessoas nuas em árvores.

Quem deu esse poder a eles? Quem disse a eles o que é certo ou errado?

Ninguém. A sociedade aplaude porque foi “feita justiça”. Uma jornalista do SBT (gostosa) imbecil e com histórico de imbecilidade aplaudiu. Compreendo a reação da sociedade (não da jornalista), juro que compreendo porque estamos de saco cheio de sentir medo, de sermos afrontados, roubados em nossa paz. Domingo tive que andar de noite por ruas perigosas do centro do Rio passando por esses garotos e tive medo porque sei do que são capazes.

Mas isso não dá direito de alguém definir o que é certo ou errado e punições. Aplaudimos hoje, mas e amanhã se for com a gente? Podemos um dia sair na rua largados, de chinelo, roupa rasgada e sermos confundidos com bandidos, não podemos? Ou um filho mesmo. O aplauso continuará igual? Ah não. Quem faz justiça nunca erra não é? Isso nunca ocorre com gente de bem.

Já acharam o Amarildo?

Os justiceiros vão apenas no alvo mais fraco, um negrinho que pratica furtos (ainda por cima com a covardia do capuz) ou vão atrás de filhinho de papai rico que faz arruaça na rua também? Vão prender em árvore pitboy da Barra que espanca gay? Vão espancar e prender em árvore político corrupto? Vão fazer isso com miliciano?

Beleza. Vamos lavar nossas honras, fazer justiça, mas com todo mundo que burla lei, correto? Prender pelado em árvore quem comete assaltos, estaciona em lugar de deficiente, fura filas, dirige bêbado, faz mensalão ou esquema com trens.

Vão faltar árvores nesse país amigo.

Se for assim eu concordo. Talvez eu até pare em alguma árvore porque todo mundo comete pecados, mas vale a pena porque a justiça será feita. Se não for assim. Se baterem e prenderem apenas moleques negros fica parecendo racismo e não somos racistas, não é? Graças a Deus o tempo da escravidão, do pelourinho e da chibata acabaram no Brasil.

Ainda bem que ninguém é preso em árvore por deboche.

País esquisitão, estranho, que se diz liberal, avançado, mas dá força a tipos medievais de punição, que paralisa para assistir na tv um beijo gay na novela e pior, com muita gente sendo contra!!

País machão que se preocupa muito com a bunda dos outros. Demorou anos e anos para permitir um beijo gay na sua santa e pura novela das 21horas e que para esse beijo foi preparada toda uma situação, todo um planejamento de guerra para que a pudica família brasileira não se horrorizasse.

Porque ela não se horroriza com cara sendo esfaqueado algemado na cama como no capítulo anterior e sim com beijo.

Esquecendo que daqui a pouco é carnaval onde ninguém é de ninguém e que o seio dessa sociedade estará desnudo (a genitália não estará porque os bicheiros não permitem). Sociedade capaz de coisas obscuras e muito piores que um beijo gay. Amarrar gente em árvore, por exemplo.

Lados prós e contras ficaram tão exacerbados com o beijo entre Félix e Niko, foi criado em pleno século XXI um clima de final de copa do mundo tão retrógrado que ofuscou a verdadeira cena linda da novela que foi a paz entre pai e filho e pior, esqueceram do mais importante.

Que aquilo foi apenas um beijo.

Não existem beijo gay e beijo hétero. Existe beijo.   

Pelo menos devia ser assim.

E assim vi minhas férias professor Migão. Espero que tenha gostado da minha redação e vamos ao nosso ano letivo que apenas está começando.

Ah..Vi no google, o Sivuca ainda está vivo.

Como se isso importasse...
  

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