quarta-feira, 27 de abril de 2011

Capítulo II - Bola de gude, teatro e Manoela

Minha infância caminhava assim, uma infância normal, feliz, de uma criança normal mesmo que tenha nome de “Doido”.

Eu era um menino que estudava, brincava, adorava brincar na rua, no meu tempo não existiam computadores, vídeo games, meu negócio era brincar de peão, pipa, bolinha de gude, futebol, ficar de noite na rua e contar histórias de fantasmas com meus amigos.

Existia um casarão abandonado no bairro que falavam que era mal assombrado, uma noite eu, Gustavo e Rodrigo nos sentindo os valentões, decidimos fazer uma expedição na casa, munidos com lanternas entramos a procura de fantasmas, só achamos ratos e o Rodrigo tratou de quebrar a perna rolando da escada, quase que ele que virou um fantasma.

Mas eu me sentia o maioral mesmo era na bolinha de gude, ah, nisso ninguém me vencia, eu era imbatível, nem tanto..um dia chegou um menino novo no colégio e na hora do recreio me desafiou para uma partida, jogamos “a vera” mesmo, expressão usada quando é com aposta, pra valer, apostamos 100 bolinhas de gude num jogo, o colégio todo parou pra ver o desafio, até a Manoela estava lá e eu perdi..

Minha primeira derrota, eu olhava incrédulo as crianças levantarem o menino nos braços e o comemorarem como o novo campeão, a Manoela dando parabéns, ele rindo feliz e pegando minhas bolinhas, nunca havia me sentido tão humilhado, nem quando numa pescaria com meu avô o peixe mordeu a isca e levou minha vara embora, fui pra casa de mãos abanando, cheguei chorando e meu pai veio me perguntar o que tinha acontecido.

Respondi e ele me deu uma bronca, disse que um Alencar Varela não chorava, ainda mais por causa de bolinhas de gude e que não criava derrotados, eu tinha uma semana pra levar de volta essas bolinhas pra casa, vencer o menino e que se eu não fizesse isso tomaria uma surra de cinto de ficar com marcas, falou e saiu da sala, nisso chegou meu avô que ouviu toda a história, me fez um carinho na cabeça e falou pra eu não me preocupar, que iria me ensinar técnicas pra vencer o aluno novo.

Fiquei uma semana treinando com meu avô no quintal de casa, treinávamos o jogo de triângulo, consistia em a gente com nossa bola conseguir conquistar e tirar do triângulo o máximo de bolinhas, o com buracos, onde se usa a famosa expressão “marraio, feridô sou rei”, onde temos que conseguir colocar a bolinha em três buracos antes dos opositores e também o desafio cru mesmo, de um tentar acertar o outro, era como o Daniel San treinando karatê com o Sr. Myiagy (sim, sou velho, mas vi karatê Kid), faltava só meu avô me mandar pintar cerca e falar que fazia parte do treinamento.

Treinei muito, sangue, suor e lágrimas, ta, nem foi isso, exagerei, mas me senti pronto e desafiei o menino, o colégio parou de novo, apostamos 300 bolas, todas as bolas que eu tinha, se perdesse era meu fim, a Manoela foi assistir, aquilo me fez tremer, comecei perdendo mas reagi e venci, o fim foi diferente, os meninos me levantaram dessa vez, a Manoela me deu parabéns, o campeão estava de volta, restou ao garoto me cumprimentar e me dar as 300 bolas.

Voltei pra casa triunfante, me sentindo campeão mundial de alguma coisa, ator de Hoolywood, entrei e fui subindo as escadas, meu pai perguntou, apenas disse “venci” e pisquei pro meu avô, todas as vitórias da minha vida, até que não foram muitas, devo ao meu avô, o melhor homem que eu já conheci, minha mãe foi a melhor mulher.

Entrei no banheiro, tirei a roupa, me enfiei debaixo do chuveiro e despejei as 600 bolas, as minhas e as que conquistei, em cima de mim, eu merecia, eu era o campeão.

Sim, eu era campeão de bolinhas de gude, mas em assunto de coração eu era um “perna de pau”, via a Manoela todos os dias e mal conseguia falar com ela, me tremia todo com sua presença, não sabia como resolver, até que no meu colégio começaram aulas de teatro e resolvi participar, não porque eu me considerasse um grande ator, mas porque ela participava, iríamos encenar no fim do ano o nascimento de Cristo, ela seria a Maria, eu um dono de uma casa que recusaria hospedar os pais de Jesus.

Eram os meus melhores momentos na semana, quando eu tinha a oportunidade de ficar perto da Manoela, ensaiava com afinco as minhas três falas, me sentia um grande ator encenando Shakespeare, Manoela ficava linda vestida de Maria.

Chegou o dia da peça e deu tudo errado, cenário caindo, todo mundo esquecendo o que tinha que dizer, o que era pra ser um drama virou uma peça de comédia, na minha vez o menino que fazia o José esqueceu de dar a deixa pra que eu entrasse, deixa no teatro é uma fala ou ato que antecede entrada ou participação de alguém.

Nisso eu não entrei, a nossa professora mandava que eu entrasse e eu falava que o José tinha esquecido a deixa, foram uns cinco minutos nessa discussão e a platéia toda rindo, meu avô, minha mãe e meus irmãos gargalhavam, meu pai não sabia onde botar o rosto, até que entrei em cena, e os recebia em minha casa, eles se alimentavam, pediam pra se hospedar e eu não deixava.

Acontece que tinha uma cadeira na cena, que eu devia sentar, levantei e sentei algumas vezes na cadeira e a platéia percebeu que ela estava bamba, tentaram me avisar e eu não percebi, sentei na cadeira e ela quebrou, caí de bunda no chão.

Por alguns segundos fiquei paralisado no chão sem saber como agir, morto de vergonha meu mundo tinha acabado ali ao ver todos rirem de mim, ao ver a Manoela rindo de mim, mas uma idéia veio a minha mente, deixei de lado naquele momento o ator de Shakespeare e imaginei o que Chaplin faria naquele momento.

Então levantei, me virei para a platéia, fingi limpar a roupa e disse que não faziam mais móveis como antigamente e que os marceneiros deviam ser crucificados, a platéia gargalhou e começou a aplaudir, eu me abaixei agradecendo e ali salvava a minha participação e a peça, que continuou até o fim com muitos erros, como o fato da Maria ter dado a luz ao menino Jesus, estar com ele sentada na manjedoura e continuar com a barriga de grávida, mas aquele foi o meu dia, o meu momento, depois de encerrado recebi os cumprimentos de todos e um beijo no rosto da Manoela, a minha vontade era de nunca mais lavar meu rosto.

Era o momento mais amoroso da minha vida até então, superado dois meses depois quando um dia estava em casa e bateram na porta, atendi e era ela.

Deu um beijo de leve na minha boca, disse que gostava de mim e saiu correndo, fiquei sem reação, naquele mesmo dia peguei a minha bicicleta e saí correndo para sua casa, finalmente estava decidido a revelar todo o meu amor, quando virei a esquina de sua casa vi o carro de sua família indo embora e atrás um caminhão de mudanças, ela foi embora pra outra cidade, foi embora pra nunca mais voltar, foi embora da minha vida e se transformou em minha primeira desilusão amorosa, a primeira de muitas.

Mal consegui dormir naquela noite pensando no beijo que ela me deu e que ela tinha ido embora, dormi tão mal que acordei antes do meu avô para irmos pescar, levantei e bati na sua porta para sairmos, ele não me ouviu, bati mais, mais, mais..e ele não foi pescar comigo, não acordou naquela manhã, não acordou nunca mais.

O enterro do meu avô foi lindo e triste, quando o caixão dele desceu a minha infância também desceu e foi enterrada junto.










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